Pedro Duarte Bento
Arquitecto que já passou por alguns dos melhores ateliês da Europa e dos Estados Unidos, Pedro Duarte Bento é igualmente um fotógrafo fascinado por barcos e um impiedoso andarilho que se faz sempre acompanhar por papel e caneta.
A dada altura de uma entrevista que se transformou, graças ao instinto natural de contador de histórias do entrevistado, numa longa conversa repleta de cafés, cigarros e água das pedras, Pedro Duarte Bento afirmou, cândido como um garoto que ainda não tivesse descoberto a traquinice: “Não cultivo o meu lado solitário”.
Isto dito por um homem cuja obsessão por viagens, barcos e fotografia o deixou às portas da morte numa terreola nos confins da Índia, soa quase a boutade. Mais ainda se tivermos em conta que é arquitecto de profissão, e que, esteja ou não em viagem, gosta de se dedicar à mais solitária das artes, a escrita, que resulta em pequenos aforismos publicados no seu blogue, Vontade Indómita (www.vontade-indomita.blogspot), leitura de eleição de muitos intelectuais portugueses.
Basta ler dois ou três dos seus meticulosos posts, para nos apercebermos que este homem de gestos cavalheirescos, nascido em Évora em 1976, tem gostos estéticos bem vincados: além da fotografia e dos barcos, os temas são invariavelmente a velha questão homem versus mulher, prédios antigos, filmes noir, literatura policial, a paisagem suburbana norte-americana. Isto, diga-se, é o retrato de um solitário. Cultivado ou não.
A solidão, é sabido, é condição sine que non para permanecer constantemente em viagem. No caso de Pedro Duarte Bento, e tendo em conta a sua profissão, podíamos partir do princípio de que começou a viajar para conhecer in loco os prodígios da arquitectura que o homem construiu ao longo de séculos. Mas não: o seu amor pelas viagens começou de forma mais prosaica e valeu-lhe dentes partidos e muitas nódoas negras.
[DDET LER MAIS]
“Comecei a viajar muito com o râguebi, porque aos 15 anos cheguei à selecção nacional, onde fiquei até aos 22 anos”, confessa, admitindo que tem uma certa vergonha de o seu amor por viagens não ter uma origem mais romântica. É um homem alto e espadaúdo, bem apessoado, que aos 12 anos já brilhava no Clube de Râguebi de Évora, jogando “a asa e a número oito, o último avançado”. Ou seja: “Era um dos que ia ao embate”. À conta disto ficou com “menos dois dentes” mas ganhou vontade de correr mundo.
Ao início, e ao contrário do que mandam as regras dos grandes viajantes, começou a descobrir mundo “dentro de um âmbito colectivo”. Com a selecção foi a Lyon, Toulouse e Argens em França, a Merry Hill e Stratford-Upon-Haven em Inglaterra, a Pontevedra em Espanha e a Bucareste, para o campeonato do mundo de juniores. Viajar com uma selecção traduz-se em poucas oportunidades de dar largas à aventura, mas a ida a Bucareste foi diferente, marcante mesmo, e mudou-o para sempre.
“Cheguei a Bucareste no período pós-Chausesco: sentia-se o início de uma abertura”. Com um ou outro colega de selecção fez “incursões ao mercado negro”, onde comprou “produtos que ainda eram proibidos na Roménia, coisas tão simples como CDs dos Nirvana ou maços de tabaco Lucky Strike”. De certo modo foi “uma viagem iniciática”: Pedro descobriu, ainda adolescente, no caos de um país em revolução, “outro mundo que não o da Europa socialmente equilibrada”. E com essa descoberta chegou “o momento em que quis viagens com menos gente e percebi que os meus amigos não estavam virados para aí. Se não viajasse sozinho. não ia a lado algum”.
Palmilhar mundo
Pedro fez o curso a trabalhar em gabinetes de arquitectura, pelo que todo o dinheiro ganho era “gasto em viagens com namoradas”. Fez os trajectos habituais, idas à Índia e a Marrocos, país pelo qual ganhou uma certa paixão, ficando a conhecer bem a arquitectura de Chefchouan, Fez e Marraquexe. Começou depois a alargar o espectro das viagens, sempre à procura de arquitectura antiga e do enquadramento perfeito para uma foto. Em 2004 atravessou “o México durante um mês”, numa viagem “feita com mochila, nos autocarros regionais, daqueles que vêm carregados com hortaliça e animais” ou à boleia em carrinhas de “trabalhadores rurais”. O México deslumbrou-o, em particular graças à possibilidade de estar face a face com “a arquitectura maia, azteca, tolteca, olmeca e zapoteca”. Além disso apaixonou-se pelas “pequenas vilas escondidas”.
Ao longo destes anos o “grande motivo das viagens” de Pedro Duarte Bento “foi a aventura: ter um bilhete de ida, outro de chegada e nesse hiato perder-me e desenrascar-me”. Mas com o tempo as obsessões pessoais começaram a ser motivo de viagem. “Tenho um fetiche pela construção de barcos”, conta, para explicar que, na viagem ao México, aproveitou para ir a “dois sítios que não lembram a ninguém”: Puerto Progreso e Salina Cruz. São “cidades industriais com actividades ligadas ao mar” e “Puerto Progreso tinha um estaleiro” que visitou “com a intenção de fotografar”.
Depois começaram as viagens por motivos de trabalho. Há uns anos ganhou “uma bolsa de estudo da Fundação Oriente para fotografar as indústrias do ship-breaking na Índia e no Bangladesh”. O ship-breaking, explica-nos, “é um fenómeno de desmantelamento de barcos de grande porte, navios, cargueiros, petroleiros, porta-aviões”. Fazia-se em todos os países desenvolvidos, mas “a meio dos anos 80 concluiu-se que a prática era nociva, por causa da libertação de resíduos tóxicos, o que colocava em risco os trabalhadores”. Os países industrializados, conta, “ transferiram o fenómeno para os países em vias de desenvolvimento, porque num navio 95% das peças são recicláveis.”
A bolsa permitiu-lhe ir a dois locais muito pouco turísticos: na Índia esteve em Alamg, no Bangladesh em Chittagong. São “quilómetros de costa com praias recheadas de centenas de homens com maçaricos e martelos a desmantelar barcos”.
Em Alamg foi barrado pela oligarquia local, e depois adoeceu “com comida contaminada”. Alamg “é do mais remoto que há” e Duarte Bento viu a vida mal parada. Nessa noite dormiu “num hotel de estrada que era uma casa de alterne”. No dia a seguir foi para Amadhabad, “o aeroporto mais próximo, com um taxista de riquexó a motor e uma febre enorme”. Daí seguiu para Goa, “onde a Fundação Oriente tem uma delegação”. O médico da Fundação levou-o ao hospital. “Apaguei e estive quatro dias a soro. Não tenho memórias. Depois fiz convalescença na praia de Palolem”. Podia ter desistido do trabalho, mas mal se refez voltou à estrada: “Fui de Bombaim para Dhaka, capital do Bangladesh. E em Chitagong fiz finalmente o portfolio”.
Quando voltou a casa, decidiu, paradoxalmente, que “estava na altura de viver no estrangeiro”. Em Portugal, por esta altura, já tinha construído o restaurante Alfândega, em Lisboa, e uma casa no Alentejo. Mandou um portfolio para o atelier MAP, do arquitecto Jose Luis Mateo, em Barcelona. “Estive lá um ano. A vida era descontraída, havia amigos estrangeiros, vivia num bairro cosmopolita, num ambiente de boémia, viajava.”
Depois começou “a pensar em Nova Iorque, onde já tinha estado uns anos antes”. Decidiu “ir para lá procurar trabalho, à aventura”. Com uns dinheiros que tinha poupado viveu três meses no Harlem, sem fazer nada excepto visitar museus. Arranjou trabalho no atelier de arquitectura SOM. “Era em Wall Street, o oposto dos espaços de boémia que sempre me interessaram.”
Mesmo estando fixo numa cidade a trabalhar, a vontade de conhecer é tanta que Duarte Bento não consegue estar muito tempo parado no mesmo sítio. Em Nova Iorque viveu também no Upper West Side e em East Village. Depois despediu-se (“Não gostava de ter de usar fato e gravata”), fez uma viagem até Nashville “em carrinhas de chineses”, regressou, passou “duas noites num jardim” à procura de nova casa, até que encontrou “uma pensão chinesa” onde ficou um mês, antes de se instalar em Williamsburg.
Entretanto voltou para Lisboa, onde vende fotografia contemporânea e faz arquitectura freelance. Em Março de 2009 expôs as suas fotos na Galeria Pedro Serrano, uma colecção “dedicada à identidade suburbana norte-americana”. E entretanto já partiu para a Irlanda, voltou, montou um ateliê artístico e voltou a partir. Sempre em andamento, fiel ao mote que descobriu há uns anos: “O luxo não é viajar, é poder viajar sozinho”.
[/DDET]
por João Bonifácio
—









