Pedro Carneiro – Londres
Como marimbeiro, Pedro Carneiro tem participado regularmente em vários festivais de música por todo o planeta. A 21 de Junho, o caso é outro. O fundador, director artístico e maestro titular da Orquestra de Câmara Portuguesa apresenta-se com os seus músicos no City of London Festival. Um começo auspicioso para a internacionalização do agrupamento lusitano.
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Como é que uns headphones, um computador e um enorme talento levam à internacionalização da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP)? A 21 de Junho cabe à orquestra abrir o City of London Festival cujo tema é a lusofonia. Um grupo especial de corrida, que em terras de sua majestade tocará de pé e de memória. O que quer dizer que são duas estreias numa só: a internacionalização e não recorrer a qualquer partitura.
A expectativa do marimbeiro, compositor e maestro Pedro Carneiro é enorme, até porque esta “oportunidade fantástica” partiu de um convite de Ian Ritchie, director do festival, que, depois de assistir a um concerto de Pedro com o Quarteto Arditi no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, mostrou curiosidade em conhecer o trabalho da OCP. “Na altura estava com o computador, pedi uns headphones emprestados e mostrei-lhe o que era a orquestra, através de fotografias, vídeos e gravações.” Combinaram encontrar-se um mês depois em Londres, e nessa altura o convite materializou-se.
Ouro sobre azul, já que um dos grandes objectivos da OCP é ser rampa de lançamento de novos intérpretes, promovendo a sua integração no mercado europeu. Conta o director que o outro propósito é “potenciar o talento de músicos portugueses, numa idade crítica, aquela em que ainda se está a estudar ou se acabou de sair para o mercado de trabalho.”
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Com 34 músicos, esta orquestra fundada em 2007 pelo jovem marimbeiro Pedro Carneiro, beneficia sobretudo de intercâmbios com outros músicos. “Em cada programa há um ensaiador convidado. Pela mão de Joachim Bernauer, director do Goethe Institute, vamos ter em breve um ensaiador da Filarmónica de Berlim, que tem 65 anos e já tocou com toda a gente. Vai chegar, ensaiar estes músicos e contar que já tocou esta e aquela peça umas 600 vezes com o maestro X e Y pelo mundo inteiro. Não é receita que se compre num livro.”
Londres 1993-2002
Autêntico português no mundo, Pedro Carneiro aprendeu desde cedo a receita do perfeccionismo. Aos 17 anos emigrou para Londres com uma bolsa da Gulbenkian para frequentar a Guildhall School of Music and Drama: “Não havia em Portugal um curso superior de percussão.” Embrenhou-se tanto nas possibilidades académicas que, passados seis anos, deu-se conta que não conhecia bem a capital inglesa. “A minha vida era passada a estudar ou a correr para o Barbican, um centro multiusos.” Os rituais repetiam-se. Tocava com agrupamentos da escola, em pequenos festivais e ia fazendo audições. A escola funcionava como um agente. “Havia uma pessoa que fazia a ponte entre os alunos e os programadores. Tínhamos aulas de marketing, aprendíamos a fazer demos, na altura em cassetes, como preparar dossiês… A escola era altamente competitiva, mas pedagógica.”
Foram anos de uma actividade tão violenta que, quando acabou o curso, sentiu um vazio muito grande. Considerando que “Londres é uma cidade difícil e caótica”, foi aproveitando como podia. Os museus, viu-os de lés a lés. “Ia muito à Tate e ao Institute of Contemporary Art.” Nunca sentiu necessidade de matar saudades no Café Lisboa, em Portobello Road. Nem tão pouco teve contacto com outros portugueses que também ali viviam. Na escola dava-se com o melting pot. Aos seus pés, estava o mundo inteiro, e Pedro foi saciando as curiosidades que lhe passavam pela cabeça.
O que mais o impressionou, no entanto, foi a biblioteca da escola. “Para um português era assustadora, tem cerca de 70 mil discos, livros e partituras”. Resolveu por isso seguir o sábio conselho de um professor de análise. “Sugeriu-me que fosse à biblioteca pelas seis da manhã, escolhesse um disco e o ouvisse enquanto lia o respectivo book. Disse-me, ‘já viste quantos dias tem o ano? Quantas obras poderás ouvir?’ Fiz isso durante bastante tempo. Até porque às seis da manhã, na biblioteca, eram só os asiáticos e eu.”
A hiperactividade e a música
O jovem maestro assegura que podia não ter seguido as pisadas do pai, trompetista, professor no Conservatório Nacional desde 1975 e co-fundador da OCP. Lembra-se, no entanto, “do cheiro da resina dos arcos, do ruído da orquestra”. A mãe, conta, também tem um ouvido fantástico: “Anda sempre por casa a cantarolar”.
Porém, se quisermos mesmo arranjar uma razão para a paixão musical deste marimbeiro que o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung compara a “um super-homem vindo de outra galáxia”, encontramo-la nos confins da sua infância. Pedro era uma criança hiperactiva e como a progenitura não sabia o que lhe fazer, volta e meia partia em tournée com o pai. Aos cinco anos começou a tocar piano, violoncelo e trompete na Academia Luísa Todi, em Setúbal. Pedro diz que a música foi apenas uma das muitas actividades que o ocuparam. “Nunca tive a certeza de que queria ser músico profissional, mas houve um momento em que reparei que já não dava para jogar hóquei nem ténis, porque a música absorvia grande parte do meu dia.” Fosse no Conservatório, em Lisboa, fosse no Centre Acanthes, em Avignon, onde estudou com Sílvio Gualda, fosse na Guidhall School, em Londres.
Prestes a regressar à cidade do Tamisa com “a sensação que teria se estivesse a rever uma ex-namorada”, o agora maestro prepara-se com ansiedade para dar música à plateia da Guildhall Old Library, no âmbito do City of London Festival. À orquestra portuguesa caberá a honra de abrir as hostilidades, com a pianista brasileira Cristina Ortiz, num programa que inclui a London Symphony Orquestra e o Monteverdi Choir.
Além de obras de Joly Braga Santos, Luís Tinoco e Beethoven, a OCP apresenta ainda o Concerto Nº 2 de Chopin. Trata-se de uma homenagem ao compositor polaco, no ano em que se celebram duzentos anos sobre o seu nascimento, curiosamente “no mesmo espaço, onde Chopin deu o seu último concerto em público.” Marque na agenda: dia 21 de Junho, às 19h30.
City of London Festival, London
www.colf.org
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por Maria João Veloso
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