Patrick Watson, canadiano

on Feb 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

Portugal adora a sua voz e piano melancólicos, e ele adora vir cá tocar, perder-se nas ruas e surfar.

“Ahh Lisbon”, lemos no Instagram, estava ele num icónico bar do bairro do Príncipe Real onde se come e fuma até horas impróprias. “Quem quer viver até aos cem?”, sorri, enquanto acende um cigarro recostado na esplanada de um hotel, no dia seguinte. Olhos azuis inteligentes, cabelo despenteado, uma gentileza e ironia intactas. Quando veio a primeira vez a Lisboa encontrou a sua ideia primordial de Europa: “Finalmente! A Itália também tem este romantismo antigo supercurioso; mas aqui até a deterioração da cidade tem o nível certo, nem demasiado limpa nem suja, a quantidade certa de grasp and tiles. Se a fosses pintar, algo a mais ou a menos arruinava-a, é da maneira exata que deve ser. Herdou a alma melancólica portuguesa, que aprecio muito – amo totalmente –, quando ando por aqui penso sempre: Ah, amo este lugar”. Gosta de caminhar sozinho de madrugada pelas velhas ruelas, “ouvir o som da água, parece que a cidade canta, os edifícios são belos, tem um mood forte. E as pessoas, somos tão bem recebidos! As que nos trouxeram a primeira vez ainda são as mesmas, fico mesmo feliz quando as vejo. Eu e esta cidade temos qualquer coisa em comum, é das minhas preferidas no mundo”.

É mútuo. Não resistimos à sua voz e piano profundos, noturnos, luminosos, etéreos. Já cá tocou “muuuitas vezes”. A primeira foi há uma década, na Aula Magna: “Eram 800 pessoas e sabiam as canções! Nós ficámos: ‘What’s going on here?’ Foi de loucos, nem queria acreditar!”. Lembrou-se então que em miúdo “adorava absolutamente” o grupo português Madredeus, descobriu-os em Lisbon Story, de Wim Wenders e “ouvi-os em loop”. De resto, “todos os concertos em Lisboa foram especiais”, e terminam invariavelmente com o público de pé e ele no meio da plateia em absoluta comunhão: “Singing is the moment, not me”. Uma vez, no Coliseu, “isto é embaraçoso, decidimos cantar uma canção numa varanda [na tribuna] e uma rapariga quis trepá-la, gritei: Não te mates, por favor! Aparece depois do concerto!”. Já deu umas voltas em Portugal: “O Porto é uma cidade magnífica, é ridícula de tão romântica, é quase de mais, quase ‘oh meu Deus, vou apaixonar-me pelo meu baixista por acidente!’”, risos. Também elogia “aquela cidade com longos jardins e uma igreja”, isto é Guimarães, e Coimbra e a Nazaré. “Gosto de surf, peço sempre para me levarem ao mar”. Não viu “aquelas ondas doidas”, mas ficou tão contente, “ah this is so great!”. Uma vez, na Costa da Caparica, estava um mar enorme, “quer dizer, para o que sei fazer [risos], mas deviam julgar que eu era bom e deram-me uma prancha pequena: ‘Hummm, agora vou ter de fazer isto…’ I got my ass kicked, fui completamente destruído!”

O seu novo álbum, Wave, o sexto – que traz dia 23 de fevereiro ao Coliseu de Lisboa e dia 24 à Casa da Música no Porto –, fala precisamente da sensação de estar dentro de uma onda: “Toda a gente sabe, os portugueses ainda mais, quando é grande o melhor é não tentares combatê-la. O álbum é sobre esse momento em que sabes que o melhor é adaptares-te e relaxar; quando te deixas ir, te entregas, mas não desistes, confias de certa forma. Por isso o álbum resultou tão suave e profundo e humilde, é o momento em que cedes e, de repente, tudo se torna tão honesto que sabe bem. Mesmo que não seja o que queres ouvir, mesmo que não saibas o que vai ser a seguir”. Enquanto preparava estas canções que falam das “vezes em que tens de cantar uma canção de amor a ti próprio, porque ninguém o fará”, Patrick Watson perdeu a mãe, a namorada e o baterista de longa data. Ao mesmo tempo, “olhamos para o mundo como foi até agora e é impossível continuar a viver assim. Estamos num mundo tipo Walt Disney e há coisas terríveis a acontecer. Mas os tempos difíceis também trazem um trabalho conjunto e coisa incríveis, é só aceitar o caminho, em vez de estar sempre a combatê- -lo”. Agora conheceu uma pessoa maravilhosa numa praia, conta: “Deitamo-nos lado a lado e, acontecesse o que acontecesse, era uma sensação de profunda sinceridade, a de poderes dizer à outra pessoa: isto é o que eu sou. Foi a coisa mais íntima e honesta que vivi, muito melhor que sexo”.

patrickwatson.net

 

por Patrícia Barnabé /// foto Ilenia Tesoro

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Em Lisboa, o bar Snob é um “grande vencedor, o prego é maravilhoso e entras numa cápsula do tempo. O mundo é melhor assim, a fumar num bar estranho, a ter conversas weirdo com desconhecidos, já um bocado bêbado. Prefiro o Velho Mundo”. Na mesma cidade elege também a marisqueira Ribadouro, “o polvo e o peixe são sempre bons”.

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