Patrícia Portela, Bélgica

on Jan 1, 2013 in Partida | No Comments

É escritora, encenadora, dramaturga, cenógrafa e atriz, entre outras coisas, e cria mundos paralelos em forma de livros, jardins, tertúlias, performances e peças radiofónicas. Leva-os a todo o lado, mas tem os pés assentes em Antuérpia e Lisboa.

“Não se vai para casa para um sítio, vai-se para casa para uma pessoa.” Ela disse isto a propósito de uma peça que estava a estrear e que falava de alguém que andava sempre a mudar de terra (Babbot). Ela que foi “feita em Angola”, nasceu em Lisboa – em 1974 – viveu em Macau e estudou em Utrecht e Helsínquia, mudou-se para Antuérpia porque encontrou a sua casa no mundo: Christoph De Boeck, músico, criador de cosmogonias sonoras, belga. Onze anos mais tarde esta parceria amoroso-artística declina-se em várias criações e uma filha – a Zoe. E a Bélgica exerce plenamente o seu fascínio. “Há pessoas de todo o mundo e um meio artístico e cultural extremamente diversificado, combativo e discursivo – aliás uma coisa que se verifica em todos os níveis da sociedade. É um país autoestrada: pela negativa é uma autoestrada literal, por onde passam todos os camiões que se deslocam pela Europa, pela positiva é uma autoestrada para o conhecimento, para a transação de ideias, de culturas, de povos. E isso é maravilhoso para quem vem de um sítio onde o mar é mais importante do que a terra. Como os canais de comunicação estão sempre a funcionar, encontras imensa gente interessada nas mesmas coisas que tu. Em Antuérpia encontrei muitas almas gémeas.” Também descobriu lá as estações do ano (“em Portugal nem dava pela chegada da Primavera”) e os céus. “Os céus da Bélgica são maravilhosos. Quem gosta de pintura, e da escola flamenga, percebe finalmente – ah, eles viam isto da janela. Eu estou completamente belguizada. O meu ritmo é perfeito, faço tudo a pé ou de bicicleta, tenho tudo à mão, trabalho muito em casa, sou mais bicho eremita do que em Lisboa e tenho muito mais tempo.” O que lhe falta em Antuérpia são os amigos portugueses e a desconversa só possível na língua mãe. “E imensas coisas invisíveis que não sei explicar. Tenho muitas saudades do humor português. O humor belga é genial, é corrosivo, nós somos terrivelmente românticos mesmo quando não queremos. Enfim, eu gosto destes dois mundos e posso ter os dois. É perfeito.” Nem sempre foi assim, ela que toda a vida viajou, sempre foi um pouco estrangeira onde quer que estivesse. “No início era horrível porque andava cá e lá, e toda a gente, de um lado e do outro, perguntava ‘quando é que te vais embora?’ assim que eu chegava. Agora é outra coisa, agora eu sou de todo o lado. Isto de viver nos dois mundos permitiu-me, não só uma elasticidade na maneira como me relaciono com o meu “alienismo”, mas também uma “alieneidade” na maneira como me relaciono com os outros. Passas a escolher o que queres ser em ambos os sítios – não quer dizer que sejas uma pessoa diferente em cada um deles, quer dizer que escolhes a dose certa. No projecto Hortus há uma frase muito bonita de um senhor chamado Paracelsus, que diz que só a dose faz o veneno. E se calhar a diferença entre o alien e o comum é apenas uma questão de dose. Também há uma frase maravilhosa do Caetano Veloso que canta que “de perto ninguém é normal”. Somos todos a mesma coisa. Ora essa perceção clara de que somos todos aliens só me foi possível depois de me pôr nessa posição física de estrangeira.”

Patrícia Portela nunca encaixou em categorias finitas, mesmo as das artes. É uma desarrumadora de ideias feitas, uma incitadora de pensamento, uma “perguntadeira” profissional. Trabalha a palavra como coisa plástica, as ideias como coisa de todos os sentidos. Criou viagens virtuais para uma performer-astronauta (em Wasteband), fez peças de teatro que começavam num texto que se construía enquanto matéria viva no ecrã e acabavam em museus, com passagem por armazéns semidestruídos e rapto do público em autocarro (a trilogia Flatland, trágica história de um Homem Plano que descobriu que lhe faltava uma dimensão), que lhe valeu vários prémios, nacionais e internacionais e tomou corpo de livro (Para Cima e Não para Norte, que em outubro do ano passado foi lançado no Brasil) como também Odília, história de uma musa confusa no cérebro de Patrícia Portela. Mas também fez cinema (é dela a cenografia de Inventário de Natal e é ela uma das protagonistas do fantástico Kalkitos, ambos do realizador Miguel Gomes), peças radiofónicas à la carte (AudioMenus), a biografia de um ser extraordinário (A colecção privada de Acácio Nobre), tertúlias mais ou menos vanguardistas, encontros utópicos, salões literários e até jardins – Hortus, uma instalação sonora interativa para um jardim onde circula uma história, acompanhada com palestras visionárias sobre um futuro próximo, estreou no verão passado em Bruxelas e Lisboa e no outono em Londres e na Letónia. E tem feito tudo isto com a Associação Prado – Ideias Ruminantes, a sua outra casa desde 2005 (http://espacoruminante.blogspot.pt/).

Talvez a (in)classificação mais próxima do que ela faz seja criadora de mundos paralelos, com tangentes ao real. O mais recente é um livro, lançado no último outono pela Editorial Caminho, que primeiro foi um repasto de filosofia gourmet para o fim dos tempos. O Banquete alimentava todos os sentidos do público comensal que, sentado a uma mesa objeto (que em Lisboa serpenteava numa das majestosas salas do Palácio da Ajuda), ia sendo servido de extraordinárias iguarias e textos da mesma estirpe, por vários performers. A peça foi considerada uma das 10 melhores de 2007 pela imprensa belga e ficou um ano a correr mundo, enquanto Patrícia decidia transformá-la num texto “à séria”. Entretanto deixou de suportar o cheiro da comida. “No meio deste projeto que era sobre a imortalidade, engravido! Gravidez de risco, morte e vida, e eu, que era uma adepta dessa ideia neoliberal de que nós interferimos no mundo mas o mundo não interfere connosco, que vamos ali ter uma criança e depois pegamos ao serviço, percebi que nada do que eu tinha planeado ia acontecer. Qualquer mulher emancipada que leu Simone de Beauvoir aos 14 anos tem alguma dificuldade em lidar com aquilo que não controla. E foi a melhor coisa que me aconteceu. É uma queda livre, e eu estava a precisar de uma queda livre. Ela tinha 2 dias e eu, enquanto ela dormia a sesta, escrevia. Depois ela acordava. O livro passou a ser uma coisa não apenas minha, mas nossa. Três anos e meio mais tarde o livro está feito e é dedicado à Zoe porque ela escreveu uma grande parte dele. E este livro sou eu”.

Por Maria João Guardão

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Lugares do coração

Na cidade de Rubens, da arquitetura vanguardista, dos diamantes e dos criadores de moda mais extraordinários, há lugares que são muito dela. “Em Antuérpia desço as escadas e estou na melhor trattoria de gastronomia italiana do mundo, a Particolare (Kasteelstraat, 57). O chefe Philippe Grootaert inventa pratos maravilhosos servidos numa esplanada linda com mesas e bancos corridos. O Revista (Karel Rogierstraat, 47) fica ao pé do Museu de Belas Artes e é um sítio de habitués, minúsculo mas com uma esplanada maravilhosa. Tem jornais e revistas sempre frescos, pequenos-almoços e sandwiches deliciosos e espumante a copo. E depois há o Monty (www.monty.be),a catedral do teatro, o palco icónico onde começaram os Stan (o coletivo que mudou as regras do jogo teatral a partir dos anos 90) e onde passa tudo e mais alguma coisa que queremos ver num palco. É um projeto pessoal de dois apaixonados pela arte, que estão lá desde o princípio e que tanto programam como cortam o bilhete. Estreámos lá A Coleção Privada de Acácio Nobre.

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