Paris, França

on Mar 1, 2015 in Partida | No Comments

Paris? Em português, s’il vous plaît! Fomos à procura de sinais de Portugal na capital francesa e viemos de lá com um roteiro que nunca mais acaba.

  • Tour Eiffel
  • Busto Camões
  • Promenade Amália Rodrigues
  • Lusofolies
  • Igreja Nossa Senhora de Fátima
  • Galerie Jaeger Bucher
  • Comme a Lisbonne

 

“Paris não sejas portuguesa, tu és francesa…” A canção de Amália rezava ao contrário, mas quem estiver atento encontra na cidade-luz muito de Portugal: instituições, ruas, igrejas, restaurantes, cultura, ou não fosse esta, logo a seguir a Lisboa e ao Porto, a cidade do planeta onde vivem mais portugueses. Os números rondam os 700 mil na região metropolitana Île de France e 120 mil dentro dos limites da cidade. É muito português junto!

Mas como e quando chegaram aqui tantos descendentes de Afonso Henriques? Os principais motivos encontram-se na nossa história em vários momentos dos últimos dois séculos. O maior fluxo aconteceu na década de 60 do século passado, quando uma crise agrícola eclodiu em Portugal e o regime ditatorial de Salazar (e a guerra colonial por ele alimentada) forçaram ao êxodo muita gente: do mais respeitado pensador ao mais humilde agricultor.

A história da emigração portuguesa em Paris merece ser contada, vista e revista. E este roteiro serve para mostrar que Portugal está um pouco por toda a cidade, seja nas muitas ruas com nomes portuguesa, nos restaurantes que conquistam os franceses pela barriga, nas instituições que põem a lusofonia nas bocas do mundo, nas igrejas onde as missas se rezam na língua de Camões ou nos nossos compatriotas que se misturam no dia-a-dia da cidade. Mas aos sinais óbvios da omnipresença lusa, juntam-se muitas curiosidades. Sabia que o vinho com que se brindou à inauguração da torre Eiffel, em 1889, era português, mais propriamente da ilha do Pico?

Às artes!

Em 1906, um jovem estudante de arquitetura partia para França. Chamava-se Amadeo de Souza-Cardoso e foi um dos primeiros artistas portugueses a experimentar a roda viva que era Paris no começo do século XX – nas artes, nas letras, na vida social. Ao chegar à cidade, Souza-Cardoso privou com Modigliani, Delaunay e Brancusi, que marcaram profundamente o seu caminho enquanto artista. O ateliê do pintor, no número 14 da Rue Cité de Felguière, já não existe, mas a sua obra persiste: passe pelo Centro George Pompidou e veja Cavaleiros.

Seguiram-se vários outros, atraídos pela boémia, pela libertinagem e pela cena artística pujante. Porque a lista é extensa e porque nem todos deixaram trabalho à (ou na) cidade, falemos apenas de mais dois: Maria Helena Vieira da Silva e Manuel Cargaleiro.

Vieira da Silva foi estudar escultura para Paris com 20 anos. Foi lá que fez nome na pintura e que conheceu o marido, o pintor húngaro Arpad-Szenes. Nos anos 50 a pintora exilou-se definitivamente em Paris, onde viveu e trabalhou até ao final da sua vida. A sua casa e ateliê (que pertence hoje a outra família) ostenta uma placa que assinala a passagem do casal de pintores pelo número 34 da Rue Abbé Carton. A galeria Jaeger Bucher, que desde 1933 representa a artista, tem uma série de trabalhos em exposição permanente. Também permanentes são os painéis de azulejos assinados por Manuel Cargaleiro que enfeitam o acesso à plataforma da linha 1 na estação de metro dos Campos Elísios. A explosão de cor não passa despercebida entre as paredes habitualmente brancas das estações. O pintor e ceramista assinou também um painel para o edifício da Caixa Geral de Depósitos em Paris.

Amadeo Souza-Cardoso – Centro Georges-Pompidou \\\ Place Georges-Pompidou \\\ www.centrepompidou.fr
Vieira da Silva – Casa \\\ 34 Rue de l’Abbé Carton \\\ Galeria \\\ 5 e 7 Rue de Saintonge\\\ www.galeriejaegerbucher.com
Manuel Cargaleiro – Estação de Metro Champs-Élysées/Clemenceau – linha 1

Bom português

O genial poeta modernista Mário de Sá-Carneiro viveu boa parte da sua vida em Pigalle, aos pés de Montmartre. No então hotel de Nice, escreveu alguns dos seus melhores textos, poemas e também muitas cartas que trocou com Fernando Pessoa, inclusivamente aquela em que se despede do amigo. Em abril de 1916, Sá-Carneiro pôs fim à vida no seu quarto. Hoje, o Nice é o Hotel des Artistes e na fachada pode ver-se uma placa dedicada ao poeta que está longe de ser o único homem das letras português homenageado em Paris.
Apesar de nunca ter morado em Paris, o autor de Os Lusíadas, Luís de Camões, não só tem direito a uma rua com o seu nome, como tem um busto em sua memória bem pertinho da Torre Eiffel – vantagens de ser o pai da quarta língua mais falada do mundo!
Eça de Queirós, conhecido como o autor de Os Maias e de outras obras-primas do realismo em Portugal, não se dedicou apenas às letras, mas também à diplomacia. Eça foi cônsul de Portugal em Paris e por isso não é de estranhar que o seu nome apareça na fachada do número 5 da Rua Crevaux no chique 16º arrondisement. Depois, Eça mudou-se para as portas de Paris, para a comuna de Neuilly-sur-Seine. O escritor viveu no número 32 da Rue Charles Lafitte e o seu busto em mármore pode ser visto na Avenue Charles de Gaulle.
A língua portuguesa mora na boca de milhares de emigrantes e luso-descendentes e também em livrarias como a de Michel Chandeigne. A Librairie Portugaise et Brésilienne vende livros de e sobre os países lusófonos e é uma referência; em França e não só.

Mário de Sá-Carneiro – Hotel des Artistes \\\ 29 Rue Victor-Massé
Eça de Queirós – Casa Paris \\\ 5 Rue Crevaux \\\ Casa Neuilly-sur-Seine \\\ 32 Rue Charles Lafitte \\\ Busto Neuilly-sur-Seine \\\ Avenue Charles de Gaulle
Librairie Portugaise et Brésilienne  – 19/21 Rue des Fossés Saint-Jacques \\\ www.librairie-portugaise.com

Caldeirões culturais

Foi uma senhora portuguesa que encontrámos por acaso que nos falou do Lusofolie’s, espaço cultural dedicado à lusofonia no Viaduc des Arts. A ideia partiu de quatro portugueses radicados em Paris. João Heitor, um dos quatro, é livreiro dos sete costados e está encarregue da pequena biblioteca que aqui funciona e da vasta programação cultural que inclui concertos, leituras e exposições – “tudo falado nos muitos sotaques do português”, diz ele. A par disso, há um café onde não faltam pastéis de nata, café Delta, petiscos e vinhos do extremo ocidental da europa. O Lusofolie’s conquistou o seu lugar ao sol em seis meses, mas não vai adormecer à sombra da bananeira. “Há muitos projetos na forja, que agradam a portugueses e a franceses, que nos visitam cada vez mais”, conta.
Em 2011, o Centro Calouste Gulbenkian de Paris mudou da casa do empresário, mecenas e colecionador de arte arménio para uma nova morada, trazendo atrás a maior biblioteca portuguesa fora de Portugal (são mais de 90 mil volumes) e, claro, a sua razão de existir: “ser um baluarte da educação, ciência e cultura portuguesa em França”, explica o diretor, o professor João Caraça. Neste novo espaço há também lugar para conferências e exposições como Pliure.Prologue, uma viagem sensorial pelos livros e pela arte que se pode ver até 12 de abril.
Da Gulbenkian saltamos até uma sua afiliada, a Casa de Portugal André Gouveia. Além de receber estudantes do ensino superior em Paris, a Casa promove uma série de eventos culturais à volta da lusofonia: sessões de cinema, conferências, exposições e concertos.

Lusofolie’s – 57 Avenue Daumesnil  \\\ www.lusofolies.fr
Fundação Gulbenkian – 39 Boulevard de la Tour-Maubourg \\\ www.gulbenkian-paris.org
Casa de Portugal André Gouveia – 7 Boulevard Jourdan  \\\ www.ciup.fr/residence-andre-de-gouveia/

Em cena

Emmanuel Démarcy-Mota é um ator e encenador luso-francês que, desde 2008, é também diretor do Théâtre de la Ville – um dos mais vibrantes polos culturais da cidade. Nos últimos sete anos, muito graças a Emmanuel, dezenas de artistas (e companhias) portugueses estrearam-se ou voltaram a Paris para atuar no Théâtre ou no festival Chantiers d’Europe. Se estiver na cidade-luz em Março, tome nota: no dia 16, o fado de Joana Amendoeira e a morna de Nancy Vieira têm encontro marcado às 20h30 no Théâtre de la Ville. Mais à frente no ano, o habitual Festival de Outono – que durante quatro meses junta artistas de renome (franceses e estrangeiros) – vai voltar a contar com portugueses no alinhamento, palavra de Emmanuel, diretor do festival.

Théâtre de la Ville – 2 Place du Châtelet  \\\ www.teatredelaville-paris.com
Festival D’Automne – www.festival-automne.com

O nosso roteiro leva-nos agora até Notre Dame. Não a basílica gótica da margem direita do Sena, mas a do 19º bairro. Porquê? Porque esta é a Notre-Dame de Fátima, consagrada a Nossa Senhora de Fátima e, por isso, a mais frequentada pela grande comunidade portuguesa. Mas não é a única. Há outra igreja onde se fala português: a de Saint-Marie des Batignolles. O guardião do templo diz-nos que “há mais de 15 anos todos os domingos, sem exceção, às nove horas da manhã, a missa é rezada em português por um padre angolano”.

Sanctuaire Notre Dame de Fátima de Paris – 48 Boulevard Sérurier \\\ www.sanctuaire-fatima.com
Église Sainte-Marie Des Batignolles  – 77 Place du Docteur Félix \\\ www.ste-marie-batignolles.com

Gula

No centro de Paris há uma casa bem portuguesa a fazer furor entre os parisienses. Chama-se Comme à Lisbonne e começou por ser uma loja mínima que vendia pastéis de nata e meia-dúzia de portuguesices: sardinhas e andorinhas em cerâmica da Bordalo Pinheiro, conservas Tricana e azeite português. Mas a fama cresceu e o lugar também. Hoje o Comme à Lisbonne é ainda um pequeno restaurante onde os sabores lusitanos estão sempre na ordem do dia. Fomos confirmar e o único senão é… ter de escolher entre os vários petiscos que cheiram e sabem a Portugal. A somar a isto, um atendimento eficaz e dedicado, como é apanágio dos portugueses.
Se o Comme à Lisbonne é um bebé em Paris, o Saudade é já veterano. O restaurante português mais antigo e em atividade em Paris tem como especialidades tudo o que inclua bacalhau. Outro incontornável é a padaria Aux Délices du Palais, de António Teixeira e do filho Anthony. António ensina a missa ao Papa e faz a melhor baguete de Paris. Além disso, é responsável pelo 4.º melhor macaron e pelo 7.º melhor éclair da região da Île de France. E se António dá cartas com produtos franceses, Moisés e a mulher Agnés mostram, na sua loja Lisboa Gourmet, o que de melhor e mais saboroso há em Portugal. Croquetes, pastéis de bacalhau, saladas frias (de polvo e de bacalhau) e outros petiscos para comer lá ou levar para casa. Conservas, flor de sal, azeite, sumos, azeitonas, queijos e enchidos e vinho – muito e bom vinho. “Os franceses já sabem que os vinhos portugueses são fantásticos e que têm uma relação qualidade/preço imbatível”, diz Moisés.
Antes de darmos o assunto por terminado (com a certeza de que há muito bom restaurante que aqui não coube) não podemos deixar de falar do castiço Café du Château – Chez César et Paulo, onde pode beber um cerveja portuguesa e ver um jogo de futebol. Será melhor recebido se for do Benfica.

Comme à Lisbonne – 37 Rue du Roi de Sicile  \\\ www.commealisbonne.com
Restaurante Saudade – 34 Rue Bourdonnais
Aux Délices du Palais  – 60 Boulevard Brune \\\ www.boulangerieauxdelicesdupalais.com
Lisboa Gourmet – 96 Boulevard des Batignolles \\\ www.lisboagourmet.com
Café du Château – 143 Rue du Château

por Maria Ana Ventura fotos Émilie Gouband

Arquivos

Mais portuguesices…

1 - Além da Avenida Camões, há outras ruas portuguesas em Paris. É o caso da Rua Vasco da Gama, da Magellan (Magalhães), da Tejo, da Lisboa e da Avenida dos Portugueses.

2 - Amália Rodrigues encheu o Olympia em diversas ocasiões. A fama da fadista em Paris era (e é) imensa, e não apenas junto da comunidade portuguesa. A voz de Portugal tem uma Promenade com o seu nome no 19º bairro.

3 - Na Place Vendôme, junto à loja da Cartier, há uma parede onde estão gravados os brasões das famílias reais europeias, a portuguesa incluída.

4 - Para saber mais sobre a imigração portuguesa passe pelo Museu da História da Emigração.

5 - No Louvre encontra um quadro atribuído ao pintor renascentista português Nuno Gonçalves: chama-se L’homme au verre de vin e está na Ala Richelieu.

6 - Há uma mão cheia de revistas e jornais portugueses em Paris. Entre eles, os jornais Lusopress e LusoJornal e a revista Cap Magellan. A rádio Alpha está sintonizada na maioria das casas portuguesas em Paris.

7 - Festas portuguesas em Paris? Tome nota de algumas. A mais popular é a da Rádio Alpha, que junta milhares em torno da música. A associação Cap Magellan organiza um rally paper de verão para descobrir Portugal em Paris e um tradicional magusto outonal. Anualmente, no Hôtel de Ville, acontece uma gala que distingue os portugueses do ano.

8 - Se não viu, veja: A Gaiola Dourada, filme do luso-descendente Ruben Alves. Um retrato irresistível de uma família portuguesa em Paris. O filme bateu recordes de audiência, em Portugal e em França.

Agradecimentos

A Up agradece à Atout France, à Loja de França (www.lojadefranca.com) e ao Hotel Napoléon o apoio na realização desta reportagem. 

Hotel Napoléon

A localização não podia ser melhor: a dois minutos do Arco do Triunfo e dos Campos Elísios. Serviço atento e dedicado, decoração elegante, quartos extra espaçosos e confortáveis e um rol de serviços a condizer. Cinco merecidas estrelas. www.hotelnapoleonparis.com

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