Pantanal – A natureza em paz

on Jul 1, 2018 in Partida | No Comments

Existem poucos lugares no mundo onde o verde tem espaço de liberdade e abundância, e onde pessoas e animais convivem em harmonia. Uma energia especial que vem de uma natureza em bruto e torna-se magia quando se acrescenta a gentileza dos pantaneiros. Deus passou por aqui com certeza.

Em estado puro

O Pantanal é difícil de medir, mas estende-se por cerca de 230 mil quilómetros quadrados de beleza natural. Património mundial protegido pela UNESCO, é um pouco de todos nós, um gigantesco parque na sua grande parte a sul do estado do Mato Grosso e noroeste do Mato Grosso do Sul, no centro do Brasil, e abraça também o norte do Paraguai e o leste da Bolívia (onde se chama Chaco). É uma das maiores extensões húmidas do planeta, situa-se na bacia hidrográfica do Alto Paraguai que, por ser tão plana, alaga e os animais recolhem-se para as áreas mais altas. Assim, os afluentes do rio Paraguai, mais de 170, criam extensas áreas inundadas, reforçadas pelas fortes chuvas que caem de outubro a abril e lhe conferem um clima húmido (que pode chegar aos 80% de humidade), um solo fértil e o aspeto verdejante e saudável que nos enche as medidas.

Quando começa a vazar, no período que se diz ser de seca, entre maio e outubro, os animais regressam e o Pantanal exibe a sua flora e fauna exuberantes. Devido ao difícil escoamento das águas, cria-se uma espécie mar interior que forma baías com centenas de quilómetros, lagos e pequenas ilhas, e os leitos dos rios vão abrindo novos caminhos. Por isso, a sua paisagem nunca se repete. Ao longe, recortam-se serras no horizonte que se estendem até oeste, até aos limites da cordilheira dos Andes, e emolduram um paraíso. É difícil encontrar adjetivos terrenos que consigam descrever tamanha beleza, sem parecerem irreais. É natureza em estado puro e generoso.

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Céus coloridos

“Há vários Pantanais, sabia?”, diz-nos Fátima Cordella enquanto deslizamos pelo maior afluente do rio Paraguai, sereno e luminoso no seu fim de tarde. Consta que o português Aleixo Garcia subiu este rio Miranda até à cidade de Corumbá, em 1524, atraído pelas pedras e metais preciosos usados pelos indígenas. Continuamos por um dos seus afluentes, o rio Salobra, nascido na serra da Bodoquena, “o Pantanal já foi mar”. A nossa viagem começa em Miranda, “a cidade portão do Pantanal”, onde Fátima foi pioneira no turismo ecológico.

O Pantanal é dos maiores redutos de aves aquáticas do mundo. Desligamos o motor para ouvir os piares, é hora de recolherem aos ninhos. Vê aquela árvore seca? São dormitórios. Até o sol se pôr vai ficar pretinho de pássaro”, diz Fátima. Aqui existem 650 espécies de aves, é delirante. Viajantes de todo o mundo voam para aqui no verão para observá-las. As mais impressionantes são as araras, as azuis – que estiveram quase extintas, devido à desflorestação e ao tráfico da espécie, hoje salvas pelo projeto Arara Azul (projetoararaazul.org.br), que criou ninhos artificiais – mas também as encarnadas, lindas, e as amarelas e turquesa. Na fazenda Pedra Branca moram muitas araras azuis. Os céus estão numa animação de asas e grasnares pousados nas palmeiras mais altas. E a jovem Elisa, que perdeu o seu par há dois anos para uma cobra sucuri. As araras acasalam para a vida, por isso Elisa nunca mais voou e só Juliano, o rapaz que cuida dela, pode acariciar as suas penas azul vibrante. Também se avistam nuvens de papagaios verdes, periquitos fluorescentes ou os mais raros, de testa azul; os belos tuiuiús (símbolo do Pantanal) com longas cabeças pretas, garças (a moura é a maior da América Latina), colhereiros (rosados pelas conchas que comem), seriemas (chamam-lhe o ‘despertador’ do Pantanal) e patos bravos quase extintos devido à caça, entre muitos. À noite, corujas e mochos, misteriosos e seráficos. Por cima da nossa porta numa das fazendas vivia uma coruja branca com a sua ninhada felpuda. E algumas aves de rapina, em pose no topo das árvores, respondem se chamadas voando tangentes perfeitas sobre a água. E depois existe a ema, uma espécie de avestruz, que levanta o pescoço curioso e os olhos de pestanas bamboleando-se sem medos à nossa frente.

Na Fazenda Baía Grande, o nosso passeio foi acompanhado por um casal de martim-pescadores, que Cláudio, o guia, chamava de amigos, o Romeu e a Julieta. Seguiram-nos, vigilantes, até ao lago das piranhas, onde fomos pescar e ver o pôr do sol. Também deu nome aos jacarés. Aqui, o pequeno-almoço demora porque nos perdemos a observar os pássaros que pousam bem perto para bicar as frutas que deixam para eles. Até os belos e esquivos tucanos com o seu bico imponente se deixam observar, enquanto um casal de pica-paus disputa um pedaço de manga. À entrada, os colibris pairam subtilmente sobre as flores.

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Água é vida

Seguimos por uma reta que parece não ter fim, mas tem, 200 quilómetros sempre em frente, sem enganar. Estamos a cinco metros de altura da vegetação, se não seria intransitável nas cheias”, diz Fátima Cordella. ”Quando tem água, é divertido navegar nas margens e ver os macacos.” Guia vagarosa e não vacila perante os camiões carregados de soja que, diz, “arrasam com a natureza“. Vamos em passeio: “A regra é não correr, porque aí vai atropelar” e vemos ao longo da estrada placas a pedir cuidado com cada bicho que podemos encontrar no caminho. “Todas as árvores do Pantanal dão flor, fica tudo florido.” São os ipês que se veem por todo o lado e se tornam brancas, amarelas, rosas e roxas, em contraste com a terra vermelha. Depois, em mais de mil espécies de plantas pousam mais de um milhar de borboletas.

Os pássaros reinam, mas existem cerca de 260 tipos de peixes e 113 répteis, sendo o mais evidente o pachorrento jacaré. Cecília Marques, da Pousada Nativos, diz que “jacaré aqui é que nem pedra”, estão por todo o lado e parecem embalsamados ao sol. Ao fim de uns dias, já nem lhes ligamos. Existem tartarugas e cobras, a sucuri é a mais popular, e não tem perigo a menos que as pise, mas os guias que nos levam pelo mato conhecem-no de cor. Se há coisa que se aprende aqui é que os bichos não nos ligam assim tanto e têm mais o que comer. Os mamíferos são cerca de 80 espécies no Pantanal e passeiam-se entre o fugidio, o curioso e o desinteressado. Na Estrada do Parque, em terra batida, avistam-se muitos pássaros nos cursos de água, mas ver mamíferos é sempre uma sorte. A natureza imprevisível e selvagem. As fazendas têm safaris de observação, fizemos três de dia e dois noturnos, que são muito empolgantes. É comum cruzarmo-nos com vagarosas famílias de capivaras, que nos viram o rabo gordo e indiferente; cervos-do-Pantanal de grandes orelhas, no meio do capim, papa-formigas (o bandeira é o mais vistoso, com uma enorme cauda), tatus e lobos. Os mais fascinantes? As ariranhas, raras e grandes lontras, as tarântulas (numa árvore onde espreitam do ninho) e as onças pintadas (ou jaguares) que vimos à noite: o macho belíssimo escondido nos arbustos e a fêmea com as duas crias à beira do riacho. Suspende-se a respiração e ficamos crianças.

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Que bem se vive no campo

A vida na fazenda é dura e bela. Faz parte da natureza do pantaneiro ser rijo e apaixonado. O dia começa com o sol, aqui a natureza é que manda. José Bastos diz que não usa GPS, conhece todos os caminhos por esse Pantanal: “Não fico mais de dois meses sem me embrenhar na selva.” E aprendeu com o pai a subir às árvores como os bichos. “Tenho quase 70 anos, mas isto é que é vida.” Faz passeios com grupos, sobrevoa esta beleza de avião, e agora fá-lo de jipe, a partir da Pousada Pioneiro, que é também um centro pantaneiro, dirigido pela filha Cristina que nos recebe num abraço: “somos calorosos, aqui a gente ‘pega’”.

Esta zona tem a segunda maior reserva indígena do Brasil, os índios que sobreviveram ao extermínio das guerras iniciadas pelos portugueses, às doenças e aos novos hábitos adquiridos com “o homem branco”. Os índios Terena são os mais sociáveis e recebem os viajantes que os queiram conhecer, num centro próprio que celebra a sua cultura, em Miranda, ou nas suas aldeias. Cecília Marques, da Pousada Nativos, trabalha com voluntários no resgate da sua cultura: “São nove aldeias que subsistem”, diz. Criou grupos de bate-pau, a dança de celebração, e trabalha para as novas gerações não perderem a língua nativa. Fala-nos de Denise, uma índia que se pós-doutorou no tema e criou um dicionário de língua terena. Vivem da plantação de milho, batata e mandioca, alguns trabalham nas fazendas. E são matriarcados: “Eles desbravam a terra, mas são elas que fazem tudo, colhem e vendem na cidade, cuidam dos filhos e gerem o dinheiro. Eles não carregam nem uma sacola”, ri-se. Têm apoio sanitário, de saúde e até psicológico, por causa do choque cultural, tinha-nos dito Fátima, “repare, todos têm moto e telemóvel”.

Das experiências mais fascinantes é o chamado toque de gado, uma comitiva de pantaneiros a cavalo que encaminham os bois para a fazenda. São 25 quilómetros no lombo de um bicho dócil e habituado a estas lides. Saímos de madrugada da Fazenda Hi Fish acompanhados por experientes e atenciosos peões. É indescritível a sensação de proximidade de uma manada, bovinos jovens e fortes, quase todos brancos, alguns com manchas castanhas e cornos longos. Sente-se respeito e comunhão, atravessam-se lagos e paisagens e os olhos perdem-se horizonte fora. A meio do caminho paramos para almoçar e dar descanso, a nós e aos animais. A comida de comitiva sai de grandes panelões por baixo de tendas improvisadas, e sentamo-nos onde calha em alegre bravata seguida de uma sesta em redes atadas às árvores. “Hoje a maioria leva o gado em camião, este é dos poucos lugares no mundo que mantém a tradição da comitiva”, diz Gerson, um elegante pantaneiro da velha guarda. “É um ato de amor e bravura.”

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Serões, comer bem, celebrar a vida

“Coisa mais linda do mundo este Pantanal, gente! Dá um olhar nesse visual e diga se viu isso em algum lugar?”, diz Cristina no palco da Noite Pantaneira que organiza na Pousada Pioneiro. Jovens índios da aldeia da Cachoeirinha cantam, tocam e dançam, aprendemos truques de cowboy, e ouvimos as canções que se dançam nos clubes do laço em várias aldeias. “Pantaneiro que não dança é falso”, diz Cristina ao microfone, e todos se levantam para dançar ao som do violão, mulher com mulher, novo com velho. No fim, assaltamos os panelões que estiveram a ser mexidos horas a fio num lume brando vindo do fogo de chão: arroz com carne, macarrão com carne, frango na panela e arroz, feijão e mandioca, sempre saborosos e em abundância. Há sempre queijo caipira e sopa paraguaia, uma espécie de bolo de milho e queijo. À chegada, ao almoço, tínhamos provado as especialidades da Pousada Pioneiro, em especial os doces à base de bocaiuva, a fruta de uma palmeira do cerrado com que se faz farinha para pão, bolos, gelados e batidos. “A melhor sobremesa do Pantanal”, diz Cristina orgulhosa. Provámos todos. Os sumos no Brasil são variados e deliciosos, experimente o de guavira, fruta selvagem só colhida em novembro. Também é de experimentar o terere, chá mate em água fria ou sumo e menta, que se bebe por uma palhinha que filtra as ervas de uma caneca alta ou de um corno de boi, e se bebe no mato com a calma daqueles campos.

Numa terra de gado, a carne é o centro da mesa, nos convívios reina a famosa picanha, carnes variadas no churrasco ou no espeto de pau. “Bebe-se uma cervejinha e começamos a mentir”, como diria José Bastos. Foi inesquecível o serão na bela fazenda 23 de Março onde, depois de um dia a cavalo, os irmãos Dittmar cantaram em uníssono e poesia as tradições pantaneiras. Também se cozinham peixes de rio como o pacu, o mais corrente, e no Bento’s experimentámos iscas de piranha e a moqueca de pintado. A fazenda Hi Fish tem uma aquacultura com sucesso que vende para todo o lado, a bem da diversidade na dieta. Em algumas fazendas, como a San Francisco, existe uma boa seleção de saladas, e no Refúgio Ecológico Caiman há pratos vegetarianos e vegan para os amantes dos animais. A descoberta que deixa saudades? O caldo de piranha que se come no Porto da Cida, à beira do rio Salobra. “É o viagrinha do Pantanal”, diz Fátima, que nos quis mostrar este segredo. Repetimos três vezes, é muito bem feita – e uma trabalheira, “o peixe tem mais de 350 espinhas”, justifica Reybi Gumieiro, que a fez com tomate, cheiro verde, alho, cebola, batatas e mandioca.

Na Baía Grande, que é uma fazenda de corte (criação de gado para abate), Alexandre Costa Marques, um homem cheio de mundo, fez questão de conseguir aquela picanha e os convivas lamberam os dedos. Deixamo-nos ficar à conversa noite dentro, ao pé do fogão: “O pantaneiro é muito hospitaleiro, e o turismo ajuda na solidão”, diz. “Mas tem de amar, gostar não chega”.

Come-se bem em quase todo o lado, mas o melhor doce de leite do planeta está na Fazenda San Francisco, é à base de leite de búfala e demora seis horas a mexer no fogão. No luau organizado pelos donos Betty e Roberto, a dois passos da pousada, mas onde não se sente a civilização, todos repetem o doce várias vezes e dança-se ao ar livre. Roberto pede para apagar as luzes e o som, e instintivamente todos levantamos os olhos para o céu límpido de estrelas. Como diria o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade: “Entre o céu e a terra, o espetáculo do mundo”.

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Novos ventos

A fazenda Baía Grande são 2000 hectares de terreno e 20% são protegidos, como diz a lei. “O ecossistema brasileiro é o mais preservado do mundo e 80% desse trabalho é feito pelo pantaneiro, não por ONGs, porque 90% do Pantanal é privado”, sublinha Alexandre Costa Marques. “E é um exemplo para o mundo do cruzamento feliz entre a proteção e a agropecuária.” Alexandre, superconsciente politicamente, acrescenta ainda o orgulho que sente na importância cada vez maior da mulher pantaneira: “Está-se evidenciando cada vez mais, como Dona Betty e suas filhas na Fazenda San Francisco”. Betty está sempre impecável no seu chapéu de cowgirl e camisa arregaçada, tem 14 800 hectares e metade é reserva desde os idos de 1970. “Naquele tempo era frescura”, diz o marido Roberto, à mesa de jantar. O casal faz reflorestação e investe em projetos de proteção animal. “Quisemos fazer certo. Dividimos a terra em estradas de terra batida para se uma onça gostar de outra poder atravessar sem cercas. Com as fazendas, estávamos roubando o espaço delas.”

O Refúgio Ecológico Caiman é uma espécie de farol de futuro das outras fazendas em matéria de ecologia, graças ao sentido de missão de Roberto Klabin, conhecido pelo seu amor à natureza. Jessica é bióloga e guia, leva-nos pela sua fazenda, a mais preservada de todas, e explica-nos o apaixonante projeto onçafari (wconservation.com). A caça da onça só foi proibida em 1967, mas ainda subsiste “porque um cara que caça é sinal de um cara poderoso e muito macho, na mentalidade de uma aldeia pequena”. Espalharam 70 câmaras pelos 54 mil hectares da fazenda e estudaram o seu comportamento provando “aos cowboys que não são elas quem mata o seu gado”. Os números dizem que 70% cento dos jaguares que sobram no planeta estão no Brasil, na Amazónia e no Pantanal. “O turismo bem feito é uma solução”, diz Jessica. “Porque se plantar soja der mais dinheiro, a onça não sobrevive. Queremos que um lugar preservado seja mais valioso do que um lugar devastado.”

 

por Patrícia Barnabé /// fotos Carlos Pinto

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Arquivos

Não se esqueça

Antes de partir para o Pantanal, vá ao médico para uma consulta do viajante, provavelmente ele irá indicar vacinas contra a febre amarela, cólera, difteria e hepatite A. E leve consigo: antibiótico de largo espetro; medicamento para complicações intestinais; paracetamol; um termómetro; pensos rápidos; agulha e linha; chinelos (jamais ande descalço); e binóculos, claro.

 

Agradecimentos

A UP agradece todo o apoio prestado pela Visit Pantanal, em particular a Cristina Moreira Bastos; à Associação de Turismo de Miranda e Região do Pantanal de Mato Grosso do Sul; e à Pioneiro Turismo.

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