Ouro, diamante, pedra

on Sep 1, 2017 in Bagagem de Mão | No Comments

O estado brasileiro de Minas Gerais é uma excitante viagem no tempo em busca dos caminhos antigos do minério precioso, entre arquitetura histórica e natureza poderosa.

 

Já com o avião da TAP a sobrevoar o Atlântico, recordo mentalmente a canção de Milton Nascimento, “Para Lennon e McCartney”, na qual orgulhosamente canta: “Sou do mundo sou, Minas Gerais”. E é para ter orgulho. É verdade que Minas Gerais não tem praias de mar, uma das imagens fortes do Brasil, mas tem história, património, cultura, belezas naturais, boa comida e a obra de artistas de eleição, Aleijadinho e Oscar Niemeyer, que deixaram cada um na sua época uma marca de génio. É importante referir que a UNESCO declarou Património da Humanidade os seguintes: Cidade Histórica de Ouro Preto (1980), Santuário do Bom Jesus de Congonhas (1985), Centro Histórico da Cidade de Diamantina (1999) e Conjunto Arquitetónico de Pampulha (2016).

 

Aleijadinho em esplendor

Ouro Preto fica a menos de duas horas da capital, Belo Horizonte. A viagem inicia-se cedo, sendo oportuna uma pausa para tomar um cafezinho a meio caminho. A escolha do local torna-se óbvia: o Museu Jeca Tatu, um bar de estrada cujo dono transformou o local num bric-à-brac multicultural, com uma parafernália onde se juntam milhares de discos e toda a sorte de objetos. É ainda a primeira oportunidade para uma incursão na gastronomia mineira, pois os pastéis de angu têm fama.

A cidade teve a sua origem e desenvolvimento no século XVIII, no ciclo do ouro, crescendo de tal forma que se tornou na maior cidade da América Latina da época. Em 1730 Nova Iorque tinha apenas metade da sua população. O seu centro histórico é um museu ao ar livre onde tudo nos remete para o século XVIII.  Ruas, edifícios e igrejas lembram-nos Portugal, com a diferença de que parece que o tempo aqui parou. E parou mesmo, pois o ouro esgotou-se em meio século, perdendo a cidade habitantes e importância, ficando presa no tempo, situação que só foi recuperada com o desenvolvimento do turismo.

O percurso deve iniciar-se na Praça Tiradentes. Num dos topos da praça encontra-se o Museu da Inconfidência Mineira, que guarda as memórias do movimento liderado por José Joaquim da Silva Xavier, que a história regista como o nome de Tiradentes, precursor da independência do Brasil. No seu interior tem obras do escultor Aleijadinho e de Mestre Ataíde, um grande pintor da época. Mas Nossa Senhora do Pilar é a igreja mais cintilante pela quantidade de ouro utilizada, sendo nesse aspeto considerada a segunda mais rica do Brasil (e um museu com algumas obras do incontornável Aleijadinho). Vale a pena visitar ainda as igrejas de Nossa Senhora do Carmo e a do Rosário dos Pretos. A primeira, também com a marca de Aleijadinho e Ataíde, destaca-se por ser a única na cidade que exibe azulejos portugueses na capela-mor. Quanto à segunda, tem a curiosidade de ter sido construída por escravos negros para o seu culto.

A curta distância fica Mariana, que deve o nome a Maria Ana de Áustria, mulher do rei D. João V, tendo sido a primeira vila, cidade e capital de Minas Gerais. A recuperação da sua estação ferroviária e do antigo trem (“Maria Fumaça”) são, para além de património, atrações turísticas. Mas antes de chegar a Mariana é obrigatória uma visita à Mina da Passagem, considerada a maior mina visitável do mundo, com 30 quilómetros de túneis. Há alguns anos ficaram célebres as fotos de Sebastião Salgado (também ele de Minas) da Serra Pelada, no Pará, com impressionante massa humana na pesquisa de ouro.

 

Máquina do tempo

Ao longo da viagem abundarão as referências à Estrada Real, construída para mais rapidamente transportar o ouro e diamantes extraídos das minas para a costa, onde os barcos os levariam à Europa. A Estrada Real é hoje uma rota turística de 1630 quilómetros que liga Minas aos estados do Rio e de São Paulo. Na época, a construção da estrada foi uma verdadeira epopeia, envolvendo milhares de escravos e reduzindo a uma semana uma viagem que durava mais de dois meses.

E chegou a hora de rumar ao Santuário do Bom Jesus em Congonhas, “cidade dos profetas”, designação que se deve às estátuas dos 12 profetas esculpidas por Aleijadinho em pedra-sabão em tamanho natural, integrando ainda o conjunto as capelas do Senhor dos Passos, com 64 imagens em cedro, trabalho que contou também com Ataíde. O rico conjunto barroco é uma obra notável que merece figurar em qualquer lista das grandes maravilhas do mundo.

Para o final do dia está reservada a chegada a um (mais um) ponto alto da viagem: Tiradentes. Há uma década atrás, na primeira visita a Minas Gerais, fiquei deslumbrado com esta cidade: juntando todos os predicados dos lugares históricos mineiros, é a que melhor transmite ao visitante a sensação de regresso ao passado. Passear pela cidade a partir do cair da noite é entrar numa viagem recheada de magia e sonho em que por vezes parece ouvirmos vozes e ruídos de antanho. Tiradentes mantém, no essencial, a generalidade das qualidades que a tornaram famosa, mas locais como este exigem cuidados redobrados para que não se perca o que têm de mais valioso: a alma. Eventos como a Mostra de Cinema (em janeiro) e o Festival de Cultura e Gastronomia (agosto/setembro) contribuem para o prestígio cultural da cidade. É obrigatória a visita à Igreja de Santo António, com fachada de Aleijadinho. À sua frente situa-se um dos ícones da cidade, um relógio de sol em pedra-sabão da época, local preferido em Tiradentes para fotografar.

Para cumprir o percurso, falta apenas São João del Rey. Além do interesse histórico, traduzido em especial pela Igreja de São Francisco de Assis, é conhecida por ser local de compras, em especial peças de estanho e artesanato, mas é também famosa pelo rocambole, famoso doce em todo o Brasil. Uma palavra ainda para Tancredo Neves, nascido ali, muito estimado pelo seu papel no regresso do Brasil à democracia em 1985.

Faltou ainda a visita a Sabará e Diamantina, mas, com tempo, valem também a pena. Na primeira há sinais do trabalho de Aleijadinho, em especial a pia batismal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e a maravilhosa Sant’Ana Mestra do Museu do Ouro. Pelo seu lado, Diamantina, que deve o seu nome aos diamantes, é hoje uma cidade onde a música é vivida de forma muito especial, sendo a Vesperata, que atrai os melómanos diversas vezes por ano, um espetáculo único que envolve toda a população.

 

Por Inhotim

De regresso a Belo Horizonte, o primeiro dos três dias disponíveis está reservado a Inhotim, cuja ambição é conseguir “uma nova maneira de viver no mundo contemporâneo”. Um dia completo é insuficiente para ver tudo o que oferece: o jardim botânico, arte contemporânea, arquitetura e responsabilidade social. A manhã do segundo dia foi dedicada ao Complexo da Pampulha, nascido da aliança entre o dinamismo do mineiro Juscelino Kubitschek (mais tarde presidente da República) com a arte de Oscar Niemeyer.

Seguiu-se o Mercado Central, que oferece a possibilidade de conhecer a qualidade e diversidade da gastronomia e do artesanato de Minas. Aberto todos os dias, nas suas 400 lojas encontra-se tudo o que a imaginação solicitar. E o dia completa-se na Praça da Liberdade, em torno da qual se desenvolve desde 2010 o polo cultural Circuito da Liberdade. De momento são 15 instituições, incluindo museus e outros equipamentos, que se harmonizam com alguns dos edifícios de grande qualidade, de entre os quais brilham os desenhados por Niemeyer, o edifício com o seu nome e a biblioteca pública. O Centro FIAT de Cultura tem sempre boas exposições temporárias, mas deve ser visitado quanto mais não seja para apreciar o maravilhoso mural Civilização Mineira, pintado por Portinari em 1959.

Onde a visita não poderá ser breve é ao Memorial Minas Gerais Vale. Revela aos visitantes a história, os personagens, a alma e as tradições de Minas, utilizando todos os meios artísticos disponíveis, destacando os escritores Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, o fotógrafo Sebastião Salgado e a pintora e escultora Lygia Clark. Da história ao panteão da política mineira, do barroco sagrado e profano ao modernismo mineiro está lá tudo. (Na próxima viagem a Belo Horizonte, pois já decidi voltar, reservarei hotel na Praça da Liberdade para ver tudo com calma. Além do mais, entusiasma-me a ideia de ficar alojado numa praça com o nome Liberdade.) E chega ao fim esta viagem a Minas Gerais, recordando palavras de João Guimarães Rosa: “Só, e no mais: sem ti, jamais nunca – Minas, Minas Gerais…”.

 

por António Monteiro /// fotos SETUR

Arquivos

Dormir, comer, beber

Não há dificuldade de alojamento em Minas Gerais. A oferta é diversificada, com inúmeras pousadas de charme, muitas das quais situadas em edifícios históricos. Uma referência especial para os locais que conhecemos melhor: o Hotel Mercure, em Belo Horizonte, e as Pousada do Arcanjo (Ouro Preto), Mãe de Água (Tiradentes), Vista da Serra e Mirante (Brumadinho). Na gastronomia: Minas é filha das suas origens e história, beneficiando da qualidade e diversidade dos produtos naturais. Para acentuar o casamento da modernidade com a tradição, realizam-se importantes eventos gastronómicos, como o internacional Festival de Gastronomia de Tiradentes (agosto). Igualmente representativo é o Igarapé Bem Temperado, juntando chefs já consagrados com “Mestras” tradicionais. Destaque em Outro Preto para o tradicional Chafariz, em que a qualidade é servida num ambiente em que tudo nos recorda a história. Em local próximo situa-se o Passo, que, partindo de origens italianas, oferece uma gastronomia mais moderna. Em São João del Rei vale a pena ir ao Dedo de Moça. Se viajar entre Congonhas e Tiradentes no período da refeição, o Café com Prosa é uma boa opção. Belo Horizonte assume-se ainda como capital do “boteco”, conjugando-se mesmo o verbo “botecar”. No centro da cidade ao fim do dia a multitude de locais tornam difícil a escolha. No Mercado Central os mais famosos são os bares da Lora e o António.

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