Oliver Balch, britânico

on Sep 3, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Escritor de viagens e jornalista (colabora no The Guardian e Financial Times, entre outros), a sua família escolheu o Porto para uma nova vida. Foi a decisão perfeita, e ele explica tudo.

Portugal é, inquestionavelmente, único e convidativo, mas a minha intenção nunca foi mudar-me para cá. Porém, em 2016, houve o referendo sobre o Brexit e, como britânico eurófilo que sou, tudo mudou. Nessa altura, vivíamos felizes e contentes na zona rural do País de Gales. Contudo, a perspetiva de morar numa espécie de “little Britain” não nos agradou. Então, optámos por sair: mas para onde? Portugal surgiu logo como opção. Uma noite, durante o jantar, discuti a ideia com Emma, a minha mulher. Não conseguimos encontrar qualquer aspeto negativo, por isso, decidimos nesse mesmo instante. No espaço de um mês, partimos.

Tirando a política interna da Grã-Bretanha, o futuro dos nossos filhos estava no centro das nossas preocupações. Os nossos dois rapazes – Seth (11 anos) e Bo (10) – nasceram no estrangeiro e estávamos ansiosos para que eles crescessem como bilingues. Aprender a língua também era importante para mim. Como aspirante a latino- -americanista, eu falava espanhol, mas pouquíssimo português.

Na nossa mudança para Portugal, a campeã foi a Emma. Como produtora cultural, tem um olhar atento para lugares prestes a transformarem-se em algo especial. Após uma breve estadia no Porto, a sua intuição disse-lhe que Portugal estava a entrar num desses momentos. Quando regressou, foi muito direta: “Pronto, vamos mudar-nos para o Porto”. Por outras palavras, um fait accompli. Neste sentido, o nosso debate ao jantar – sobre o clima excelente de Portugal, o povo simpático, a sua riqueza histórica, a sua paisagem variada – foi, de facto, supérfluo. A sua decisão estava tomada: seria Portugal.

Tal como a vida, também os casamentos se transformam nestes momentos. Felizmente, desde que chegámos, há dois anos, não tivemos motivos para nos arrepender. Não que restassem muitas dúvidas. Para quem chega como perfeito estranho a qualquer lugar do mundo, Portugal é um lugar quase inigualável. Porquê? Pergunte- -se a um brasileiro (como aliás faço sempre, geralmente durante as minhas viagens com a Uber) e ele responderá com uma longa lista de frases negativas. Portugal não é atormentado pela violência com armas de fogo. Não é um lugar inseguro para criar os filhos. Não está constantemente em crise. Não é culturalmente intolerante. E não é corrupto – pelo menos endemicamente. Tudo perfeitamente correto. Pessoalmente, prefiro pensar nos aspetos positivos. Os atrativos de Portugal são, como já foi dito, bastante evidentes. E desde a minha chegada a este país posso adicionar outros atributos à lista. Por exemplo, as boas estradas e aeroportos. Outros pontos positivos incluem as inúmeras opções de aluguer, as ruas limpas e (em comparação com outros lugares da Europa Ocidental) um custo de vida razoável.

Contudo, nenhuma destas razões explica o quão fácil é alguém instalar-se em Portugal. Para tal, é preciso olhar para o caráter do país. E, com isso, refiro-me principalmente ao coração aberto e ao espírito generoso dos portugueses. Encontramos quase sempre pessoas acolhedoras e hospitaleiras, que nos tratam com familiaridade e são muito amigáveis. Os vizinhos oferecem ajuda, os comerciantes do bairro sabem os nossos nomes e pessoas que nunca tínhamos visto antes envolvem-se em conversas animadas.

Para nós, a escola tem sido uma bênção em termos de integração. Os nossos dois filhos frequentam escolas públicas no centro do Porto. Depois de alguns meses, já sabiam o básico do português. Agora, quando eu me engano (o que é frequente), tenho dois tradutores prontos para me ajudar.

Se os nossos filhos fizeram amigos no recreio da escola, também nós os fizemos no portão da escola. Como é o caso do José. Seria difícil conhecer alguém mais prestável. Durante o nosso habitual pequeno- -almoço – para mim, uma meia de leite; para ele, um café cheio – o José explica-me pacientemente o que é o quê e quem é quem, e facilita-nos muito a vida.

A vida de um escritor pode ser solitária – especialmente para um escritor de língua inglesa num país de língua portuguesa. Para evitar o isolamento, tomei duas decisões conscientes. Primeiro, contratei uma professora de português: Sandra, uma mestra incansável mas muito divertida. Em segundo lugar, inscrevi-me num dos muitos escritórios partilhados que hoje abundam nas principais cidades de Portugal.

Portugal surpreendeu-nos tanto como nos encantou. A saída da Grã-Bretanha (na minha humilde opinião) pode ser um desastre prestes a acontecer, mas não deixa de ter um lado positivo. Afinal, se não fosse pelo Brexit, nunca teríamos tido o privilégio de conhecer esta nação tão acolhedora.

oliverbalch.com

Arquivos

Salut au monde!

Localizado no badalado bairro do Bonfim, no Porto, Salut au Monde! é um espaço original e animado dedicado à celebração do melhor que há na fotografia contemporânea. A última exposição traz para terras lusas uma visão do disputado território de Caxemira através do trabalho do fotógrafo indiano Bharat Sikka (18.09 – 26.10).

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Café Candelabro

Este recanto agradável está aberto todo o dia e, depois de escurecer, o movimento transfere-se lentamente da esplanada para o refúgio interior do bar. Há vídeoarte e música ao vivo regularmente, assim como fabulosos vinhos portugueses servidos a copo.

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