Olaio – Design eterno

on Dec 1, 2018 in Embarque Imediato | No Comments

A Olaio mobilou Portugal durante décadas, resistiu ao tempo e reapareceu nas lojas vintage. A produção está de volta em força, com um grau de elegância impossível de perder.

João Olaio está sentado à minha frente, na nossa redação. De repente, levanta-se, agarra na cadeira que pertence ao espólio da TAP e ergue-a acima da cabeça. Quer mostrar-me que naquela peça tudo, desde o design às ferragens, passando pela chapa aparafusada no encosto, onde se lê Móveis Olaio, era produzido na fábrica que a marca portuguesa teve até 1998 na Bobadela, arredores de Lisboa. A cadeira da secretária, ou da telefonista, como era conhecida nos anos de 1960, não é um dos modelos já recuperados por João Olaio e Renata Vieira, sua sócia nesta aventura de fazer renascer um dos símbolos do património afetivo e emocional dos portugueses, mas é um bom exemplo do que foi o período em que a Olaio mobilou Portugal.

É difícil ter hoje mais de 30 anos e não nos lembrarmos de uma estante, uma mesa, uma cama ou uma cadeira que havia em casa dos nossos pais e dos nossos avós, com uma estética muito particular, um design depurado, sem ornamentos e marcadamente funcional. Também quando íamos aos correios, a um centro de saúde, esperávamos no átrio de um hotel, nas lojas e escritórios da TAP, jogávamos a sorte num casino, era difícil não nos cruzarmos com uma peça de mobiliário da Olaio. Mesmo quem não tem idade para ter memória dessas peças, quase de certeza que já se terá cruzado com alguma nas muitas lojas vintage que têm surgido em Portugal. Todo o tipo de mobiliário foi recuperado das garagens e de armazéns onde estava perdido e está novamente na moda, uma onda que João e Renata estão a surfar há dois anos.

“Começámos a perceber que há um enorme mercado de segunda mão da Olaio, que esta ideia retro e vintage tinha interesse e fomos um bocado à boleia disso”, explica Renata, acrescentando que começaram por recuperar as poltronas e cadeiras das linhas Capri, Brasil, Caravela e Forma, fabricadas com tola, faia, freixo, carvalho ou madeira americana. As primeiras peças surgiram em 2016, mas Renata confessa que o processo é lento, e por isso só agora irão lançar novos móveis, como estantes e aparadores. Para já, a venda é feita apenas através do site da Olaio e as peças podem ser vistas, mediante marcação, no showroom que João e a Renata criaram no Bairro Alto, Lisboa, regressando fisicamente às origens.

 

Dois caixotes e uma oficina

Foi naquele bairro, mais precisamente na Rua da Atalaia, que José Olaio começou a fabricar móveis no século XIX. Estávamos em 1886 quando converteu dois caixotes de madeira em duas mesas de cabeceira, forrando-as com folha de raiz de mogno. Em 1918, José cria com o filho, Tomáz José, tio-avô de João Olaio, a José Olaio & Ci.ª (Filho). Duas décadas depois, a empresa começa a fornecer mobiliário para instituições públicas: escolas, hospitais, universidades, repartições. João Olaio, que começou a trabalhar na fábrica em 1983, conta que foi com a encomenda do Estado que a Olaio deu o verdadeiro salto, lançando-se na construção de uma nova fábrica.

“Eles perceberam que fazendo mobiliário em série conseguiam uma escala diferente, o que lhes permitia ter uma maior imposição no mercado.” O que começou por ser produzido para particulares, saltou também para hotéis (como o Ritz, Tivoli e EstorilSol), casinos ou cafés – Império e Mexicana, onde continuam a existir, por exemplo –, e daqui regressou às casas da classe média portuguesa. “Eram espaços com muito bom gosto e a sociedade era uma coisa diferente, havia muito glamour e as pessoas queriam ter aquele género de peças, importando um estilo de vida que replicava o modo de estar do casino ou do hotel”, diz Renata. Pela mesma altura, nas décadas de 1960 e 1970, a Olaio ganha contratos de licenciamento para produzir e comercializar marcas estrangeiras como a alemã Interlübke ou as suecas Lundia e IKEA.

“Há umas semanas recebemos um e-mail de um canadiano que comprou uma das cadeiras fabricada para a IKEA. Andou a desmontar a cadeira toda e, de repente, viu o carimbo da Olaio. Pedia ajuda: como é que a cadeira se chamava, onde e em que ano foi produzida”, diz Renata. A parceria terá durado cerca de um ano, até que na fábrica da Bobadela perceberam que produzir para os suecos estava a pôr em risco o fornecimento das 17 lojas próprias que tinham de norte a sul do país.

Nesta altura, já a Olaio tinha abandonado o mobiliário rústico. Cadeiras de rabo de bacalhau, pernas trabalhadas e com um coração desenhado nas costas, as mesas de linhas arredondadas, as cabeceiras de cama com arabescos. Sob o comando de José Pedro Olaio, e com a colaboração de José Espinho, o decorador da empresa que “percebeu o que as pessoas queriam”, e Herbert Brehm, o alemão “que veio com a máquina plana de corte de folha em 1961 e fica como diretor da fábrica”, percorreram as feiras do norte da Europa e trouxeram a modernidade para Portugal.

 

Inspiração nórdica

E há aquela noite em que José Pedro, Espinho e Brehm levam para o quarto uma cadeira do átrio do hotel onde estavam hospedados, algures na Escandinávia. No quarto, a cadeira foi desmontada e o perfil de cada peça desenhado em pedaços de cartão, mais tarde adaptados e replicados na fábrica portuguesa. Também há histórias da máquina fotográfica que Espinho tinha sempre consigo e das fotografias que ia fazendo às peças de que mais gostava. Surge, assim, em Portugal um mobiliário de linhas simples e peças utilitárias. “Acabavam por beber muito e retirar muita inspiração das coisas que viam lá fora. Chegavam e criavam uma versão nacional daquelas peças”, diz Renata. “Não fazíamos igual, fazíamos parecido e testávamos dentro da fábrica. Havia ali uma simbiose”, acrescenta João, que tantas histórias ouviu contar nos encontros de família.

Também era isso a Olaio, uma família. Renata, que apanhou este barco há apenas três anos, diz que é emocionante ver como os antigos funcionários ainda se relacionam. “Naquele tempo havia um espírito diferente e com 600 empregados havia campeonatos e equipas para tudo e mais umas botas”, diz, falando de “um espírito familiar” que subsiste. “São pessoas que neste relançamento nos foram ajudando, dando dicas, e ficam muito felizes que a marca não tenha caído no esquecimento.”

O pai de João continua amigo de Herbert Brehm, ainda que este tenha deixado a fábrica em 1972, um ano antes da morte de José Espinho. José Pedro Olaio manteve-se na fábrica até 1988, quando o pai, Antero, decidiu vender a fábrica. “O meu avô resolve vender sem informar o meu pai. Foi uma guerra familiar terrível. Nunca mais falei com o meu avô nem nunca mais quis saber de móveis”, conta três décadas depois João Olaio. É nesta altura, um século depois da fundação, que começa o declínio da marca, que se prolonga por dez anos até ao encerramento, em 1998. “Quem comprou não tinha qualquer interesse em fazer a exploração da fábrica. Comprou pela edifício e pelos terrenos”, explica Renata. Na família ficou apenas a marca.

José Pedro ainda voltou a abrir uma pequena unidade de produção em Torres Vedras, recomprando em hasta pública as máquinas que antes tinha comprado para a Olaio. O negócio durou dez anos. Entretanto, João conheceu a agora sócia que o desassossegou, desafiando-o a fazer qualquer coisa com o património histórico que lhe pertencia: “A Renata é arquiteta, apesar de não exercer, adora a Olaio e eu tinha uma questão por resolver dentro de mim.”

Os terrenos da antiga fábrica são hoje o Parque Industrial Olaio, sede de umas quantas empresas, mas sem qualquer ligação à família. A marca está a ser renovada por João e Renata, que produzem numa fábrica do Norte – sempre sob o aconselhamento e olhar atento de José Pedro e outros ex-funcionários –, depois de muitas horas investidas a estudar os arquivos do Museu de Cerâmica de Sacavém. Selecionaram dois modelos de cadeirões, dois modelos de cadeiras e começaram a vender. Às cadeiras acrescentaram estantes e no início do ano vão somar-lhe os aparadores. Querem continuar a alargar o portefólio, abrir lojas próprias e, no máximo daqui a cinco anos, estar a vender pelo mundo fora. Tudo nos momentos certos. “Nós só temos que ter cuidado para não estragar.”

olaio.pt \\\ instagram.com/olaiofurnituremakers

 

por Hermínia Saraiva

Arquivos

Números

1886 /// ano da fundação da oficina que deu origem à Olaio

600 /// empregados nos anos 60-70

2016 /// ano de relançamento da Olaio

4 /// modelos reeditados

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