Joaquim d’Almeida – O nosso ‘mau da fita’

on Mar 1, 2010 in Embarque Imediato | No Comments

Chora a ver desenhos animados, diverte-se com o cinema cómico italiano e gostava de ter sido cantor de ópera. Particularidades do encontro com um bom conversador, há mais de trinta anos a trabalhar com a máquina do cinema de Hollywood: Joaquim D’Almeida.

Chega no descapotável, sai do carro e começa a cumprimentar toda a gente. Pessoas que já se habituaram à presença do actor português de Hollywood que, quando está em Portugal, raramente falha um almoço no restaurante dos amigos, em São Pedro de Sintra, ao pé da quinta onde mora. Foi aí que nos encontrámos. Durante a conversa, Joaquim, agora com 53 anos, fala da horta na propriedade e do jardim – o que o faz recuar até aos dezoito anos, quando era jardineiro da Embaixada do Zaire na Áustria. A namorada era a secretária do embaixador e a empregada da Embaixada casou-se com o compositor português António Victorino D’Almeida. O enredo dava um filme…

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O mundo é um palco
Partimos do espaço familiar perto de Sintra à descoberta da Nova Iorque dos anos setenta: era uma cidade cheia de vícios e personagens, que Joaquim D’Almeida absorveu quando ali chegou, em 1977. Inscreveu-se no Instituto de Teatro e Cinema de Lee Strasberg, e pagava-o a trabalhar num bar – do qual haveria de ser gerente: o La Gamelle. Era frequentado por todos os mafiosos de Nova Iorque, numa época anterior à gestão de Rudolph Giuliani, quando a máfia italiana ainda controlava a cidade. Joaquim D’Almeida era o empregado favorito nas grandes reuniões secretas, “eu era o palhaço deles!”, diz-nos divertido, “nessas alturas dançava, cantava, servia as bebidas…”. Foi todo um ensaio antropológico (quase etnográfico) que depois lhe serviu para desempenhar vários papéis de mau da fita, no cinema. “Ficaram todos contentíssimos quando comecei a fazer filmes. E achavam graça a ver-me fazer papéis que eles viviam na realidade!”, lembra. Era dessa Nova Iorque perigosa que gostava.

Liberdade para todos
Assistiu às vidas dos magnatas nos hotéis – como o Carlyle, no Upper East Side, onde, uma noite, preferiu ficar a apreciar os Picasso e Modigliani do apartamento em que estava, em vez de prestar atenção à namorada. Enchia de álcool as garrafas de sumo de laranja dos polícias; o loft onde vivia era uma antiga fábrica de caviar – da marca Romanof. Foi nas convivências do East Side que aprendeu a falar fluentemente cinco idiomas (espanhol, italiano, inglês, francês e alemão). Nessa altura, assistiu à abertura da mítica discoteca Studio 54, o local onde a América descobriu a liberdade, depois da década anterior marcada por protestos contra a guerra do Vietname, com o fenómeno Woodstock já a correr nas veias americanas e as novas gerações a precisar urgentemente de relaxar, sentir, viver. Joaquim D’Almeida estava lá, a participar no jogo, depois da Revolução de Abril de 1974, em Portugal, lhe ter interrompido os estudos no Conservatório Nacional, em Lisboa. Foi nos corredores desta instituição, no entanto, que sonhou ser cantor lírico – ainda sonha; mas as vozes saem meias cómicas e divertidas, ao querer interpretar com meiguice e muita teatralidade, por exemplo, um trecho de Verdi; “a ópera é sempre maior do que a vida”, remata. Para além das vozes que empresta a algumas personagens, nas dobragens do cinema português, confessa que já chorou a ver desenhos animados.

Talento e juventude
Quando se inscreveu no Instituto de Lee Strasberg, Joaquim D’Almeida ainda pensava que iria ser um actor de comédia – sempre foi um admirador da comédia italiana e, principalmente, do actor Marcelo Mastroianni (com quem chegou a trabalhar em Afirma Pereira, filme de 1996 baseado no livro homónimo de Antonio Tabucchi).

Desperado e Perigo Iminente são os dois filmes que o rotularam de mau da fita no cinema. Depois disso já entrou em mais de setenta filmes. Mas foi Good Morning, Babylon (1987), dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, a primeira longa-metragem da sua carreira – e o filme que lhe permitiu deixar definitivamente de ser empregado de bar. Os realizadores italianos gostaram do sotaque romano de Joaquim a falar italiano – que aprendeu com Otelo, o amigo com quem partilhava o apartamento em Nova Iorque — “diziam que eu tinha uma cara antiga”, gostaram da conversa e do perfil. A carreira internacional estava iniciada – o filme abriu o Festival de Cannes de 1988. Após a estreia, logo nesse mesmo ano, participou em mais três filmes.

Glamour à Hollywood
Os papéis de bad guy colaram-se-lhe à pele desde Desperado (1995), filme de Robert Rodriguez com António Banderas e Salma Hayek. Joaquim é Bucho, o irmão mais velho de El Mariachi, que lhe quer destruir o negócio de droga numa pequena cidade mexicana. Um filme de acção, cheio de momentos hilariantes e muitos efeitos especiais.

“Não gosto de Hollywood e daquela palhaçada toda”, esclarece Joaquim D’Almeida, que vive no meio dessa fauna hollywoodesca, em Santa Monica, junto à praia, a vinte minutos de carro de Hollywood. “Uma coisa é apresentar um filme e darem-nos um prémio por aquilo que fazemos. Outra coisa é aquela mentira em que andam todos no ginásio e afinal são toxicodependentes; depois há um que apanha uma bebedeira e insulta a mulher… Ninguém fuma, mas afinal todos fumam…” Hipocrisias com que não pactua. Guarda algumas excepções, como Kieffer Sutherland, com quem contracenou na série 24: “Ele assume que bebe meia garrafa de uísque por dia e fuma quando lhe apetece. Não tem aquela fachada, apesar de ter sempre ao lado a assessora a dizer-lhe para não fumar, porque estão ali fotógrafos…”. Joaquim D’Almeida tem um grupo de amigos com quem se encontra de vez em quando: “Não têm nada a ver com o cinema. Irrita-me falar só de cinema. O Robert Rodriguez é uma pessoa chatíssima. É um miúdo. Só come hambúrgueres e não fala de outra coisa senão de cinema! Há outras coisas na vida que merecem a pena. Reconheço que por não ter paciência perdi muitos filmes”. As “famílias” de Hollywood não lhe interessam: “o Martin Shean, o Charlie Shean, o Emílio Estevez… aquilo encaixa tudo e acabam por casar uns com os outros… E o António Banderas – gosto muito dele, é um gajo simpatiquíssimo – chegou lá [a Hollywood] com o background do Almodóvar. Tirou a camisa e passou a ser o sex symbol do macho latino. Casou-se com uma tipa que vem das ‘famílias reais’ de Hollywood…”. No meio dessa fauna, há excepções, “uns gajos que aparecem por lá, e eles perguntam-se como é que um português foi ali parar”. Mas são poucos a circular no bairro do cinema norte-americano.

Entre o mar e a serra
Joaquim D’Almeida tem uma ideia muito clara do que quer e não quer como actor, por isso, séries de televisão só pontualmente. O factor paternidade pesa nesta fase da vida: um filho de 16 anos e uma filha de 7. Prefere aceitar trabalhos que lhe permitam mais facilmente estar com os filhos, em Portugal. E não assumir compromissos com séries televisivas com contratos de sete anos – aconteceu-lhe este ano, em que recusou um papel de cirurgião numa série americana. Quando está a residir nos EUA, a paisagem de Joaquim D’Almeida é o mar. Quando passa temporadas em Portugal, está numa quinta à entrada de Sintra. Antes morava no centro da capital, mas a vida dos bairros pequenos do Castelo e da Lapa causava-lhe desconforto. Optou por viver na zona onde o pai tinha os laboratórios farmacêuticos. Só uma morada, definitiva, é difícil. Gosta da vantagem e do poder da indústria cinematográfica dos EUA, e não se iria adaptar a viver só em Portugal. A principal razão é fazer-se pouco cinema por cá – e a mesquinhez e inveja a marcarem o quotidiano do universo cinematográfico nacional fazem-no querer estar longe. Assim, “acho que tenho o melhor dos dois mundos. E gosto dos dois. Sou um luso-americano. E a minha parte lusa é bastante maior do que a americana”.

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Por Cláudia Almeida


Arquivos

Toscânia

— É uma das regiões mais belas do mundo. Florença, a capital da região central de Itália, é uma das cidades preferidas do actor português, bem como Siena. A paisagem é avassaladora, com os contrastes constantes entre mar e montanha. A gastronomia é das suas predilectas. —

Chinese Theatre, Los Angeles

— Abriu em 1927 e há quem considere que ir a Los Angeles e não visitar o Chinese Theatre é o mesmo que ir à China e não ver a Grande Muralha. Inclui este cinema na lista dos mais belos do mundo, para além de ser um local de eleição, por toda a história cinematográfica a ele associada. —

Chaya Venice, Los Angeles

— Restaurante e bar de fusão, com comida japonesa e europeia. “Um dos poucos sítios em Los Angeles onde as pessoas se vestem de forma elegante para ir jantar fora.” Com um design moderno e tectos altos, é um local ideal para beber um copo ou ter uma refeição memorável, no coração de Los Angeles. —

Via Vennetto, Santa Monica, Califórnia

— É um dos seus prazeres mais frequentes: passar por este restaurante italiano perto da sua casa, em Santa Monica. Pequeno, sofisticado, com uma decoração alegre, recomenda-o a qualquer pessoa que vá aos EUA, pois, ao contrário do que se possa pensar, na Califórnia a gastronomia é de eleição. E não levem a mal se o empregado se recusar a trazer queijo parmesão: são ordens do chefe, que não permite que o verdadeiro sabor dos alimentos confeccionados seja estragado. Fica na rua principal de Santa Monica, na esquina que divide Santa Mónica e Venice Street. —

Harrys Bar, Roma

— Imortalizado no filme La Dolce Vita (1960), de Fellini, é um dos seus bares preferidos, não ficasse ele na capital italiana, que inventou o “martini perfeito” – além de toda a carta de bebidas exóticas aqui perpetuadas. Continua a ser frequentado pelas celebridades. Os preços é que já não são os mesmos do tempo de La Dolce Vita. —

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