O jogo de dados dos matemáticos, a 320 km de Varsóvia, e as viagens contemplativas que os antigos gregos ensinaram

on Jul 1, 2012 in Bagagem de Mão | One Comment

Em agosto de 1989 numa conferência de matemáticos em Poznan, na Polónia, a 320 km de Varsóvia, o matemático Erdos propôs uma corrida aleatória aos investigadores presentes. Em primeiro lugar, é interessante pensar em ilustres matemáticos de calções e camisa de atleta. No entanto se pensarmos bem, correr é também um assunto da matemática; é uma forma invertida de contar pelos dedos – é contar pelos pés. Conta-se pelos pés, mede-se, portanto, a terra através das corridas bem organizadas. É, no fundo, uma forma de medição, uma forma de medir sem instrumento anexo, como a régua. Um homem corre e dessa maneira mede o mundo ou, pelo menos, a rua que está em redor da sua casa. E, portanto, estes matemáticos estão a voltar ao início, à contagem instintiva em que o tamanho do pé nos dá indicações sobre a qualidade do mundo e os seus limites.

Mas nesta corrida verdadeira, bem documentada historicamente, organizada pelo já idoso Erdos, matemático ilustre, em Poznan, na Polónia, a 320 km de Varsóvia, a ideia era que os atletas corressem um número de voltas aleatório – a extensão da corrida era decidida por um jogar de dados. Além do mais, quando os atletas-matemáticos estivessem mesmo no fim da corrida, Erdos lançaria de novo o dado e o número que saísse determinaria o número de voltas que os atletas ainda tinham que dar. Tratava-se, assim, de dificultar ou mesmo de impedir a medição e o controlo do próprio esforço: o facto de não se saber onde está a meta, o não se saber quando acaba, este desconhecimento, faz com que o esforço muscular e respiratório se torne em parte descontrolado: corro imenso e, quando a meta está a dois metros, alguém me diz que tenho de correr ainda mais três voltas – eis uma síntese da existência, numa corrida de matemáticos meio loucos. Há objetivos, sim, mas quem tem os dados que definem o número de voltas até ao fim da corrida não é esse atleta da existência – que somos nós, homens vivos –, quem define o número de voltas até ao fim é qualquer outra entidade que tem os dados, que joga os dados e assim, num jogo, decide a nossa vida. Foi então em agosto de 1989 numa conferência de matemáticos em Poznan, na Polónia, que o matemático Erdos propôs uma corrida aleatória aos investigadores presentes. Foi uma aula de matemática e de existência.

E o mais assustador é pensar na imagem grotesca de um conjunto de atletas humanos a correr o número de voltas determinado pelos números dos dados que são jogados para a mesa por um ou dois… chimpanzés. E eis, portanto, um pesadelo, uma forma terrível de nos pormos em causa enquanto bípedes orgulhosos: pensar que nós, enquanto atletas da existência, obedecemos aos números que a sorte, ditada pelos chimpanzés, determina. Em vez de Deus a jogar os dados: animais. Não é pois apenas obedecer e ser mais fraco do que a sorte e o imprevisto, é obedecer à sorte que é determinada por macacos que gostam de jogar.

Eis a situação do homem diante do dia e das grandes decisões.
 
Sobre as viagens contemplativas
 
O ato de contemplar pode ser interpretado como ação de preguiçoso, ação em que não se investe energia, ação zero, ação que não move músculo, ação de olhos. Contemplação como o ofício de nada alterar. O ofício de esperar.

E, no entanto, como explica, por exemplo, Heidegger, para os gregos contemplari significa “separar e dividir uma coisa num setor e aí cercá-la e circundá-la”. Em primeiro lugar, contemplar é, pois, selecionar uma parte do todo, é destacar algo, é fazê-lo brilhar, ou melhor: é ver o seu brilho – é “partir e separar”.

Mas o interessante é relacionar esta palavra com a latina templum que significa, uma parte “que se recorta do céu e da terra”. É dentro desta zona ou região recortada que os profetas “realizam as suas observações para saber o futuro pelo modo de voar, gritar e comer dos pássaros.”

Contemplar é, portanto, recortar uma parte do mundo, da terra e do céu, mas não uma parte do mundo qualquer – é selecionar a parte do mundo que nos pode ensinar, que nos pode dar indícios sobre o futuro. Contemplar é estar pois com o templo, é fazer de uma parte do mundo o nosso templo, o lugar que nos faz pensar e perceber o futuro.

Não era, portanto, por acaso que os antigos gregos colocavam a vida contemplativa muito acima da vida ativa. Só os sábios contemplavam – pois não se trata, então, de olhar e dar atenção a um pormenor do mundo, trata-se de escolher a parte do céu que nos eleva, a parte da terra que não nos deixa cair; trata-se de escolher o homem ou a mulher que nos pode salvar, o objeto que pode fazer mexer decisivamente as nossas mãos. Contemplar é fazer templos; é ser digno de fazer, de um quadro, um templo; é ter um olhar suficientemente atento e profundo para fazer, daquilo que se observa, algo sagrado; algo que jamais conseguiremos esquecer. Pois é isso que, no fundo, é o sagrado: aquilo que jamais conseguirei esquecer, o benigno inolvidável. Sagrado é aquilo que só esqueces quando perdes a humanidade. E Humano é aquele que jamais esquece o que é sagrado.

A memória, de um ponto de vista mais geral, pode não ser considerada uma faculdade nobre, alta, divina – esquecer um número de telefone, por exemplo, não parece ser uma brecha na nossa ética. Agora, esquecer o que se contemplou, esquecer aquilo que se elegeu e separou do resto do mundo, aquilo que nos fez prever o futuro, esquecer isso é esquecer, precisamente, não o passado mas o que aí vem. Alguém que perde a memória perdendo o futuro perde o mais valioso: a bússola, a orientação, o sentido. Não se trata de perder a lembrança de acontecimentos do passado; esquecer o que um dia se contemplou é esquecer o voo e o ruído da ave que tornou claro o caminho que temos de tomar nos dias seguintes. Contemplar é, pois, trabalhar o futuro, aprendizagem do que aí vem. Preparar-me intelectualmente para os dias seguintes, eis o que é contemplar.

E nas viagens sim, por vezes, conseguimos contemplar: encontrar o bocado de terra ou de céu que torna mais claro o caminho dos anos seguintes.

por Gonçalo M. Tavares

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