O enólogo irrequieto

on Feb 1, 2012 in Piloto Automático | No Comments

Diogo Campilho é daqueles que não param quietos. Formou-se em enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e logo em seguida passou da teoria à prática em adegas da Austrália e da Nova Zelândia, onde fez vindimas e foi enólogo assistente. Durante os quatro anos em que andou para cá e para lá, aprofundou os seus conhecimentos, fez amigos e trouxe a ideia do que poderia fazer na propriedade de família, a Quinta da Lagoalva, na região do Tejo. Além disso, é consultor em dois projectos vinícolas no Alentejo. Como se não bastassem as lides do vinho, adora cozinhar, e por isso fez um curso de cozinha. Desportista por natureza, foi forcado durante onze anos e actualmente é treinador de rugby. Mas, apesar de todas estas actividades, foi o vinho que sempre levou a melhor. Hoje, com 32 anos, já reconhecido pelos seus pares e dá gosto ouvi-lo falar da vinha, da sua adega e dos seus vinhos de forma tão apaixonada.

Como é que despertou para o mundo do vinho?
Sempre me fascinou. Lembro-me de ainda miúdo ir para a adega e acompanhar um enólogo francês que passou pela Lagoalva. Fascinava-me o rodar do copo, vê-lo a provar, o cheiro da adega e, acima de tudo, a azáfama das vindimas. Os tratores a chegarem, os ranchos das mulheres, enfim, era um ambiente mágico. E as decisões eram todas tomadas por um simples homem que punha o nariz e a boca no vinho!

Sei que a sua experiência internacional na Austrália o marcou bastante. Isso nota-se no perfil dos seus vinhos?
Sim, mas não é só a Austrália. Os meus vinhos são resultado de experiências vividas e de recordações. Tento sempre atingir algo novo e melhor. Para isso, baseio-me em vinhos que provei na Austrália, mas tento sempre complementar os dois mundos. Ou seja, conseguir aromas de Novo Mundo no vinho e no paladar uma complexidade e equilíbrio europeus.

Qual o vinho que lhe deu mais gozo fazer e porquê?
Foram muitos, a pergunta é ingrata. Mas talvez possa avançar com o meu primeiro Late Harvest! Desde 1997 que não se fazia, e em 2008 conseguimos. Foi um sucesso, em termos de vinho, mas também de equipa, porque alcançámos um objectivo nem sempre possível. O vinho resulta de um lote das castas Riesling e Gewurztraminer.

O Ribatejo, hoje denominado Tejo, é uma região renovada, com excelentes vinhos a surgir. O que falta à região para alcançar ainda maior notoriedade?
Esta região é como a Fénix renascida das cinzas. Estamos a crescer a nível nacional e também internacional. Temos enólogos fantásticos, com um espírito de união e de entreajuda formidável. A CVRT-EC tem feito um trabalho notável nas acções de divulgação dos vinhos e apoiando os produtores a comparecerem juntos em feiras, com a designação vinhos do Tejo. Esta série de acções ajuda o consumidor a reconhecer a qualidade dos nossos produtos.

O que pensa sobre o trabalho que a nova geração de enólogos está a fazer?
Muitos destes enólogos já chegam ao mercado de trabalho com experiências internacionais. Os anos mudaram, há mais comunicação, podem-se comprar vinhos de todo o mundo online, provar milhares de vinhos diferentes, há muita informação disponível na internet. Isto faz com que a nova geração consiga ter uma visão mais geral do mercado quando começa a trabalhar e, nesse ponto, estamos em pé de igualdade com as gerações acima. Por outro lado, há todo o trabalho do enólogo que, por mais informação que exista, só com a experiência dos anos é possível alcançar. No entanto, já existem diversos projectos de fantásticos jovens enólogos.

Que vinho daria ao seu melhor amigo?
Um bom branco, com uma complexidade aromática estonteante, mineral no paladar, longo e envolvente. E, já agora, acompanhado de um bom prato de queijo!

E ao seu pior inimigo?
Um bom abafado, pois é doce, tem um bom nível de álcool e, com a temperatura ideal, torna-se viciante. Por isso, ao fim do quinto copo as pazes estavam feitas e já éramos amigos, prontos para abrir outra garrafa!

Quais as castas que mais aprecia?
Nas brancas, a Arinto, pois tem uma mineralidade fantástica, é muito delicada e, ao mesmo tempo, bastante complexa. Envelhece bem, dá frescura e persistência aos vinhos. Nos tintos é a Alfrocheiro, uma casta fascinante e única. É complicada de se trabalhar, pois nesta região dificilmente completa o seu ciclo de maturação. Mas dá vinhos fantásticos intenso vibrantes complexos e únicos.

por Maria João de Almeida

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