O desenho do meu país

on Sep 3, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

A presidente da experimentadesign celebra as formas, cores e materiais de Portugal.

Desenho. Muito haverá que não passe por aqui, mas um país seguramente passa. Primeiro pelo desenho natural, aquele que o homem não dirige. O desenho da costa, se ela existe, os seus contornos e sinuosidades, o modo como o mar entra na terra, a forma das praias. O desenho das planícies, vastas e secas nuns sítios, noutros casos verdejantes; o desenho das montanhas, umas exigentes e bruscas, outras generosas, em socalcos suaves; os rios, que aparentemente dividem, as lagoas que abrem espaços e às vezes antecedem a chegada das águas doces ao mar. Depois há o desenho do homem. O que destruímos, o que construímos, como e quando o fizemos. As cores e os materiais que escolhemos, a escala. O que faz o sítio único que cada país é passa por essa combinação entre esses dois tipos de desenho, um que nos coube como sorte ou destino e aquele que nós, querendo ou não querendo, criámos.

Portugal é o terceiro país mais antigo da Europa, existe desde 1143. Geograficamente pequeno – se não contarmos com o mar que vai da plataforma continental aos dois núcleos de ilhas no Atlântico, Madeira e Açores – tem um desenho natural encantatório. Sempre algo suave, pois não somos muito dados a dramatismos, a natureza de norte a sul e de este a oeste, no continente ou ilhas, tem uma diversidade vibrante que merece ser percorrida com tempo. Mas se há algo que marca o nosso desenho é a presença do mar. Portugal é um país sem interior. Somos uma costa, apenas. E que maravilha que isso é. O mar entra-nos com força por todos os sítios, mesmo se estivermos longe dele. É para esse Atlântico imenso que os portugueses sempre se voltaram e é a partir dele que a nossa natureza se modula. O carácter único da costa portuguesa marca os vinhos do Douro, a frescura das bagas de Trás-os-Montes, o amarelo das giestas do Gerês, o murmurar das fontes do Buçaco, o sabor particular dos vegetais da zona Oeste, o explodir dos girassóis em Alcácer, o verde dos campos de arroz na Comporta, os sobreiros do Alentejo, os oleandros das serras do Algarve, a textura do xerém junto a Sagres, as bananas da Madeira e o sabor do queijo da Ilha, dos Açores.

Olhando para o que o Homem desenhou vemos que o nosso património construído vem também desse mar e da forma como acolhíamos o que de diferente nos chegava através das viagens pelos oceanos. E de como isso estruturou a alma da nossa arquitetura, quer nos primeiros tempos enquanto país, quer agora. Em Portugal encontramos nos edifícios e nos jardins influências vindas de países com os quais nos cruzámos na época das Descobertas, há quinhentos anos atrás, dos países que ajudámos a construir, dos povos que nos visitaram antes mesmo de sermos Portugal e dos que agora recebemos. Desde o Mosteiro dos Jerónimos à Casa da Música, do Mosteiro da Batalha à Gulbenkian, do Palácio da Pena às Linhas de Torres, do Convento dos Lóios à Casa das Mudas, do Jardim Tropical ao Convento de Mafra, da Fortaleza de Sagres à Torre dos Clérigos, é sempre essa diversidade que nos define.

Ter o mar à porta marca este meu país que tanto amo e que enamora todos os que nos visitam e conhecem. Um desenho impregnado de sal e de horizontes líquidos, em constante movimento.

 

por Guta Moura Guedes

Arquivos

Guta Moura Guedes



Presidente e cofundadora da experimentadesign, há mais de 20 anos que o seu trabalho se destaca internacionalmente na área da cultura, do design e da arquitetura. Concebe, dirige e comissaria diversos projetos na área do design. Consultora e oradora em debates e conferências na área do design e do desenvolvimento estratégico. Escreve sobre estes temas para a imprensa portuguesa e estrangeira.

experimentadesign.pt

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.