O cheiro da saudade

on Feb 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

A jornalista e escritora fala-nos das fragrâncias da memória.

As geografias, como as memórias, cabem todas num aroma. Nada nos faz viajar tão velozmente como um cheiro súbito que nos transporta para lugares ou pessoas que nos enchem as medidas. Amamos uma terra pelos seus cheiros. Singulares, infinitos e renovados ao ritmo das estações e dos momentos.

Quando transbordam de água, os ribeiros enchem-se de intensidade com a hortelã e o poejo. A primavera anuncia-se com os vapores da esteva e confirma-se quando o rosmaninho salpica os campos de lilás e espalha o perfume doce que atrai borboletas e abelhas. A entrar em junho cheira a Santos Populares, a alecrim e a capelas de vibrante amarelo em que apenas mãos treinadas continuam a fazer coroas. Outono traz as vindimas e o mosto em transformação, misto de odores feitos promessa para a mesa.

Há dias, numa conversa sobre a saudade, uma criança fez-me uma pergunta difícil, daquelas cheias de intenção e sabedoria que só a limpidez dos mais novos consegue formular. A que cheira a tua saudade? Hesitei por momentos, presa à memória doce do cheiro do pão a cozer no forno a lenha, amassado pelas mãos das minhas avós. Mas depois respondi sem dúvidas. A minha saudade cheira a rosmaninho: é do meio dele que venho.

Não que o meu país seja apenas a ruralidade e a interioridade profunda que continuam a moldar-me. É impossível escapar à luz infinita de Lisboa, às cores das casas encavalitadas na Ribeira do Porto, ao património imenso que se ergue no meio do Tejo, como o castelo de Almourol, ou a pérolas minhotas como Viana do Castelo e Ponte de Lima. Portugal é história e cultura, sal e sol, tradição e futuro, gastronomia e hospitalidade sempre. Ter tanto em distâncias que se percorrem numa ou duas horas é a maior dádiva que um território pode dar.

O meu país, que atrai gente de todo o mundo e encerra tantos modos de ser, reserva ainda o segredo de se dar a saborear lentamente. Se volto sempre às raízes, à tranquilidade dos meus campos salpicados de rosmaninho, margaças e flores de esteva, é porque nelas encontro uma pausa única nas horas. Com tudo o que o tempo nos dá, em vez de o tentarmos enganar.

 

por Inês Cardoso

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Inês Cardoso



Diretora-adjunta do Jornal de Notícias, é jornalista desde 1998 e fascinada pelas palavras desde sempre. Escreve livros para crianças e o último, De Londres ao Porto numa Gaivota, é bilingue e explora o tema da saudade.

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