10 Básicos do Minho

on May 1, 2010 in 10 Básicos | No Comments

Terra do minifúndio e do povoamento disperso, das vilas e cidades cheias de história mas modernas, dos solares e casas afidalgadas, dos rojões e da lampreia, dos arraiais e do vinho verde, das contradições sacro-profanas. Bem-vindos ao Minho, a verdejante região do Norte de Portugal que está ligada à fundação da nacionalidade.

1 – O Noroeste húmido
Tirando a ilha da Madeira e o arquipélago dos Açores, não há em Portugal terra mais verde do que o Minho. É tudo tão verde que até o vinho se chama assim: verde. Situada no Noroeste do país, na fronteira com a Galiza, Trás-os-Montes e o Douro Litoral, a região minhota engloba os distritos de Braga e Viana do Castelo e estende-se em anfiteatro desde as serras da Peneda e do Gerês até ao Atlântico, numa sucessão de paisagens que partilham a mesma matriz vegetal e a mesma “luz húmida, de incontornável doçura” (Orlando Ribeiro, “Portugal, o Mediterrânico e o Atlântico”).  As chuvas atlânticas abundantes e as águas dos rios Minho, Lima, Cávado e Ave são a seiva que alimenta tamanha luxúria e explica a natureza rural da região, apesar de esta acolher no vale do Ave um dos principais pólos industriais do país, ligado aos têxteis e ao calçado. Em boa medida, a importância da terra e da sua fecundidade está também na base da profunda religiosidade dos minhotos e da sua natureza festiva. É no Minho do minifúndio e do povoamento disperso que se encontram algumas das mais admiráveis formas de cultura do país, a par de uma gastronomia rica e variada e de um património construído ímpar. Não há lugar em Portugal com tantas casas solarengas e monumentos, o que atesta bem a riqueza e a antiguidade da região.
O Minho foi palco de sucessivas passagens de gentes, a começar pelos romanos e continuando com os suevos, os visigodos e os mouros. Todos eles deixaram as suas marcas. Mas o grande acontecimento que perdura na memória dos minhotos é o mito da fundação da nacionalidade: foi no Minho, a partir do Condado Portucalense e da sua “villa” mais importante, Guimarães, que nasceu Portugal.

2 – Guimarães, berço da nação


Guimarães ocupa um lugar central no imaginário colectivo português, por estar associada à emergência de Portugal como nação independente. Terá sido na capela anexa ao Castelo de Guimarães que nasceu e foi baptizado Afonso Henriques, que viria a ser reconhecido pelo Papa Alexandre III como primeiro rei de Portugal. Mas isso foi em 1179. Para conseguir a independência, Afonso Henriques teve antes (em 1128) que vencer a batalha de São Mamede, travada contra a própria mãe, D. Teresa, filha ilegítima de D. Afonso IV, rei de Leão e Castela, que tinha a soberania sobre o então condado portucalense. Só por esta associação histórica, Guimarães seria sempre um lugar especial. Mas a cidade ganhou relevo acrescido com a classificação como Património Mundial, em Dezembro de 2001. E em 2012, coroando o dinamismo cultural que tem vindo a exibir, Guimarães vai partilhar com a cidade eslovena de Maribor o título de Capital Europeia da Cultura. A distinção pela UNESCO premeia o trabalho de requalificação que tem vindo a ser feito na preservação do centro histórico e que conduziu à sua inclusão na restrita lista dos lugares com importância universal. Trata-se de um conjunto arquitectónico notável, mais ainda por ser habitado, onde as habitações “terreiras” e as “Casas-Torre” coabitam com edifícios medievais. É impossível não reparar no castelo e no vizinho Paço dos Duques de Bragança, mas a verdadeira alma de Guimarães encontra-se mais abaixo, nas praças e nas ruelas estreitas povoadas de lojas, tabernas e restaurantes, na espessura artística e temporal de monumentos como a Igreja e a capela de São Francisco (típicos do Barroco português), o Paço Ducal, a Capela da Senhora da Guia e o Museu Alberto Sampaio. Este último, com o seu magnífico claustro, funciona como espécie de roda do tempo. Atracção moderna, encerra nas suas paredes o essencial da história de Guimarães, pois foi ali que, no século X, a condessa Mumadona Dias ergueu um convento, no qual, juntamente com o castelo, assentou o crescimento da então cidade de Vimaranes, futuro berço de Portugal.

3- Braga, a católica

Braga é o principal centro urbano do Minho e tem a população mais jovem da Europa, apesar de ser uma das cidades cristãs mais antigas do mundo. Foi fundada, ainda Cristo não tinha nascido, pelo imperador romano Augusto, que se apoderou do território dos bracarus e mandou construir ali uma das três cidades da finisterra do Império Romano. Descrita como a Roma portuguesa, pela profusão de templos de origem romana que possui, é também conhecida como a “Cidade dos Arcebispos e dos Três Sacro-Montes”, em alusão aos santuários situados na cadeia montanhosa que se ergue a sudoeste da cidade e que são o Bom Jesus, o Sameiro e a Falperra.
Lugar de muitas memórias e civilizações, foi o cristianismo que acabou por se impor. Hoje, a par de Fátima, é o grande bastião da religião católica em Portugal. Esta vocação religiosa não tem impedido, porém, que seja também uma das mais animadas cidades portuguesas.
Mas é inegável que o encanto da cidade, se exceptuarmos o novo estádio de futebol, uma notável obra assinada pelo arquitecto Souto Moura, continua a residir na imensa plêiade de monumentos históricos que povoam as suas ruas e praças, a começar pela Sé Catedral e terminando nas famosas Arcadas. É aqui que se situa o Café Vianna, aberto em 1859, um dos ícones da cidade.

[DDET LER MAIS]

4 – A nova arquitectura de Viana do Castelo

“Oh meu amor de algum dia, havemos de ir a Viana/Se o meu coração não me engana/ Havemos de ir a Viana”, cantava Amália Rodrigues. Nesse tempo, ia-se a Viana do Castelo para visitar a Basílica de Santa Luzia, no alto do monte com o mesmo nome, e espraiar a vista sobre o estuário do Lima, a cidade e o mar. Também se ia pela exuberância e grandiosidade das suas romarias, pela boa comida e pelo prazer de passear no centro histórico. Hoje, estas continuam a ser razões fortes para visitar aquela que é uma das mais bonitas cidades portuguesas. Mas há um novo motivo: a revolução arquitectónica em curso, ao ponto de a revista londrina Wallpaper se ter referido recentemente a Viana como a nova “Meca da arquitectura” portuguesa, a propósito da requalificação da frente ribeirinha projectada pelo arquitecto Fernando Távora.
A renovação da cidade começou em 1984, com a construção do Hospital de Viana. Hoje, o roteiro da nova arquitectura de Viana tem quase duas dezenas de paragens, envolvendo quase outros tantos arquitectos. As obras da Praça da Liberdade e os dois edifícios desenhados por Fernando Távora, bem como a Biblioteca Municipal, assinada por Siza Vieira, e o pavilhão multiusos, projectado por Souto Moura, são peças essenciais do novo mapa arquitectónico. Mas a grande atracção é o Hotel Axis, de Jorge Sodré de Albuquerque. Um edifício-instalação, com uma estrutura em lego e os pisos desalinhados, que desafia a lei da gravidade e a forma tradicional de construir.

5 – Ponte de Lima e os solares

No Minho, não são só as grandes cidades que impressionam. Muito do fascínio da região reside na beleza e na monumentalidade de vilas como Valença, Monção, Melgaço, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez, Caminha, Vila Nova de Cerveira ou Ponte de Lima. Todas elas têm os seus encantos próprios. Se em Monção as atenções recaem sobre o castelo e o centro histórico, em Valença o elemento que se destaca é a Praça Forte, uma das principais fortificações militares da Europa, com cerca de cinco quilómetros de perímetro amuralhado. Sobranceira ao rio Minho, frente à vizinha cidade galega de Tui, é o mais importante espaço comercial e turístico da raia luso-galaica.
Mas se há terra que reúne o melhor do Minho em riqueza patrimonial e tradições e serve de retrato à região, ela é sem dúvida Ponte de Lima, a vila mais antiga de Portugal. As ruas estreitas da zona velha, onde se erguem fachadas góticas, manuelinas, barrocas e maneiristas, o chafariz barroco no largo da Praça de Camões, a Igreja Matriz e a ponte sobre o rio Lima, em cujo areal se realizam as famosas Feiras Novas e a tradicional corrida da Vaca das Cordas, são alguns dos seus elementos distintivos. Porém, o que mais se destaca é a profusão de solares. Ponte de Lima é considerada a capital do turismo de habitação em Portugal, tantas são as casas apalaçadas que se dedicam a receber hóspedes num ambiente familiar e de charme.

6 – O Alvarinho

No Minho, as videiras ainda se erguem em latadas e trepam pelos choupos e plátanos. É difícil chamar a isto vinhas, mas uma boa parte da produção de vinho verde ainda tem origem nestas formas muito particulares de viticultura. E, quando seria de esperar que o arcaísmo dos vinhedos penalizasse as vendas, a procura não tem parado de aumentar. A região vende, em Portugal e no mercado da exportação, perto de 60 milhões de litros de vinho por ano, ocupando uma quota de 19 por cento no mercado nacional.
Mas, afinal, o que explica o sucesso de um vinho que continua preso à imagem de ser leve, meio seco, ácido e gaseificado? Precisamente o facto de ser pobre de álcool, de ter alguma doçura e de ser ácido e gaseificado, o que o torna fresco (a designação “verde” tem origem na pouca maturação das uvas e no consumo jovem do vinho). Ou seja, sem fazer muito por isso, o vinho verde encaixou na tendência actual do mercado, que privilegia vinhos mais frescos e de baixo volume alcoólico. Claro que esse não é o caso do vinho verde tinto. De cor carregada, taninoso e ácido, o verde tinto continua a ser um produto étnico, uma especialidade regional associada sobretudo à gastronomia, embora em muitos lugares do Minho funcione também como vinho social. O verde que atrai cada vez mais consumidores é branco e é feito com as melhores castas da região, que se resumem a três: Alvarinho, Loureiro e Avesso. A primeira é a coqueluche. O potencial desta casta, o aparecimento de uma nova geração de enólogos talentosos como António Cerdeira, da Quinta de Soalheiro, e o espírito inconformista e inovador de outros já consagrados, como é o caso de Anselmo Mendes, têm elevado os vinhos Alvarinho a um patamar nunca visto, com admiração nacional e internacional. Quando queremos indicar um vinho branco português capaz de ombrear com os melhores do mundo, só nos ocorre um: o Alvarinho produzido nas terras húmidas de Monção e Melgaço

7 – Sabores antigos
“Há só um banquete português que desbanca todos os jantares de Paris,
mas que os desbanca inteiramente: é a ceia da véspera de Natal nas nossas terras do Minho”. Relevando o exagero, a afirmação do escritor português Ramalho Ortigão (1863-1915) diz o essencial sobre a gastronomia minhota, que é sem dúvida a mais rica e variada de Portugal. Farta e, em alguns casos de digestão difícil, a culinária do Minho não é muito de modas, persistindo fiel às melhores tradições, muitas velhas de séculos. É uma cozinha de grande identidade regional, fundada na auto-suficiência e na qualidade e diversidade dos produtos e das receitas. No Minho, sempre se comeu o que se produz, embora ainda haja uma separação entre a “cozinha de solar”, opulenta e onde primam os vários pratos de bacalhau, a lampreia, os galos corados, a cabidela, os rojões, o cozido, a vitela, a doçaria conventual; e a chamada “cozinha de casal”, mais popular e que tem como principais referências o caldo verde, os arrozes, as batatas, as carnes de porco e as sardinhas.

8 – Galo de Barcelos

Ícone de Portugal desde a campanha nacionalista do Estado Novo, o galo de Barcelos faz parte do enorme espólio de figuras em cerâmica da região nortenha.A sua criação deve-se a uma lenda cuja data de incorporação no folclore local não é conhecida e que narra a história de um galego condenado à forca e salvo por um galo que cantou depois de morto para provar a inocência do homem. Diz-se que mais tarde o galego terá regressado à cidade e erigido um cruzeiro, conhecido por “Senhor do Galo”, em reconhecimento pela ajuda prestada pela Virgem e por São Tiago. O monumento está actualmente no Museu Arqueológico de Barcelos. Definir a imagem do galo de Barcelos ao longo dos tempos não é fácil, já que a sua apresentação foi sendo lapidada pelos artesãos e posteriormente foi estilizada na forma que é apresentada na imagem. Mas o tradicional galo também já cedeu aos ares do tempo. Nas lojas de design português não faltam reinterpretações da figura, os chamados “Galos de Autor”. Veja-os na Jimmy Portuguese StyleShops (www.jimmystyleshop.blogspot.com)

9 – Praias de iodo

As águas das praias do Minho são frias, mas são também revigorantes e ricas em iodo, para além de muitas delas serem rodeadas de pinhais frescos e perfumados. É por isso que são tão procuradas.
De Esposende a Caminha, a costa minhota é povoada por dezenas de praias, algumas de grande importância ambiental. Os 16 quilómetros que separam a Apúlia da foz do rio Neiva, por exemplo, formam o Parque Natural do Douro Litoral. É um ecossistema constituído por praias fluviais e marítimas com recifes, dunas, pinhais, carvalhais e campos agrícolas. As praias mais populares são as de Ofir e da Apúlia, de areais extensos e finos e com vários moinhos pendurados nas dunas. Para comer bem, a melhor talvez seja a de Castelo de Neiva, terra de pescadores. Mas as mais bonitas situam-se mais a norte, entre Viana do Castelo e Caminha. Arda, Cabedelo e Bico (estas bastante procuradas por surfistas), Carreço, Canto Marinho (classificada como Praia Dourada, devido ao seu elevado valor ambiental e grau de naturalização), Afife e Moledo são alguns desses recantos encantados da costa atlântica.

10 – O Parque encantado do Gerês

Com uma superfície de 70 mil hectares, o Parque Nacional da Peneda-Gerês é a principal área protegida de Portugal. A sua beleza pode ser descoberta na primordial e luxuriante mata de Albergaria, junto à aldeia termal das Caldas do Gerês. Mas para entender a verdadeira natureza do parque é necessário seguir a cartografia dos serranos e, lá no alto, mergulhar na amplitude dos espaços, na liberdade do isolamento e do silêncio, na beleza agreste do granito. É nos picos mais altos das serras do Gerês, Amarela e Peneda, que se descobrem vales glaciares, desfiladeiros, gargantas, bosques naturais, lagoas paradisíacas, fontes de puríssima água e nascentes de rios que vão alimentando no seu percurso barragens, bosques, prados e campos de cultivo. A agro-pecuária é a actividade dominante das populações. O isolamento e a necessidade desenvolveram o comunitarismo, e práticas ancestrais, como as vezeiras e as cegadas, ainda perduram em muitas aldeias serranas. Tal como o forno comunitário e o boi do povo. Do vasto património existente, merecem destaque a Geira Romana, a via 18 do Itinerário de Antonino, notável pelo estado de conservação do seu traçado e pelo número e qualidade dos seus miliários epigrafados. A diversidade biológica é também significativa, com mais de 600 espécies de plantas registadas, bosques primitivos e 226 espécies de vertebrados, algumas ameaçadas de extinção. Espécie rara no mundo, o garrano-do-Gerês, cavalo de pequeno porte, ainda corre pelas serras do parque, coabitando com outras espécies importantes, como o corço, a lontra, o lobo e, mais recentemente, a cabra montês, uma espécie selvagem que esteve mais de um século extinta e que, em 1999, regressou ao Gerês, vinda do parque vizinho espanhol de Xurês.

[/DDET]

Por Pedro Garcias

Arquivos

Pub.

TAP Programa Ganhar Asas TAP Promoções  
UP Eventos

A decorrer

«   /   » / Stop / Start