Nuno Jonet

on May 1, 2009 in Partida | One Comment

Nuno Jonet tem uma vida de fazer morrer de inveja muitos jovens. Aos 57 anos, o comentador do circuito mundial de surf profissional dá-nos a receita para uma existência recheada de emoções fortes: desejo de aventura e mente positiva. 
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Decorre no Estoril um importante campeonato do circuito de qualificação mundial de surf (WQS). Na praia estão alguns dos mais ávidos surfistas do mundo, que competem para conquistar uma lugar entre a nata da modalidade: o World Tour (WT), reservado aos 45 melhores. O mar hoje decidiu não colaborar, e o nosso entrevistado tem folga para nos explicar a sua vida profissional.
Apresenta-se: “Nuno Jonet. 57 anos. Nascido em Lisboa. Fabricado em Paris. Vivi até aos 14 em Viseu, depois mudei-me para Angola com a família. Aprendi a surfar em Angola, em 1973. A partir daí a minha tomou um rumo totalmente diferente. As ondas enfeitiçaram-me para o resto da vida”. Nuno já não compete, mas tem um papel fulcral no meio competitivo do surf: é um dos mais respeitados “announcers” do desporto, isto é, é aquele que comenta, em terra, o que se passa no mar. Estamos no seu escritório itinerante, um homólogo dos seus casulos nas melhores praias do mundo. Singelo de aparência, o pequeno contentor, instalado no paredão junto à praia de Carcavelos, alberga uma parafernália de tecnologia: computadores, microfones, walkie talkies, câmaras e afins, que mostram que o hobbie dos povos polinésios também cedeu às exigências da era digital e, por conseguinte, do imediato. 

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Antigamente era assim

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Há três décadas, estava o artesão e hippie Jonet a vender os seus artefactos junto ao porto de Luanda quando apareceram uns estrangeiros com umas pranchas no tejadilho de um jipe. O líder do grupo era Randy Rarick – havaiano na sua terceira missão em busca das ondas africanas e pela primeira vez na costa atlântica do continente. “Lembrei-me que, quando ainda estava em Portugal, tinha visto um programa de televisão chamado O Perigo é a Minha Profissão, onde apareciam uns malucos a deslizar em ondas gigantes em Waimea Bay, no Havai. ‘Mas aqui não existem ondas dessas’, pensei. Eles surfaram uma onda formada por um cargueiro que entrava no porto e quebrava oblíqua à praia”. Nuno foi o cicerone do grupo pelas praias dos arredores de Luanda. Em troca recebeu lições grátis e a sua primeira prancha. Foi então que o título da obra-prima de Aldous Huxley – um dos seus livros de eleição – assentou que nem uma luva ao que havia conhecido: o surf foi o seu admirável mundo novo.
De regresso a casa, em meados dos anos 70, quando em Portugal o surf começava a perder o seu estatuto temerário e a entrar na rotina de um já considerável número de pessoas, Nuno entrou no meio não só como praticante, mas também como profissional. Fabricou fatos de borracha por medida, abriu duas lojas de surf e manufacturou, em cumplicidade com Nick Urrichio, pranchas do irmão terrestre do surf: o skate.
Quando a rat-race no ramo industrial começou a ficar demasiado agressiva para o seu gosto, virou-se para o jornalismo – foi editor da revista Portugal Radical, colaborador na Surf Portugal, radialista na estação Energia, fotógrafo freelancer. Tarefas que acumulou com o anunciar de campeonatos, que começou em 1983, por altura do primeiro circuito profissional criado pela Associação de Surfistas Profissionais. “Comecei a anunciar a única prova europeia, em Lacanau, França. Depois, fui convidado a fazê-lo no Brasil. Um promotor havaiano que me viu em acção nessas provas pôs-me debaixo da sua asa e levou-me para o Havai. Em 1989 anunciei a minha primeira Triple Crown, três campeonatos havaianos de grande importância. Por acaso, o meu protector foi o Randy. Sim, o mesmo que me ensinou a fazer surf.”
Para um announcer, trabalhar no Havai é carta branca para trabalhar no resto do mundo. Pelo seu estatuto de Meca do surf, o arquipélago tem, para surfistas e outros do meio, a capacidade de construir ou destruir carreiras. Nuno tem a tarefa facilitada. Primeiro: porque não pisa os calos a ninguém e respeita a cultura polinésia. Segundo: porque as ilhas são uma segunda casa. Prova disso, a sua carta de condução: tem emissão havaiana, demorou um dia a tirar e custou 16 doláres. 

Um grande guarda-roupa

“Atleta de vermelho, a tua última onda é um sete. Precisas de uma onda de oito pontos para passar para primeiro.” Consoante o local e a nacionalidade do atleta, esta informação pode ser repetida em três ou quatro idiomas. A facilidade com as línguas vem-lhe de um ouvido apurado e de muitos anos na estrada, que lhe dão bases para tratar por tu o inglês, o francês, o espanhol e, claro, o português (de Portugal e do Brasil). “Também arranho frases em japonês ou basco, por consideração para com os atletas. Se falo inglês para os ingleses, porque não falar japonês com os nipónicos?” Não só comunica aos atletas em competição as suas notas e demais informações, como informa o público – e em certos casos a comunidade surfista que acompanha os campeonatos em directo, via web – sobre os surfistas, as ondas, as condições do mar, a história do desporto, o evento e medidas de protecção ambientais. Mensagens “sempre positivas”, salienta, e “nunca em excesso, para não cansar o público. O microfone é uma arma, é preciso saber utilizá-lo”.
A fatia de leão das suas viagens são as de trabalho, o que já o levou às mais apreciadas ondas dos cinco continentes: Tahiti, Nova Zelândia, Austrália, Indonésia, ilha Reunião, África do Sul, Brasil, Havai, País de Gales, Inglaterra, Escócia, França, País Basco. “No que toca a campeonatos de surf só não fui às Fiji e ao México.” Estas viagens traduzem-se em t-shirts oficiais dos campeonatos, que guarda religiosamente e lhe enchem de sobremaneira o guarda-roupa. É que, fazendo as contas, já lá vão mais de três mil.

Forever young

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Assumido viciado em adrenalina, Nuno tem como supra-sumo das emoções fortes em viagem um voo de acrobacias aéreas sobre Pipeline, no Havai, onde foi distinguido com a medalha de Iron Stomach (estômago de aço). “O truque”, revela, “é não tomar o pequeno-almoço”. “Na ilha Reunião saltei de 1600 metros para o mar em parapente, foram 40 maravilhosos minutos de voo, sentadinho num arnês a sentir as ascendentes a passar na cara.” Os seus hobbies, que têm como requisito fundamental a libertação de endorfinas, vão de saltos tandem, skate, bicicleta-todo-o-terreno, motocross, a saltos para água ou corridas de karts, sem esquecer o obrigatório surf. Radical, não?
Num momento “em que as marcas de surf levam pancada em Wall Street como todas as outras”, é preciso ter um plano B. Nuno tem o B, e também o C. Depois de em 2003 ter regressado com Randy Rarick a Angola para assinalar os 30 anos do seu encontro com o surf, percebeu que o país pode muito bem ser o seu poiso alternativo. “Tenho muita vontade de regressar a África. Abrir um surfcamp e dinamizar o turismo de surf naquele sítio maravilhoso que tem ondas quilométricas a quebrar paragens desertas.” O outro desígnio que traça é o de se juntar às camadas mais jovens da modalidade e assumir uma função didáctica pela partilha daquilo que viveu, pois, como diria Huxley: “A experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece”.

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Por Maria Ana Ventura

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