Nini Andrade Silva

on Jan 1, 2012 in Viajante profissional | No Comments

Fiel ao estilo ninimalist, distinguido internacionalmente, esta designer de interiores dá alma a hotéis pelo mundo fora. As pessoas são o fio condutor das suas viagens, puxando-a para a vida e para o seu projeto.

Bogotá, Kuala Lumpur, Singapura, Xangai, Brasil… Perde-se a nomear os países, as cidades e mais lugares recônditos de que registou a sonoridade do nome mas não a grafia. Lugares por onde tem andado no último mês e meio… ou já lá vão dois meses? Perde-se no espaço e no tempo. Só na Madeira dá conta da sua rota. Localiza-se, encontra-se. Aqui é o seu lugar do mundo, de pertença. Aqui nasceu, mantém amigos dos tempos de criança, tem gente que a aninha e lhe dá fôlego para continuar. E depois, há o mar, um imenso oceano, presente em qualquer uma das suas janelas, que olha como um voo: a liberdade.

São as pessoas o fio condutor que a faz atravessar os continentes. A mãe, que a levou a Lisboa. Os amigos da loja de tapeçaria do Funchal, que a atraíram para os Estados Unidos da América, onde se convenceu que designer era o que queria ser. Anónimos com quem se cruza, e que por vezes segue, nem que o destino seja o outro lado do mundo. Lembra histórias como a daquele dia em que estava sentada num banco de aeroporto, retida pela neve em Zurique com destino marcado para a Indonésia. Uma senhora, que conhecera dez minutos antes, explicou-lhe que trabalhava com pele na China há muitos anos e desafiou-a a seguir viagem com ela. Seguiu-a logo pela manhã. Poupou, diz, quinze anos de trabalho num mercado em que penou para entrar. A senhora sentada no banco do lado abriu-lhe a rede de contactos do setor de construção de móveis em pele. Para Nini é simples, segue a sua intuição e deixa-se ir sem grandes verbalizações. Para ela, o mundo é a bola do poema de António Gedeão e só o percebe quem por lá anda.
Agora, espreita pelo vidro da porta e faz-se anunciar. Está vestida de branco dos pés à cabeça, apenas uma lista preta no chapéu. É quase sempre assim, veste-se de branco ou de preto, para não ofuscar o ato criativo. Distribui beijos e abraços, as saudades de quem está longe há muito tempo. As assistentes do seu ateliê, no Funchal, dão-lhe nota da agenda em meia dúzia de frases. Tem pela frente dez dias de ilhas. Sim, ilhas dentro da ilha; lugares como o Jardim do Mar, que a aconchegam.

Vendem-se sensações
À pergunta que lhe continuam a fazer amiúde – “O que faz?” – responde com a disposição de uma jovem designer estreante: “Faço hotéis pelo mundo”. Nini Andrade Silva gosta demais de ouvir aquele “uaau!” dos surpreendidos. Na Cordoaria Nacional, em Lisboa, numa dada exposição, tinha de conceber um hall de hotel numa noite. A rapariga-last-minute (é conhecida assim pela sua equipa de 40 pessoas) montou “uma autêntica catedral”, o que lhe valeu o convite para fazer o design de interiores do Aquapura Douro Valley Hotel, projecto pelo qual foi distinguida internacionalmente. Já nos Emirados Árabes Unidos, numa outra exposição, foi olhada com desdém pelos seus pares por exibir apenas uma estrutura metálica com um tecido a circundá-la. Na inauguração, quando puxou as correntes e ergueu uma estrutura de sete metros de altura. “Faltou-lhes o ar: Uaau! Gosto de concretizar à grande. O nosso espaço não tinha nada, parecia uma gruta. Tinha apenas um projetor e o chão era água; as pessoas andavam em cima de água. O que poderíamos nós vender? Sensação.”

Seja a um cliente ou a um público especializado, tem sempre dificuldade em explicar que, pelo facto de criar uma diversidade de imagens para um mesmo espaço, isso não o faz perder a essência. Uma vez, num cabeleireiro, a preparar-se para um congresso de design e hotelaria no Porto, usou uma peruca para transmitir essa ideia. Com uma assistência de peritos, Nini era uma desconhecida, com a peruca de longos cabelos pretos. A sua comunicação avançou sobre a alma dos lugares e a impossibilidade de a mudar. Mas impunha-se, uma vez mais, demonstrar que uma coisa é a alma, outra é a sua imagem e, esta, pode ser diferente, alterada, re(inventada); para tal, há que causar sensação a quem se pretende que dela desfrute. Nini tirou a peruca preta e ficou loura: “E a alma, que é dela? É ou não a mesma?”. Repetiu a experiência com uma peruca ruiva no World Festival of Architecture, e ora com cabelos de uma cor, ora de outra, a performance continua a desconcertar audiências pelo mundo.

O silêncio e o espaço
Atualmente, o ateliê Nini Andrade Silva tem projetos de hotéis em Bogotá, em Luanda, em Bali e em Singapura. Em Portugal, na Serra da Gardunha, desenvolve um hotel/lar de terceira idade. E um novo desafio: uma universidade em Kuala Lumpur, cidade onde vai abrir, em breve, um ateliê – ponte para toda a Ásia, a sua grande inspiração, continente para onde mais viaja.

Banguecoque é a sua cidade eleita. A simplicidade das pessoas. O cheiro do gengibre. As flores. As flores que se põem na água para agradecer a Buda o que se passou durante o ano. Sim, põem-se na água, não se atiram, aprendeu Nini sobre a delicadeza dos tailandeses. Mas, sobretudo, o que a encanta é o silêncio: “Ocupa espaço, tal não acontece na Europa. Por aqui, provoca, muitas vezes, constrangimento”.

Em Bali, ficou, igualmente, agradada com o silêncio – o nyepi – e o dia que os balineses dedicam a esta causa maior que os remete para a reflexão, para o encontro com o seu “eu”. No silence day, último dia do ano, que ocorre por estas paragens em março, nem os aviões podem cruzar o território. Chegada à ilha em plena homenagem ao silêncio, Nini partiu à descoberta, conduzida por um motorista que não falava inglês. Muitas cores, muita gente vestida de flores, máscaras, também tambores, um som que não interfere com o silêncio interior que se impõe neste dia.

Na China, que conheceu há 18 anos, poucos eram os que falavam inglês. Um dia, algures em Cantão, três senhores colaram-se a ela só para aprenderem inglês: “Fala, fala, o que tu quiseres fala. Quando me fui embora, juntaram-se a outros estrangeiros.” Mas esta história da língua e das viagens solitárias já lhe trouxe alguns receios, ainda que por momentos. Na mesma China de tempos idos, em que tentava desbravar o mercado das relíquias para encontrar pormenores decorativos que marcassem as suas criações no mundo, foi parar a um hotel em que ninguém falava inglês. Depois de despachar um senhor, meio malandreco, refugiou-se no quarto, que não tinha luz e em que levantava o telefone e só falavam chinês. Durante meia hora ficou sentada a perguntar-se “E agora, o que faço?”. Da primeira vez que foi às Filipinas a receção também não foi das mais calorosas. Um temporal tremendo, cães a cheirarem-lhe o carro, homens a querem abrir as malas; a estranheza de se sentir completamente sozinha.

É muita desta Ásia que lhe dizem estar presente no seu trabalho. Nini confirma: as cores, as texturas, a luz, os objetos colocados com precisão num dado lugar, que apelam à contemplação do silêncio. Mas, como está sempre a sublinhar, a alma do que cria tem uma diversidade de imagens. Se está em Bogotá, com um projeto de hotel para desenvolver, tenta desconstruir imagens como a da violência e dos cartéis da droga. Passeia-se pela cidade; sente-a. Só assim consegue construir imagens distintas que vendam a tal sensação. Não concebe um projeto sem conhecer o seu lugar, o seu contexto.

O hotel The Vine, no Funchal, é já uma referência internacional do design e quem lá entra depara-se com símbolos da identidade madeirense. “É como se fosse um museu da Madeira”. Nos pavimentos, nos lavatórios, nas banheiras, nas torneiras, estão lá as levadas, os calhaus, os carros de cesto… O seu trabalho neste hotel – premiado na categoria de Design de Interiores dos European Property Awards 2009 (em 2008 tinham já premiado o seu projeto do Fontana Park Hotel, em Lisboa) e na de Best Suite nos European Hotel Design Awards 2009 –, valeu-lhe o elogio de Terence Conran, o criador da Habitat, o que a emocionou até às lágrimas.

O seu estilo, reconhecido pelos seus pares como ninimalist, marcará a biografia de Nini Andrade Silva, que será editada em 2012 por uma editora de Nova Iorque, responsável pela publicação de biografias como as de Carolina Herrera ou Coco Chanel.

Por Ana Serpa

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