Nicolau Von Rupp em Peniche – Em terra de pescadores o surf é rei

on Oct 1, 2015 in Embarque Imediato | No Comments

Nicolau Von Rupp, vice-campeão mundial nos ISA World Surfing Games e um dos surfistas mais aguerridos de Portugal, levou-nos até Peniche, onde há um ano competiu mano a mano com os melhores surfistas do planeta no Moche Rip Curl Pro Portugal. Em dois dias de muito boa onda, Nic mostra-nos os cantos à casa de um dos melhores destinos de surf do mundo.

Nicolau Von Rupp por/by Carlos Pinto

A 5 de outubro de 2014 a praia de Supertubos vestiu-se de gala, como é seu apanágio, e deu um presente a Nicolau Von Rupp. Faltavam poucos minutos para acabar a final das triagens que garantiam uma vaga a um surfista no Moche Rip Curl Pro Portugal, a penúltima etapa do circuito mundial de surf. Nicolau enfrentava o francês Charly Martin e precisava de uma nota de 8,95 pontos (o máximo são 10) para agarrar o dito lugar. Eis que entra um set e o surfista da Praia Grande apanha um tubaço. A nota sai em cima do apito final. Nove pontos, e Nicolau, em êxtase, nem quer acreditar que daí a dias vai surfar contra Kelly Slater e companhia.

Este é só um dos momentos altos da carreira do surfista de 25 anos que este ano subiu ao segundo degrau do pódio do campeonato mundial de seleções de surf – os ISA World Surfing Games – arrastando consigo a equipa portuguesa que se sagrou vice-campeã mundial de surf à frente da Austrália, Estados Unidos, Brasil e de outras nações onde o surf é quase desporto nacional.

Nicolau não engana ninguém, com o cabelo loiro pelos ombros, a linha de bronzeado na zona do pescoço e o ar descontraído de quem vive na praia. Encontramo-nos com ele no Cabo Carvoeiro em frente à Nau dos Corvos, a rocha que, se puxarmos pela imaginação, tem a forma de nau. Nela, os corvos marinhos descansam as asas e é também ela que dá nome ao restaurante que está encarrapitado na ponta do cabo, bem de frente para o arquipélago das Berlengas, Reserva Mundial da Biosfera.

De telefone em punho, Nic fotografa a paisagem com o cuidado de enquadrar as ilhas na imagem. “Acreditam que nunca fui às Berlengas?”, pergunta enquanto faz o upload da foto para os seus 46 mil seguidores no Facebook. Com a promessa de que um dia arranjará tempo para dar lá um salto, entramos no restaurante onde sobre a mesa já nos esperam amêijoas à Bulhão Pato e figos recheados com queijo para começar o repasto.

Nau dos Corvos por/by Carlos Pinto

A competição ocupa um lugar primordial na rotina de Nic e obriga-o a passar grande parte do ano a saltitar entre continentes. Mas nem sempre a competição é o seu foco. Há uns anos, Nicolau preferiu ir mais tarde para o Havai e não competir num dos eventos da temporada para desbravar “um slab incrível” na Irlanda. “Mullaghmore Head pode muito bem ser o próximo palco das ondas grandes na Europa”, assegura o expert, que protagonizou a melhor sessão de sempre nesse spot ao lado de outros pesos pesados do surf XL europeu: Andrew Cotton, Tom Lowe e Tom Butler. A surfada de contornos épicos tornou-se viral, foi mais um passo de gigante para Nicolau começar a ser reconhecido no mundo das ondas grandes e valeu-lhe ainda o prémio português para a Maior Onda. A dita era um pequeno monstro com cerca de 12 metros. Nic remou para ela, dropou atrasado, chegou à base e foi engolido pela espuma. Uns minutos na chamada “máquina de lavar” não lhe tiraram o ânimo: voltou para o pico e fez mais umas quantas iguais àquela. Não tens medo de te atirar a esses colossos? “Claro que sim, nascemos com medo. Mas é bom que o tenhamos.” Nicolau entra nestes monstros a braços, o que torna a coisa ainda mais respeitosa. Nada contra o tow-in, modalidade em que os surfistas são puxados por mota de água para as ondas grandes, ele é que nunca treinou o suficiente nessa vertente e por isso não está tão à vontade. Fazemos uma pausa na conversa para nos concentrarmos na epopeia que temos pela frente, uma gigante taça com mariscos de todos os géneros e feitios. Percebes, camarão, mexilhão, sapateira, lagosta…que barrigada! Só então retomamos a conversa onde a deixáramos: no caminho do surf em Portugal.

Os números não mentem: “A pesquisa feita sobre o impacto económico do Moche Rip Curl Pro Portugal avança uma receita total de 13,6 milhões de euros, apenas durante o período do evento na zona de Peniche”. Já o retorno mediático da modalidade é de 46 milhões. Portugal está no mapa do surf mundial e, fora os muitos turistas que vêm para surfar, recebe (no mínimo) quatro eventos internacionais por ano. A par disso, uma muito promissora fornada de novos talentos no mundo da competição – onde ele se inclui – está a tomar de assalto o circuito de qualificação. “Boa parte deste boom do surf nos últimos anos deve-se ao trabalho de Tiago ‘Saca’ Pires [melhor surfista português de sempre que durante 7 anos competiu na elite] que nos fez acreditar que é possível ir mais longe.” Saca é um dos seus ídolos.

 

Amigos de Peniche

Diz-se de alguém desleal que é “amigo de Peniche” (ou amigo da onça), mas a expressão é enganosa. Não são os penicheiros que são falsos, mas sim os ingleses. A história reza assim: em 1589, durante o domínio espanhol sobre Portugal, desembarcou na Consolação, nos arredores de Peniche, um contingente inglês cujo propósito era rumar a Lisboa e ajudar os portugueses na reconquista da soberania. Os aliados desembarcados eram conhecidos como “os amigos de Peniche”; porém, quando um mês depois da sua chegada os ingleses, incapazes de fazer frente ao poderio espanhol e com um valente saque nos bolsos, voltaram para Inglaterra, a expressão ficou associada a traição e quem pagou a fatura foram os penicheiros.

Nicolau conhecia o dizer popular mas, como a maioria, desconhecia a sua origem. Soube-a durante uma visita ao Forte de Peniche, um dos palcos do referido episódio do século XVI e, mais tarde, prisão política durante o regime ditatorial de Salazar. Quem o explica é António José Correia, presidente da Câmara Municipal de Peniche, que não podia ficar de fora nestas linhas. É conhecido entre a malta do surf como o “coolest mayor on tour” (ou seja, o presidente de Câmara mais boa onda do circuito), título que lhe assenta como uma luva. Bonacheirão, leva-nos à Lota de Peniche para nos mostrar os bastidores de um dos mais importantes portos de pesca do país. A ideia partiu de Nicolau, que está boquiaberto com a mecânica do mercado. O peixe é deixado pelos barcos e encaminhado para a pesagem, daí sai para uma passadeira com um preço de licitação base, preço esse que irá sendo ajustado no decorrer do leilão. Chernes colossais, carapaus, sardinhas, santolas, linguados, raias e até pata-roxas (parentes do tubarão) desfilam na passadeira. O surfista é reconhecido pelos homens da lota, especialmente pelos mais novos, que vão seguindo as notícias do surf, e é bastante requisitado para fotos – quase tanto como o seu manager, Miguel Moura, que, vá se lá saber porquê, é confundido com Garrett McNamara.

Forte de Peniche/Peniche fort por/by Carlos Pinto

Vagueamos agora com toda a calma do mundo pela ilha do Baleal, que de ilha já não tem nada. Antigamente, estava separada do continente, mas hoje tem uma pequena língua de areia a uni-la a terra firme. As escarpas sobre o mar parecem “uma biblioteca de rochedos”, como escrevia Venutra, poeta popular da zona Oeste. Ficamos com inveja dos banhistas que queimam os últimos cartuchos do dia nos areais do Baleal e apressamo-nos a chegar ao Surfers Lodge, nosso porto de abrigo nestes dias. No terraço do hotel sonhado por John Malmqvist, campeão sueco de surf que se perdeu de amores por Portugal, há uma piscina e um jacuzzi para ficar de molho e ver o pôr do sol, que está de sonho.

O jantar está marcado no Tribeca, outro ícone da região. Fica nos arredores de Peniche, na Serra d’El Rey, tem o nome de um bairro de Nova Iorque e uma decoração que de alguma forma nos lembra as brasseries francesas. Peixinhos da horta, pastéis de massa tenra, camarões al ajillo, morcela com chutney de maçã e outras delícias para começar e depois atacamos os famosos bifes do lombo da casa. “Um brinde a mais momentos destes”, atira Nicolau de copo em riste.

 

Um tanto ao mar, um tanto à terra

Há ondas fantásticas em todo o Portugal continental e insular mas Supertubos é a mais consistente, palavras de Nicolau. “Se viermos um mês para Peniche para surfar Super é certo que uma semana mágica há de haver” e quando não houver surf nos Super haverá noutros spots da península – seja na Almagreira, nos Belgas, no Lagido, na Baía ou até na pesada Papua. Hoje é um desses dias bons. O vento sopra de terra para o mar (na gíria diz-se offshore) e a ondulação de noroeste com mais de dois metros é o bastante para assegurar ondas entre o metro e metro e meio na praia. Apesar de um percalço ontem de manhã – antes de se juntar à equipa da Up para este fim de semana perfeito, Nic fez um golpe no braço e foi levar uns quantos pontos – o campeão está em pulgas para entrar na água.

Chegamos à praia pelas 10 horas e já há alguns surfistas no pico. Com um olho sempre posto no mar, Nic prepara a prancha, veste o fato e alonga para entrar na água. Faz duas ou três ondas e tem de sair: “Parece que os pontos estão prestes a estoirar”. Privado de surfar, para não agravar a lesão e hipotecar a sua presença daqui a dois dias no campeonato nacional na Praia Grande, Nicolau sugere que passemos pelo campo de golfe da Praia d’El Rey. Fazemos-lhe a vontade de bom grado ou não fosse este um dos campos mais bonitos que conhecemos. Metade dele tem uma vista incrível de mar, outra está resguardada da maresia por um exuberante pinhal. Mas antes, porque o estômago dá horas, há que fazer uma paragem obrigatória: o Sushi Fish, no Baleal. Joana Paula, a simpatia em pessoa, recebe-nos no seu muito bem falado restaurante. Dizem por aí que é o melhor sushi da zona Oeste e não estão a exagerar. Nicolau é doido por comida japonesa e não é de estranhar que esteja feliz com este festival de peixe fresco.

Campo de golfe da Praia D’El Rey/Golf course at Praia D’El Rey por/by Carlos Pinto

Ao volante do buggy que desliza pelos fairways viçosos debruçados sobre o Atlântico, Nic é um ás. Pena é que não tenha para o golfe o mesmo jeito que tem para o surf. Atenção que o rapaz ajeita-se, mas precisa de algum treino para chegar ao nível de outros surfistas, como Slater ou Julian Wilson, que, nas horas vagas, se dedicam ao golfe.

Entre tacadas certeiras e outras falhadas, o sorriso com que Nicolau nos brinda está ainda mais rasgado. Mais uma vez Peniche ofereceu-lhe uma mão cheia de boas recordações.

texto Maria Ana Ventura fotos Carlos Pinto

Arquivos

Bio

Nascido e criado em Portugal, Nicolau é filho de pai alemão e mãe suíça. Em Portugal chamam-lhe Nicolau, na Alemanha Nikolaus e em inglês Nicholas, portanto, para simplificar, escolheu apresentar-se como Nic. A sua praia-mãe é a Grande, em Sintra, onde começou a surfar com a Surf Academia – a escola fundada por João Macedo, um dos surfistas mais temerários da nossa praça. Nicolau privou desde cedo com ondas de consequência, coisa que continua a procurar avidamente nos intervalos das competições. As suas várias mostras de raça em ondas pesadas como Mullaghmore Head, na Irlanda, valeram-lhe o respeito do meio e ajudaram na decisão da WSL (World Surf League, a FIFA do surf) de o convidar para a triagem do Billabong Pro Tahiti, em Teahupoo, um dos eventos mais aclamados do circuito. Entre outras façanhas, Nicolau sagrou-se vice-campeão europeu júnior em 2008, venceu duas etapas da prova Capítulo Perfeito e o Pawa Tube Fest, no México. Em 2013, uma das suas ondas em Pipeline foi considerada uma das 10 melhores do inverno havaiano (a época de ouro no grande palco do surf). Em 2014 terminou o ano no 66º posto do ranking mundial e é o surfista europeu com maior retorno mediático. Nicolau venceu dois prémios do Kia Ondas de Ouro – gala de reconhecimento do surf nacional: o de maior onda e o de tubo do ano. Sugerimos que passe pelo Vimeo do surfista e veja o documentário My Road Series, realizado por Gustavo Imigrante e Dinis Sottomayor, que acompanha um ano na vida de Nicolau pelo mundo fora.

www.facebook.com/nicvonrupp
www.instagram.com/nicvonrupp
www.vimeo.com/nicvonrupp

Portuguese Wave Series

Some duas importantíssimas etapas do circuito de qualificação de surf – o SATA Airlines Azores Pro (22-27 setembro, São Miguel/Açores) e o Cascais Billabong Pro (28 setembro-4 outubro, Cascais) – à penúltima etapa do circuito mundial de surf, o Moche Rip Curl Pro Portugal (20-31 outubro, Peniche). O resultado é o Portuguese Wave Series, uma série de três eventos em três ondas de categoria mundial. Supertubos recebe a prova rainha, o Moche Rip Curl Pro Portugal, onde competem os 34 melhores surfistas do planeta, entre eles, o 11 vezes campeão mundial Kelly Slater, o tricampeão Mick Fanning e Gabriel Medina, primeiro campeão mundial que fala a língua de Camões. Também as melhores surfistas do mundo voam para Portugal: o Cascais Women Pro (22-27 setembro) será decisivo na luta pelo título mundial feminino. Apareça ou acompanhe através de www.worldsurfleague.com.

Trilogia de luxo

Sushi Fish

Avenida do Mar, 5B, Baleal \\\ +351 92 649 8328 \\\ www.facebook.com/sushi.fish.baleal 

Some o melhor peixe da lota ao talento dos sushimen de Peniche e o resultado é este: o melhor sushi do Oeste! O ambiente acolhedor a meia luz, a banda sonora no tom certo e o serviço atencioso são outros trunfos desta casa inaugurada em 2013. Na carta aparecem os costumeiros makis, niguiris, uramakis, temakis, tempuras e também propostas menos comuns como o ajitataki.

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Tribeca

Avenida da Serrana, 5, Serra d’El Rei \\\ +351 262 909 461 \\\ www.tribeca-restaurante.com

A carta do Tribeca contempla não só o melhor peixe e marisco, mas também carne e caça. O Bulhão Pato de robalo e lingueirão, a empada de faisão e perdiz e o irrecusável bife à Tribeca são apostas ganhas. Para rematar, peça a deliciosa tarte Tatin. De destacar ainda a carta de vinhos – uma declaração de amor aos melhores néctares nacionais.

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Nau dos Corvos

Cabo Carvoeiro, Peniche \\\ +351 262 783 168 \\\ www.facebook.com/restaurante.naudoscorvos

As especialidades são tudo o que levar peixe e marisco. Seja ao natural ou em caldeiradas, massadas ou arrozes, conte com o melhor peixe do Atlântico à mesa. Miradouro privilegiado, o restaurante do Cabo Carvoeiro oferece uma vista maravilhosa de mar com as Berlengas no horizonte.

Surfers Lodge

O espírito de um surfcamp com os luxos de um hotel. A dois passos do Baleal e de todas as melhores ondas da mágica península de Peniche, é um caso sério de bom gosto e de bem-estar. O design nórdico que usa e abusa de madeiras e mobiliário reciclado é a primeira coisa que salta à vista. Depois, o ambiente descontraído e familiar que impera nas áreas comuns: a sala de estar, a sala de cinema e o terraço onde estão a piscina e o jacuzzi. Para dormir há várias opções. Camaratas com beliches para quem vem em grupo; quartos twin para serem partilhados por dois amigos e suites temáticas perfeitas para casais (a Bali é especialmente romântica). O restaurante do Lodge oferece propostas ousadas preparadas com os melhores ingredientes locais. O Lodge oferece ainda uma sala de massagens, aluguer de skates e bicicletas, serviço de guia de surf e, claro, uma academia dedicada à modalidade. A escola do hotel, com o seu método inovador, promete pôr o mais inexperiente a surfar uma onda enquanto o diabo esfrega um olho. Se quer passar uns dias em modo aloha, este é o lugar certo.

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