Nazaré – Uma pescaria de histórias
Navegámos até à Nazaré com os artistas plásticos João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira que, entre outras temáticas, têm trabalhado sobre a identidade portuguesa e sobre o mar. Neste divertido périplo, relembraram projectos inspirados pela vila piscatória e levaram novas ideias para casa.

À hora do crepúsculo, Edite Poupada Petinga seca peixe à frente da antiga lota. Os processos mudaram. Em vez de junco, agora acamam-se os carapaus num paneiro, ao sol. “Para ‘enjoar’ o peixe chegam poucas horas, já para o secar deve repousar três dias.” A desenvolta senhora, nos seus 73 anos, desfia uma rede de histórias. Aos nove, já ia de canasta à cabeça ao Valado, vender peixe. A fé alimenta-lhe o sorriso e à hora do adeus, entre abraços, atira-nos a sua crença: “Se não houvesse Deus, aquilo (o mar) estava ali tão sossegado?”. Encontramo-nos no areal sul da Nazaré, terra de pescadores cantada por inúmeros escritores portugueses. De Raul Brandão a Alves Redol, que descrevem a existência difícil dos “filhos de Ílhavo” que povoaram toda a costa portuguesa.
Amor e uma cabana
A vila piscatória também tem servido de mote ao trabalho artístico de João Pedro Vale. Falamos de obras como Barco Negro, Ala-Arriba, Uma Fenda na Muralha, 7 calças, As Sandálias do Pescador ou o Nazareno. Ao almoço, na esplanada da Casa Pires, que fica no Sítio – parte alta da vila com um belíssimo panorama do litoral português –, entre uma garfada na corvina grelhada e outra na profusão de peixes da caldeirada, a conversa gira em torno de outra comunidade piscatória portuguesa, a de Provincetown (EUA), existente desde meados do século XIX. Foi ali que o artista plástico e o companheiro artístico, Nuno Alexandre Ferreira, estiveram três semanas “a viver numa cabana nas dunas, sem electricidade nem água corrente”.
A exposição P-Town, em mostra na galeria Boavista, em Lisboa, é o resultado desta residência artística, em que os dois artistas estudaram a portugalidade dos emigrantes que, apesar de já não se expressarem na língua de Camões, permanecem agarrados como lapas à cultura nacional. O projecto aborda ainda a comunidade artística instalada em Provincetown no final do século XIX, e que, cem anos depois, serviria de chamariz à comunidade queer que elegeu o local para fugir a uma “América reprimida pela moral.” No retrato atual da cidade americana, convivem bandeiras arco-íris e bandeiras portuguesas, assim como pastéis de bacalhau e caldo verde fazem parte do menu dos restaurantes.
Por cá, é o amor ao mar que faz os nazarenos preservarem a tradição. É pelo menos essa a sensação que nos fica da visita ao Museu Joaquim Manso, onde desvendamos evolução da Nazaré desde a pré-história até à atualidade. No museu, destaca-se a imagem da Nossa Senhora da Nazaré a salvar D. Fuas Roupinho, datada do século XVI. O milagre, ocorrido no século XII, deu origem ao santuário que faz do Sítio da Nazaré um lugar de peregrinação. A história de Portugal também tatuou estas paragens. O Forte de São Miguel, construído no século XVI, aos pés da praia, está ligado às primeiras invasões francesas (1808). Conta-se que as nazarenas seduziam as tropas de Napoleão para depois os mandarem precipício abaixo. Com a ajuda das fotografias de Álvaro Laborinho, viajamos até ao tempo em que a Nazaré se tornou numa popular estância balnear (início do século XX). Nessa altura, os pescadores da praia do sul passaram a dividir a praia com os veraneantes e, alguns deles, tornaram-se banheiros durante o verão, dando banhos e armando barracas para os turistas. No outono era comum as mulheres dos banheiros irem aos “foros”, prática que durou até aos anos 70 do século passado. Segundo este costume, as nazarenas iam às quintas das famílias ribatejanas que vinham veranear e levavam-lhes peixe fresco trazendo os odres (usados na arte xávega) cheios com azeite e enchidos.

João Pedro Vale informa que “a classe média do Massachussets, nos EUA, também se deslocava a Provincetown para observar os operários da indústria de processamento de peixe.” De regresso aos costumes nacionais, passamos revista às miniaturas de barcos tradicionais da Nazaré e aos figurinos trajando os fatos típicos regionais. Relativamente às famosas sete saias (saias das nazarenas com sete camadas) chove um rol de teorias, mas nenhuma passa pelo número sete, ou pelas sete ondas. Pensa-se que, na verdade, seriam uma tentativa de imitação caseira das ancas largas usadas pelas senhoritas que invadiam a praia para veraneio. Independentemente de vestirem uma, ou sete saias, estamos diante de uma sociedade matriarcal, em que a nazarena, já dizia Raul Brandão, “é a alma desta terra”. Uma certeza adquirida por Nuno Alexandre Ferreira, desde a altura em que a dupla artística fez a peça Uma Fenda na Muralha, instalação sonora onde se ouve o choro das carpideiras da vila.
Cada terra com seu uso…
Depois da romagem obrigatória ao Sítio da Nazaré, seguimos pela marginal de calçada portuguesa, cujo desenho ondeia como a praia. “Chambre, chambre”, apregoam as nazarenas à soleira das suas portas. Nós, magnificamente instalados no hotel Mar Bravo, só paramos quando interpelados por Manuel Limpinho que nos receberá no dia seguinte na Casa Museu do Pescador: “São vocês os senhores das filmagens?”
Antes de jantar, subimos e descemos o Elevador da Nazaré e passamos na livraria Cenas & Livros, onde está exposta a mostra de fotografia de Álvaro Labourinho, Mar da Nazaré. Já à mesa do Mar Bravo, “restaurante mais antigo da vila”, a anfitriã, Fátima Araújo, defende que grande parte da fama mundial desta vila piscatória se deve a António Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional no tempo de Salazar (o ditador que governou Portugal durante 50 anos): “Não se deve ter vergonha, porque é muito engraçada a forma como tudo foi aproveitado e exponenciado. O traje tradicional tornou-se até mais bonito”.
Numa conversa em tom etnográfico, Fátima, que passou a meninice na Nazaré, ainda se lembra “das baixelas de prata em que se servia o chá na praia e das senhoras que mudavam de toillete três vezes por dia.” Etnográficos q.b. e à sua maneira muito própria, João Pedro e Nuno referem “a importância da identidade nacional nos nossos projetos, mesmo quando abordada de formas mais pitorescas”.
Depois de uma bela entrada de polvo laminado com azeite e alho, estamos todos de olhos postos nas lagostas grelhadas que chegam a bordo de um barco. Mas será o robalo ao sal o alvo de uma alusão ao Antigo Testamento. Lembra Nuno que a crosta do peixe se assemelha à parábola sobre a mulher de Lot que, na destruição de Sodoma, foi transformada em estátua de sal por ter olhado para trás. “Até parece uma peça minha”, contrapõe João Pedro. O jantar finda adocicado pelo pão-de-ló de Alfeizerão com chocolate de Óbidos e ginja de Alcobaça.

Na crista da onda
A manhã seguinte é passada à soleira da porta da “menina dos olhos” de Manuel Limpinho, a Casa Museu do Pescador. Pelo caminho, visitamos a Casa dos Escoceses, onde a dupla de artistas comprou, há uns tempos, várias peças para o projecto 7 Calças. Por pouco, não trazemos connosco mais um par delas.
Manuel Limpinho Águeda tem novelos de histórias para desfiar. À sua volta há redes e mais redes e uma colecção de 80 reproduções de barcos, “os barquinhos são uma doença”. A casa, a rebentar pelas costuras, reproduz a típica morada de pescadores dos anos 30 e 40 do século XX, onde coabitavam as artes da pesca e os próprios. “Sabia que antigamente o pescador só comia pão de trigo no dia da Ascensão? No resto do ano almoçava-se sopa em casa e ia-se para a taberna com um bocado de broa com peixe seco para depois se acompanhar com um litro de vinho.” Era o que fazia o seu pai que pedia emprestado o jornal O Século para ler as notícias aos outros pescadores.
O valor deste antigo pescador não passa despercebido aos conterrâneos. Marina Freire, a proprietária do Restaurante Maria do Mar, afirma perentória: “O senhor Limpinho é um verdadeiro cavalheiro, uma delícia de homem.” Delícias, no plural, são os mimos postos à nossa disposição. As gambas à Orlipa ganham no departamento das entradas, mas é o Sequinho de Raia, uma caldeirada de raia acompanhada com batata seca, que enche o palato de todos. Marina e as filhas, Orlanda e Filipa, homenageadas nas gambas, são o baluarte da sociedade matriarcal. A mãe é chefe de sala e as filhas mandam na cozinha. A única intervenção masculina é a do irmão de Marina, Mário José, que lhes traz o peixe apanhado no barco Maria do Mar, nome da mãe de ambos, celebrado na embarcação e no restaurante.

Por estes dias, o feito de Garrett McNamara anda nas bocas do mundo: o havaiano veio a Portugal e conseguiu surfar uma onda gigante de 30 metros na Praia do Norte da Nazaré. Estranhamente, o feito não surpreende as gentes da terra cujo quotidiano é vencer as marés. É que o maior desfiladeiro submarino da Europa, conhecido como Canhão da Nazaré – que provoca estas ondulações gigantes –, é um seu velho conhecido marcando sempre presença nos mapas desenhados pelos pescadores. Já o facto da onda se ter tornado num fenómeno mediático dá-lhes alguma esperança para o futuro. Vir espreitá-la será boa ocasião para experimentar o Sequinho de Raia do restaurante Maria do Mar, a caldeirada do restaurante Pires ou o peixe ao sal do restaurante Mar Bravo e viajar nas mil histórias que nos fazem encalhar pelo caminho. Foi o que aconteceu a João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira que levam na memória matéria-prima suficiente para uma mão cheia de novos projetos sobre o mar português da Nazaré.
por Maria João Veloso



