Monsaraz – Mirando a planície

on Mar 1, 2010 in Fim-de-Semana Perfeito | No Comments

Monsaraz é uma das mais antigas vilas de Portugal. Ricardo Pereira é um dos maiores ídolos da nova geração de actores portugueses. Juntámos o velho e o novo num fim-de-semana perfeito em que o galã de 30 anos contracena com um cenário secular.

Viajante assíduo para destinos variados, em especial o Brasil, onde vem desenvolvendo parte da sua carreira, Ricardo Pereira adorou rever esta pequena preciosidade lusitana depois de ter andado por locais exóticos como a China e a Jamaica e de ter conhecido diversas cidades do mundo. Antes da próxima grande viagem, que será “uma aventura pela América do Sul, da Patagónia a Macchu Pichu”, Ricardo tirou o máximo partido deste passeio a Monsaraz. Localizada a cerca de 50 km de Évora, a vila faz parte do património histórico nacional e é de visita obrigatória para quem passa pelo Alentejo.

Erguida no alto de uma colina, Monsaraz é toda cercada pela planície alentejana. O casario que espreita por entre as muralhas plana acima da paisagem. À noite, quando nos aproximamos e as luzes se acendem lá em cima, a vila parece suspensa no nada. Pura magia… Estamos instalados no Monte Alerta, espaço de turismo rural que nos acolhe como amigos. Não é um hotel de luxo, nem um alojamento rústico. É uma casa de família onde nos sentimos bem-vindos. Há cães, gatos, crianças, cheiros de alfazema no jardim. Jantámos pelo caminho, na típica Adega do Cachete, capital ibérica da olaria, na estradinha que liga Reguengos a Monsaraz. Uma refeição de deliciosos petiscos regionais, que ficámos a digerir enquanto olhávamos para o céu estrelado.

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Pela manhã, o roteiro começa a curta distância, no Convento de Nossa Senhora da Orada. Data do século XVII e conserva o minimalismo próprio dos edifícios monásticos dessa época. Oficialmente fundado por religiosos em 1670, foi um projecto arquitectónico ambicioso que levou vários anos a construir e ainda hoje é admirado pela sobriedade. “Perdido” no meio dos campos, tem ares de cenário de filme. Ricardo aproveita a inspiração cinéfila e posa para a câmara como se fizesse uma cena de acção.

Estamos próximos da Rota Megalítica. A concentração de vestígios desta fase nos arredores de Monsaraz é uma das mais significativas do continente europeu. Essa característica valoriza o património cultural, histórico e ambiental da vila. Ricardo não resiste à curiosidade de ver de perto as pedras que remontam aos primórdios da humanidade. O conjunto mais afamado da zona é o Cromeleque do Xerez, espécie de santuário formado por 50 menires de granito, que foi o único monumento pré-histórico a ser transferido do seu local de origem devido à construção da barragem de Alqueva.

Na subida para a vila, paramos junto à Ermida de São João Baptista, em forma de cuba muçulmana, com pinturas a fresco datadas de 1622. É o mais antigo monumento local, um santuário muçulmano de domínio almóada tomado pelos cristãos no século XVI. Habitada desde a pré-história, Monsaraz foi ocupada por vários povos da Península Ibérica antes de ser cristianizada, no século XIII. As marcas deixadas por árabes e judeus são visíveis na sua configuração medieval. Mas do conjunto, o que sobressai é a alma alentejana. Essa está entre as casinhas caiadas de branco, nas gentes de rostos endurecidos, nas esquinas floridas, na missa cantada na igreja aos domingos. O turista mais atento visitará, como os outros, as lojas de artesanato com mantas coloridas feitas em tear manual e peças típicas de olaria regional. Mas também lerá em cada rua, em cada porta ou janela, em cada recanto desta vila, a história de Monsaraz.

Ricardo, que frequentou o curso de Psicologia até ao 4º ano, inclui-se na minoria de visitantes capaz de perceber as tradições ancestrais que perduram na memória colectiva. “Até parece que estou a ouvir o barulho das pessoas a cantar e dançar nas festas populares” – diz ele, apesar do silêncio. Dentro da vila, há uma beleza intocada. Quem entra pela porta principal, sente-se de imediato transportado no tempo.
O actor vai parando aqui e ali para dar autógrafos e tirar fotografias com os moradores. Passear com um autêntico galã, de sorriso perfeito e olhos verdes transparentes, não é coisa que se consiga fazer discretamente. Mas o “nosso” Ricardo, além de estar habituado ao assédio do público, é a simpatia em pessoa. “Gosto que se aproximem de mim espontaneamente. Quase toda a gente quer dar palpites na novela ‘Perfeito Coração’. Torcem para que o meu personagem, Pedro, tenha um final feliz ao lado da sua amada, Leonor”. Ricardo também apresenta o programa “Episódio Especial”, na SIC. Terminou a rodagem do filme Os Mistérios de Lisboa, do chileno Raul Rouiz, inspirado na obra de Camilo Castelo Branco, e tenciona voltar ao teatro.

O maior lago artificial da Europa

O actor sente-se realizado com a sua trajectória profissional e tem óptimas expectativas quanto ao futuro. Além do Brasil, onde já é tão famoso como em Portugal, conta com agentes em Madrid e Nova Iorque. Pretende ampliar o seu mercado, fazer carreira internacional. O telemóvel toca sem parar. Entramos na arena do castelo, edificado em 1930 com base numa estrutura defensiva anterior, que costuma ser palco de touradas. Ricardo reconhece não ser adepto, mas considera “interessante ver todo o ritual de preparação que cerca a arte do toureio”. A seguir, trepa até ao cimo das muralhas, junto à torre de menagem: “Vale a pena, para se ter uma visão de 360º de tudo o que rodeia este lugar único, ponto alto em qualquer roteiro turístico de Portugal”.

Ricardo concentra-se na paisagem. Antes inserida numa das zonas mais áridas do Alentejo, Monsaraz beneficia hoje da renovação provocada pela construção da barragem de Alqueva – inaugurada em 2002, a cerca de 30 km – que alterou decisivamente o mapa geográfico da região. Milhares de hectares do solo ficaram submergidos com a subida do nível do rio Guadiana, que marca a fronteira entre Portugal e Espanha. “Ver a quantidade de água que existe aqui à volta hoje em dia deixou-me mesmo surpreendido. É o maior lago artificial da Europa, impressionante!”.

A mudança deu origem à albufeira de Alqueva, que apela à recomposição económica e comercial do território, pressupondo um desenvolvimento do turismo e de diversas actividades associadas. “Isto pode dar uma nova possibilidade de vida à região”, observa Ricardo, divertindo-se por as povoações que antes penavam por causa da seca serem agora chamadas “aldeias ribeirinhas”, com direito a cais, ancoradouro, marina e desportos náuticos. “Sente-se o amor das pessoas daqui pelas casas, os montes, as terras. Mas dá ideia de que ainda estão a aprender a conviver com o lago, que antes era apenas um fio de água”. A imagem de Monsaraz reflectida nessa água evoca Nossa Senhora da Lagoa, sua santa padroeira.

A vila oferece agora, como proposta de lazer, passeios de barco no Guadiana. Ricardo anima-se para velejar num antigo cargueiro construído em 1913 para navegação nos canais holandeses. “O barco é todo em ferro, tem 17 m de comprimento e capacidade para 35 pessoas” – explica o capitão Tiago, responsável pela organização dos passeios no Alqueva, durante os quais serve aperitivos e presta informações sobre o meio ambiente.

No Sem-Fim, antiga fábrica de azeite transformada em espaço de gastronomia e convívio cultural, espera-nos um farto almoço com requintada apresentação. À mesa, sentam-se artistas de várias nacionalidades, pois Monsaraz é ponto de reunião de estrangeiros que buscam uma vida alternativa. Ricardo visita a galeria de artes plásticas do escultor holandês Gil Kalisvart, proprietário do restaurante, gerido pelo filho Tiago, também encarregue da cozinha. Os doces ficam por conta da mulher deste, a catalã Gloria Cruz. Portuguesa com espírito indiano, Arlinda Ribeiro, mulher de Gil, é a responsável pela originalíssima decoração. Passamos horas à conversa, antecipando o prazer dessa autêntica instituição alentejana que é a sesta. Ao saber que já existe uma Confraria da Sesta, Ricardo oferece-se para ser vice-presidente. “Imagina que bom, eu vir dar uns cursos disso aqui para Monsaraz…”

“Tivemos uma recepção calorosa. Adorei ouvir as histórias das pessoas daqui e respirar estes ares” – revela Ricardo, em jeito de balanço. “A comida, sempre acompanhada de um delicioso vinho tinto, foi uma das experiências mais intensas. Fizemos uma degustação de sabores variados, muitos deles retirados da terra na hora de serem servidos, o que promove um contacto directo com a natureza. Fantástico! Tenho é que passar os próximos dias no ginásio, a fazer spinning para desmoer”. Preocupações legítimas de um actor que precisa de zelar pela imagem, mas não está centrado no próprio umbigo. “Sou open mind. Viajar, ler e estudar são das coisas que me dão mais prazer. Em Monsaraz consegui passear e relaxar. Fiquei feliz!”.

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Por Moema Silva

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