Miguel Thiré, brasileiro

on Apr 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Sinónimo de sucesso nas artes cénicas, o ator atravessou o Atlântico e rendeu-se aos encantos de Portugal.

Miguel abre muito os olhos azuis e respira a largas golfadas, mimando o gesto de quem, quase se afogando, consegue finalmente respirar. É com este gesto que mostra como se sentiu quando, em março de 2016, chegou a Lisboa. Veio de mansinho, como a primavera que começava a instalar-se, e com ela se espreguiçou. “O Rio de Janeiro, o Brasil, estava muito sufocante e aqui deu um relaxamento, um desopilar. Chegámos no finalzinho do inverno e a gente viu Lisboa a explodir de prazer de sair do frio.” Ficou por seis meses, mas quando regressou ao Brasil, para mais uma temporada de Selfie, a peça que trouxe a Portugal com Mateus Solano, já sabia que a ausência seria curta. Voltou em maio de 2017 e dessa vez para ficar.

Tem 36 anos, é filho e neto de atores. Thiré diz que estava “predestinado com muita intensidade” a fazer dos palcos lar e do teatro forma de vida, ainda que admita que lá em casa “não havia um incentivo” para que ele seguisse as pegadas da avó, Tônia Carrero, ou do pai, Cecil Thiré. “Ao mesmo tempo, e porque é uma profissão de apaixonados, falava-se disso em todos os almoços, jantares, os amigos falavam daquilo de uma maneira divertida, apaixonada, era tudo muito envolvente.” Não se estranhe, por isso, que aos 13 anos fizesse teatro amador, e aos 17 se estreasse no Teatro Ginástico com a peça Tango, Bolero e Chá-Chá-Chá. Também em 2000 fez parte do elenco de Malhação, a primeira de seis novelas em que participou, mas diz que essa “não vai ser [a sua] profissão carro-chefe”. Miguel sabe que consegue mais do que isso, até porque já o demonstrou no teatro, onde faz “de tudo”. Só em Selfie, que irá andar pelos teatros portugueses nos próximos meses, agora com o português João Jesus, faz dez personagens. “Trabalho muito com mímica, com teatro físico, tenho tantos outros formatos e recursos que não sejam o menino riquinho.”

Foi esse lado mais físico que o levou a falar a Joana Solnado, que quis trazer para Portugal a peça Cidade Maravilhosa, sobre o Chapitô, escola, companhia e sala de espetáculos de Lisboa. “O Chapitô é das companhias com que mais me identifico como resultado de trabalho, eles me inspiram muito, o tipo de teatro, de fisicalidade, pouco cenário, montando histórias através do corpo, dos sons.” A Cidade Maravilhosa, em 2017, seguiu-se, já no final de 2018, a peça Força Estranha, ambas criadas pelo próprio ator. Com este solo de improviso, Miguel percebeu que dividir a cena entre português e brasileiro pode criar “algumas resistências de início”, uma situação que se poderia colocar agora que está a contracenar com João Jesus, mas que é facilmente ultrapassável. “O português recebe o português e o brasileiro com a mesma velocidade”, ao passo que os brasileiros “levam um tempo para conseguir pegar uma palavra sem vogais”.

Ao trabalho de ator, Miguel tem vindo a acrescentar novas camadas, como a “figura do diretor criador do audiovisual”, um projeto com cerca de dois anos, que está a desenvolver na Academia Mundo das Artes, em Lisboa. “As minhas incumbências são de criar para cinema e televisão.” Além disso, escreve para teatro, ainda que de forma pontual, dirige e encena. E é em palco que se sente realizado. “O meu sonho é produzir coisas que o público se interesse tanto que eu possa viver de bilheteira”, desvenda, reconhecendo que a dimensão do mercado português torna esse sonho mais difícil de concretizar.

Por enquanto, Miguel aposta em continuar em Lisboa. Mora “entre o Bairro Alto e o Príncipe Real, mas fora da confusão”, o que lhe permite elogiar a Lisboa pedonal apesar das sete colinas. “Tem uma distribuição pedonal da minha casa que é tipo ‘Uau!’”, exclama, contabilizando que está a distâncias curtas do Teatro Nacional D. Maria II, do Tivoli, São Jorge, Chapitô ou Teatro São Luís. Para mostrar como é fácil gostar da vida em Lisboa fala da noite do seu aniversário em 2017, que começou com uma peça no D. Maria II, do austríaco Falk Richter, e acabou no Passeio Marítimo de Algés, a dançar ao som de Radiohead. “Numa noite assisti a uma peça extraordinária, entrei num táxi e 15 minutos depois estava a saltar no [festival] Alive a ouvir aquele som. Falei: eu quero morar aqui!”

E por cá ficou, numa cidade que para um carioca parece “cidade do interior, mas ao mesmo tempo tem acessos a coisas que absolutamente não são de cidade do interior”. Fala de uma Lisboa “antenada com o mundo”, que vive um “ciclo de expansão de energias, atraindo muita gente diferente, enquanto continua tendo a magia da tradição portuguesa, da calma, do antigo”. Tem construído o seu grupo de amigos portugueses, numa altura em que os brasileiros têm invadido Lisboa, ainda que reconheça que “não é fácil entrar num gueto de amigos portugueses” e que é “preciso batalhar alguns grupos”. “Há uma coisa que achei muito engraçada nos amigos portugueses: são mais solidários na dor do que na diversão. Eu chamo 50 portugueses para o meu aniversário, vão oito. A minha avó faleceu no Brasil e os 50 me ligaram.”

 

por Hermínia Saraiva /// foto Marisa Cardoso

Arquivos

O mar aqui tão perto

O Portinho da Arrábida, a praia dos Coelhos ou dos Galapos ficam junto à Arrábida, a menos de 50 quilómetros de Lisboa. A água, ainda que fria, é de um profundo azul turquesa. Miguel diz que “o encanta enquanto carioca estar em Lisboa e ter esse acesso fácil à praia ao ar livre. Em 40 minutos você já está lá e parece um outro mundo.”

O mundo num palco

Da vida cultural de Lisboa, Thiré elege a programação do Teatro São Luiz, no Chiado. “Vi grandes encenadores portugueses e europeus, vi trabalhos portugueses e brasileiros muito bons. Tem uma programação fascinante”, diz Miguel, afirmando que o mesmo pode ser dito do Teatro Nacional D. Maria II.

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.