Miguel Guedes de Sousa

on Dec 1, 2019 in Partida | No Comments

Os hotéis levaram Miguel Guedes de Sousa pelo mundo, que agora traz para os seus espaços em Lisboa. Português convicto, o CEO da Amorim Luxury é um viajante curioso e incansável.

“O meu pai adorava fazer pequenas viagens e levar os filhos, ficar em bons hotéis e comer em bons restaurantes, assim criei uma paixão muito grande pelo lifestyle”, diz sentado na esplanada do seu magnífico restaurante JNcQUOI Asia, na Avenida da Liberdade. Naquela altura, não se viajava como hoje, mas depressa o mundo se abriu à sua frente quando, aos 17 anos, foi estudar para o Kansas para “um sítio um bocado remoto”, mas com uma excelente equipa de râguebi, desporto que praticou toda a vida, e com a qual atravessou o Midwest, “os verdadeiros Estados Unidos”. Desde miúdo seguiu o sonho americano: “Queria viver a American high school, da cheerleader e do jogador de futebol americano, são exatamente iguais aos filmes!”, ri-se. Abriu-lhe horizontes: “Ensinou-me a arriscar, a ter uma mente aberta, também para a diferença. Aprendi como é que se vive no estrangeiro e se faz amigos.” Viveu em tantos países que criou uma fórmula: elegia um bar e um restaurante badalados e ia lá todos os dias, “começava a ser conhecido, dava boas gorjetas e conversava para os lados”. Mas como bom viajante também gosta de estar sozinho, “viajar observando. Tudo o que sei, as minhas ideias vêm todas das viagens”.

Miguel Guedes de Sousa viveu em 13 países, “sou um viajante profissional, nunca mais parei!”, ri-se. Foi para Inglaterra melhorar o inglês, estudou hotelaria na Suíça e fez o curso de cozinheiro nos EUA. Como o seu companheiro de quarto era sobrinho de Imelda Marcos, estagiou seis meses no grandioso Manila hotel, e passou outros tantos no The Landmark, em Bangkok. O seu primeiro emprego foi em Brighton, Londres, depois foi um par de anos para Barcelona onde chegou a diretor de food & beverage no InterContinental. Ainda hoje é apaixonado por Sitjes e pela Costa Brava, “têm uma grande cultura gastronómica, artística, são gente muito interessante”. Depois foi para as Maldivas, de onde guarda “sunsets brutais e enormes tempestades” ou a memória de ver passar na praia um enorme tubarão baleia, “espetacular!”. Quando o pai o foi visitar, Miguel desviou-o para Phuket, na Tailândia, queria conhecer o luxuosíssimo Amanpuri, aberto há escassas semanas (“isto foi há 27 anos”, recorda). Com o entusiasmo, reservou um quarto sem saber o preço, “de facto tinha uma piscina no quarto e o do meu pai também: ‘deve haver alguma coisa de errado!’”, ri-se, “foi a primeira vez que estive em contacto com o ultraluxo, único, fiquei maravilhado”. Esteve dez anos a enviar cartas ao diretor dos Aman Resorts, até que escreve ao fundador e este liga-lhe mostrando-se disponível para recebê-lo quando passasse por Singapura. “Fui logo!” E gastou o salário de um mês num fato Brook Brothers, para “ter uma granda pinta”, mas não chegou a estreá-lo porque foi avisado: “Ele nunca contrata alguém que apareça de fato.” Foi conhecer o seu ídolo, escolheram-no, e fez um périplo por todos os resorts Aman, dez num mês, foi “a coisa mais inteligente, a experimentar tudo, já viu a loucura?”

 

Misturas

Começou a aventura na Índia, de passagem, ainda hoje recorda o belo Rajastão onde assistiu ao nascimento de um tigre, e depois pelo próprio Amanpuri, onde esteve pouco tempo, o suficiente para a Tailândia lhe ficar para sempre. “Devo ter sido tailandês numa outra vida. Vivi momentos muito fortes, este hotel mudou a minha vida, hoje tenho confiança, conhecimento, audácia… Passado 25 anos ainda é uma obra de arte!” Viajou pelo país e tornou-se “obcecado” pela sua cultura e gastronomia: “É um povo com um encanto e um exotismo incríveis, um melting-pot”. Seguiram-se quatro anos no Amanjena em Marraquexe, onde mais tarde chegou a diretor-geral e foi superfeliz, “tive lá os melhores anos”. Adorou a temperatura e “a sensação da pequena porta que se abre para um oásis, ser sempre surpreendido. Têm uma cultura tão antiga e forte que quando se pensa já ter conhecido, não se conhece nada. E conheci pessoas extraordinárias”. Participou na Marathon des Sables, a famosa corrida de sobrevivência até à Mauritânia, “seis maratonas em sete dias. O deserto é arrebatador, o silêncio. Numa noite estrelada, surgiram camelos pretos sozinhos no cimo de uma duna sob estrelas cadentes… Ou uma águia, de repente, de onde veio? Tive experiências de beleza únicas”. Volta para as Filipinas quase seis anos, para o Amanpulo, uma pequena ilha com polícia, escola e hospital próprios, “tínhamos de plantar os nossos vegetais e tratar do próprio lixo”. Acordava todos os dias às seis da manhã e, com a sua equipa e o seu labrador Sulo, limpavam a ilha para os clientes acordarem num paraíso intocado. “Um dia, vejo uma tartaruga gigante a nadar e um tubarão-tigre come-lhe a cabeça, uma cena National Geographic. O meu cão atira-se à água, costumava apanhar tubarões bebés (uma chatice, estava sempre a devolvê-los à agua), nunca tive tanta força na vida, levantei-o no ar!”

Os seus tempos na Ásia levaram-no a estudar a ligação dos portugueses a este vasto continente, que vemos desenhado num mapa à entrada do JNCquoi Asia. “Tenho uma grande honra em ser português e é evidente a influência que Portugal teve nestes países desde que descobriu o caminho marítimo para a Índia, principalmente no spice market, que influenciou imenso a cozinha tailandesa, fomos nós que levámos as malaguetas. Defendemos a sua coroa durante quase 100 anos e deixámos os fios de ovos, o arroz com leite de coco ou os coentros.” Viajou por toda a Ásia, ia todos os meses a Singapura, e “vendia” o seu hotel em Tóquio, Xangai, Pequim. “Há 22 anos, ninguém falava inglês, ia com um tradutor e um mapa, e os clientes eram do Governo, todos os meses via uma nova autoestrada.” Visitou várias vezes a Coreia, adora o Camboja e recorda as vistas do Amanjiwo, em Java, em frente ao santuário budista do século IX de Borobudur: “No meio daquela selva, avista- -se o vulcão ativo.” Falta-lhe algum país? “Mmm, o Bangladesh. E gostava de explorar África, Quénia, Madagáscar… Quem sabe fazer uma coisa africana e brasileira, um JNcQUOI Equador”, sorri.

Em 2008 regressa a Portugal para trabalhar na gestão de ativos na Explore Investments, que fez o turn around de hotéis de topo como o Six Senses, o Campo Real ou o Vila Monte Farmhouse. Casado com Paula Amorim, fundadora da flagship Fashion Clinic e representante da Gucci sob o selo Amorim Luxury, em 2017 preside à gestão do grupo de seu pai, Américo Amorim, à data o homem mais rico do país: “Criámos o conceito food meets fashion meets hospitality, uma empresa integrada de lifestyle”. E assim nasceram os dois belíssimos JNcQUOI (“O nosso maior concorrente é o espaço” ri-se), o primeiro inclui a Ladurée, aqui existem quatro cozinhas asiáticas: “Não fazemos restaurantes, fazemos instituições”.

 

Sem parar

Miguel está sempre à procura de histórias de sucesso e as viagens alimentam essa energia inesgotável. “É a minha droga, por assim dizer.” Voa várias vezes por mês e é capaz de apanhar um avião para ir à Noruega ou à Dinamarca só para conhecer um restaurante e voltar, “porque me entusiasmo com a gastronomia ou um vibe diferente. Aprendemos com os outros”. Como é capaz de ir a Nova Iorque, entrar num Uber e ir a 20 restaurantes diferentes num dia, “para assimilar ideias”. Tira notas, faz listas e a sua própria investigação. Tentou seguir o exemplo do pai numa viagem familiar à Ásia e acabou a jantar sozinho umas vezes, “já não aguentavam comer mais!”, ri-se. E tem as suas manias: faz uma reserva, mas passa antes no restaurante para escolher a mesa. “É um momento chave da minha viagem, a minha mulher diz que não sou bom da cabeça, mas o pior que me podem fazer é comer mal e ser mal servido. O resto aguento, sou simples. Apesar de gostar de luxo e de coisas boas, tenho a mesma alegria a comer um bom kebab como a estar num restaurante de estrelas Michelin, só depende de com quem estou e da temperatura do dia. Engraçado, antes corria todos, hoje procuro coisas genuínas, prefiro grelhar um peixe com o pescador do que ir a um estrelas Michelin no Mónaco. Mas continuo a ir. Como me interessa conhecer hotéis de duas e três estrelas inovadores. Gostar de várias coisas é o equilíbrio da vida, interesso-me por tudo.” A primeira coisa que faz quando aterra é procurar aquele restaurante, depois aquele hotel. “Sou capaz de ficar num mau hotel para ir a um bom restaurante, o contrário nunca na vida.”

Muita da sua pesquisa é feita a bordo, raramente dorme, porque está demasiado concentrado e faz um longo curso com naturalidade: “Adoro andar de avião, para mim é um sítio de inspiração. Gosto de tudo: das refeições, da revista, de ver um filme, aprecio aquele momento no avião, posso ler, levo sempre revistas, adoro e recorto tudo, a minha mulher fica chateada porque às vezes rasgo-lhe as dela, depois distribuo pelas pessoas, para lhes dar mundo.” No aeroporto anda sempre a explorar: “Gosto de observar pessoas, como estão vestidas, o que vão comer, as lojas, as novas tendências, entretém-me.” É pouco ligado a coisas, por isso gosta de viajar leve: “Passo-me com malas de porão!”, risos. “Gostava de chegar ao ponto de ter a roupa toda da mesma cor, ou três cores, tudo organizado.” O melhor das viagens é?… “Tudo! Sou muito sonhador, saber que vou ter uma viagem, todo aquele excitamento, vivo o antes, o durante e o depois. Aproveito tudo, aproveito a vida, a vida é para viver ao limite e com intensidade. A única forma de ser feliz é estar sempre a fazer coisas.”

 

por Patrícia Barnabé /// foto Luís Silva Campos

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