Marta Mestre, Rio de Janeiro

on Jan 1, 2012 in Partida | 6 Comments

Estudou artes e, por elas, fez uma viagem ao Rio de Janeiro. Sem bilhete de regresso, hoje trabalha no Museu de Arte Moderna da cidade e absorve cada centímetro da sua graça natural.  

“Sou alentejana, nasci em Beja, cresci na Biblioteca Municipal que o meu pai coordenava, e os livros formaram o meu imaginário. Quando era adolescente, um livro fez-me querer ser antropóloga, depois desejei a arqueologia, mas decidi seguir as artes, descobrindo os pintores impressionistas e modernos em imagens. A biblioteca era o centro do mundo, a forma de ter acesso ao desconhecido.” Marta Mestre tem subtileza de artista, sorriso franco e olhar inteligente. Muito observadora, cedo seguiu os sentidos e escolheu História de Arte e Museologia, que estudou em Lisboa, para depois fazer um mestrado na mesma área, em Paris. É curadora assistente no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e trabalha na programação de exposições do museu, para além de desenvolver ações educativas junto do público. Está numa das cidades do futuro e o seu trabalho é acompanhar de perto a criação dos artistas de hoje, refletir e expô-la ao público. Sempre que pode, visita ateliês no Rio e em São Paulo, para escrever sobre exposições que a seduzem.

Marta foi para o Rio de Janeiro com o objetivo de organizar uma exposição e um seminário no MAM sobre o Atlântico Sul e as suas trocas culturais contemporâneas, nas áreas da arte, design, curadoria, economia criativa, antropologia e literatura. “Acabei por receber um convite do curador do MAM para integrar a sua equipa”, recorda.

Agora, por exemplo, tem em mãos o projeto de articular o MAM com outras instituições parceiras do Rio e do Brasil, de modo a constituir uma agenda forte de arte contemporânea para os eventos mundiais de 2014 e 2016 (Olimpíadas e Campeonato do Mundo de Futebol) que vão acontecer na cidade. “Gostaríamos de dar continuidade às exposições que temos feito com artistas, coleções e museus portugueses e faremos no MAM a segunda edição da programação sobre o Atlântico Sul, o Terceira Metade.”

Sonho lindo

O Rio de Janeiro sempre viveu na sua imaginação muito antes de aterrar no aeroporto Tom Jobim. “Para nós, portugueses, há um certo Rio de Janeiro que prolonga a experiência cultural da língua, da cidade, da arquitetura, da afetividade, da música”, afirma.

Quando chegou pela primeira vez tinha já amigos brasileiros, artistas e críticos de arte, e, por isso, sentiu-se logo em casa. “Não sou do tipo de ter dificuldades de adaptação”. Também teve a sorte de ter um casal de amigos artistas: “Emprestaram-me o ateliê deles, onde fiquei nos primeiros dois meses, em pleno coração de Santa Teresa, rodeada de casas românticas e de bondes [elétricos]. Foi a partir daí que fui conhecendo a cidade, que é muito diferente consoante os bairros e as zonas.

Depois mudei-me para o Leblon, a dois quarteirões do Calçadão e da praia, na zona sul. Hoje moro no Largo do Machado, já perto do Centro, onde há mais bulício, mais circulação, e onde várias classes sociais se misturam.” “Aquilo que torna o Rio numa cidade única”, acrescenta, “é a sua beleza contraditória, que explode. Na esquina de uma rua cheia de prédios altos ergue-se, de repente, um morro coberto de vegetação.”

O Rio de Janeiro faz Marta feliz. Principalmente por essa “exuberância da natureza dentro da cidade, o otimismo carioca, o chope gelado, os sebos [alfarrabistas], os pastéis de bacalhau, a música nas esquinas, o tempo que sobra”. E as pessoas? “Não se queixam e não se lamentam. Gosto deles também por isso.”

Quando lhe falamos do saudosismo português, ela não pestaneja: “Moro no Rio de Janeiro há um ano e meio e espero ficar muitos mais. Sinto a falta do meu país nos detalhes, nas pequenas coisas quotidianas, nas amizades e familiares que continuam lá, mas sempre vivi bem essa falta porque encontro o meu país noutros lugares por vezes inesperados. O meu lugar agora é aqui”.

Por Patrícia Barnabé

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Lugares Favoritos

“Gosto muito da Urca, o bairro que tem o Pão de Açúcar por cima. Para lá chegares, tens de ir propositadamente, não fica no caminho de nada, mas tem uma vista belíssima sobre a baía da Guanabara e sobre Niterói, com os barquinhos de pesca, o murinho onde os cariocas se juntam bebendo e conversando, e os aviões que aterram no aeroporto Santos Dumont pairando no horizonte, em compasso de espera. Outro lugar de que gosto é a Escola do Parque Lage, uma antiga residência sumptuosa transformada em escola de artes visuais, debaixo do Cristo Redentor, onde Glauber Rocha filmou cenas de Terra em Transe. É um bom programa de fim de semana.”

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