Maria de Medeiros – Maria sem fronteiras

on Jul 1, 2010 in Talento em Português | No Comments

Por achar a vida maravilhosa, Maria não  é como “La Portuguesa” da canção de Carlos Cano. Por não ter território, a sua pátria é a língua, pessoana e poética, que leva sempre consigo. Diz-se uma estrangeirada, mas Maria de Medeiros não tem fronteiras.

Encontramo-la entre as paredes nuas de um pavilhão de Serpa, vestida de ucraniana, num intervalo das filmagens de Business, primeira longa-metragem de um amigo de infância, Serge Tréfaut. Os cabelos loiros amarrados à nuca e a ousadia da roupa não condizem com a personagem que procuramos. Nem com a cândida Fabienne que segredava ao ouvido de Bruce Willis, em Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994), nem com a transgressora Anaïs Nin de Henry & June (Phillip Kaufman, 1990), nem com a solitária Maria de Três Irmãos (Teresa Villaverde, 1994), nem com a “actriz que canta” e que recentemente embarcou na sua segunda aventura musical. Nada disso! Quem nos entra pelo carro adentro e se senta sorridente no banco de trás, ao abrigo da chuva, para dar esta entrevista, é a Maria de Medeiros que Miguel Esteves Cardoso descrevia há 20 anos na revista Kapa: “De um momento para outro, passa de Virgem Maria para Maria Madalena. É inocência e podridão. Século XIII e século XX. Miúda e mulher. Maria de Medeiros é a Maria em que se estiver a pensar.”

É diferente subir ao palco para cantar ou para representar?

O palco é um lugar sagrado. Se é para cantar ou representar, o mecanismo que se põe em marcha é o mesmo. Trabalho sempre com música na cabeça e quando estou a dizer só texto sigo a musicalidade das palavras. Também gosto do oposto, das palavras que há na música.

As línguas não são um problema para si?

Tive a sorte de representar em seis línguas que conheço bem e verifiquei que cada uma nos faz mudar de personagem e adquirir uma atitude diferente. O francês, por exemplo, instaura alguma distância, é quase cartesiano, ao passo que o espanhol nos força a ser mais directos. Gosto muito dessas diferenças e exploro-as bastante enquanto actriz…

E o português?

Por ser a minha língua, é mais difícil. Cada palavra tem mais histórias, mais sentidos, mais afectos, é menos inocente e mais carregada de emoções. Não sei muito bem como descrever a personagem que me sai do português, talvez por me identificar com ela. Tenho aquela ideia pessoana de que a minha pátria é a minha língua. Acho que Portugal é uma ideia que levo comigo e que define grande parte da minha identidade.

Quando percebeu que podia e queria cantar?

Custou-me muito dar esse passo porque tenho grandes músicos na família, o meu pai e a minha irmã mais nova, a Ana, que é violinista e compositora. Lembro-me de pensar que a música é o território deles e que não me deveria atrever nesse campo. No entanto, é uma forma de expressão que sempre esteve presente na minha vida. No cinema, pediram-me muitas vezes para cantar e no teatro participei em vários musicais.

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E porque decidiu atrever-se mesmo assim?

Tudo se desencadeou com o Ano do Brasil em França (2005). Houve muitos festejos à volta da cultura brasileira e, naturalmente, da música. Acontece que saía dos espectáculos um bocadinho frustrada, por achar que algumas coisas ficavam à superfície. A música era boa, os poemas eram magníficos, mas os franceses não os podiam entender. Algo de extraordinário se perdia pelo caminho. Um bom exemplo é talvez o Chico Buarque, cujos poemas são tão bons como a música.

Vai daí…

Vai daí surgiu a ideia de fazer um pequeno espectáculo em que cantava em português, embora traduzindo os textos do Chico. Para o público francês foi uma descoberta, tinha havido algumas adaptações standard, mas as pessoas não faziam ideia da riqueza que estava dentro das músicas. Foi então que surgiu a ideia de fazer um disco pela Universal. Seguiram-se várias tournées que nos levaram pelas penínsulas e continentes que surgem agora neste novo disco. Nesses concertos, comecei por dar relevo à música portuguesa e a grandes autores como o Zeca Afonso, o Sérgio Godinho ou a Amélia Muge, e foi assim que se delineou o núcleo duro deste segundo disco.

A música era um passo fundamental para se cumprir como pessoa?

A música é um motor de alegria. Há dois grandes motores de alegria na vida: um deles é ter filhos (Maria tem duas filhas), as pessoas ficam mais felizes, passa-se alguma coisa… o segundo é a música e os brasileiros sabem-no. É talvez uma das sociedades onde a música é mais compartilhada pelo povo. A proximidade quotidiana com música que não é alienante, que nos constrói, que nos identifica, que cria comunhão. E eu penso que é esse o grande destino da arte: criar comunhão. Quando existe para nos distrair, para nos cegar e alienar (problema da arte muito industrializada), não cumpre o seu papel fundamental. Com a música brasileira acontece o contrário, as letras têm importância na medida em que questionam a sociedade, as relações humanas, contribuindo para nos fazer pensar juntos.

Quem são os seus públicos?

O público é muito variado, tocámos em Moçambique, em Angola, em São Paulo, no Rio, em Itália, em várias cidades espanholas, como Madrid e Barcelona. Há um público quase sempre latino, mas bastante variado.

Olhando para o seu percurso, acha que poderia ter sido outra coisa qualquer que não artista?

Podia ter sido jornalista. Talvez porque a minha mãe é jornalista e sempre assisti de perto ao seu trabalho, que me fascinava. Sobretudo durante o período que se seguiu à Revolução dos Cravos. Pelo trabalho, ela esteve sempre ligada aos grandes protagonistas da revolução e foi certamente isso que me levou a realizar o filme Capitães de Abril.

Que país descobriu quando chegou a Portugal na década de 70?

Nessa altura, eu era uma pequena austríaca, gostava de ordem e de tudo limpinho no seu sítio. Cheguei cá  e era o maior caos, por isso a primeira reacção foi de susto. Havia muito contacto físico e quando éramos levadas pelos nossos pais para as manifestações era preciso dar muitos beijinhos às pessoas. Fui-me adaptando a pouco e pouco, há medida que fui fazendo amigos (no fundo fazer amigos é criarmos o nosso espaço num país).

Como é que os constantes trânsitos entre países a influenciam como artista?

Foi um capital muito bom, foi uma sorte. Há quem pense que as crianças se devem criar num meio muito estável, cheio de regras. Ora connosco foi exactamente o contrário. Uma vida de grande nomadismo, de muitas viagens e de contacto com outras culturas e pessoas diferentes, de grande incerteza…

Acha que esse sentimento de não pertencer propriamente a lado algum a ajuda a despojar-se de si e a construir as suas personagens?

Certamente, de alguma forma fiquei menos agarrada a uma identidade, a um território, a uma geografia afectiva. Pelo contrário, gosto é de estar sempre a cruzar fronteiras.

E o facto de se chamar simplesmente Maria também ajuda?

(Risos) Na altura, quando os meus pais decidiram chamar-me só Maria, isso provocou muita indignação porque diziam que era nome de criada. Hoje em dia fico contente por não ser Maria de nada…

Como é que se tornou actriz?

Foi por causa do Serge (Tréfaut), de quem sou amiga desde os onze anos, que tinha a mania de apresentar concursos (até concursos de lavar os dentes). Tínhamos feito teatro como Philippe Fridman, um grande formador que tinha a paixão da filosofia e do teatro. Mas foi o Serge que me disse: “Temos de apresentar os concursos do Conservatório”. Era um milagre entrar porque havia três mil candidatos e ficavam 30. Inesperadamente, eu entrei e ele não (risos). Isso forçou-me a uma escolha. Aos 15 anos já tinha entrado no Silvestre, do João César Monteiro, contudo ainda não estava conquistada. Tinha sido uma experiência interessante e representar com o Luís Miguel Cintra fora marcante, mas só no Conservatório percebi que fora o destino a empurrar-me para aí, e então cedi…

Da extensa lista de realizadores com quem trabalhou no cinema, destacam-se alguns nomes como Chantal Ackerman, Phillip Kaufman, Bigas Lunas ou Manoel de Oliveira. Mas há um que desperta maior curiosidade: Quentin Tarantino. Como é que se cruzou com ele?

Como diz a canção do Lenine, “tudo por acaso”. Encontrámo-nos num pequeno festival de cinema independente em Avignon, onde ia gente nova apresentar filmes improváveis. Ele estava lá com o primeiro filme, Reservoir Dogs (Cães Danados), que achei formidável, e mantivemos contacto. Acho que ele se interessou porque tinha visto o Henry & June e foi a partir daí que me recrutou, e depois à Uma (Thurman).

Teve logo consciência de que estava a fazer história no cinema?

O que foi revolucionário no Pulp Fiction é ter sido uma proposta tão ousada, tão atrevida e diferente do que preconizavam os estúdios de Hollywood. Ele ia contra tudo isso, o guião era um calhamaço de 150 páginas, cruzando os tempos, era como um puzzle cronológico. Mas nunca suspeitei que um filme tão sofisticado encontrasse um público tão vasto.

Nessa altura, acho que todos esperávamos uma carreira sua em Hollywood…

Nunca esteve nos meus planos. Será  normal para alguém como o Joaquim de Almeida, que viveu em Nova Iorque e tem muito contacto com a sociedade americana. Já eu tenho muito pouco. Toda a minha vida cruzei a Europa e revejo-me mais no cinema europeu.

Está  sempre de malas feitas. O que leva na bagagem?

Estranhamente, para mim, é uma tortura fazer e desfazer malas. Há uns básicos que quase nunca saem da bagagem, mas não tenho “objectos” ou amuletos de viagem. Também não tenho rituais, mas gosto muito de ler um livro que tenha a ver com o sítio onde estou. Por exemplo, li o Ulisses e os Dubliners, do James Joyce, em Dublin, e quando abandonava o livro parecia que continuava lá dentro. Também me aconteceu com o Amante do Vulcão, da Susan Sontag, que se passa em Nápoles, ou ao ler o Fernando Pessoa em Lisboa, é como andar dentro do Pessoa…

De que gosta mais em Portugal?

Para ser muito sincera é dos rissóis (risos). Mas depois há outras coisas importantíssimas, como a cultura, os poetas e artistas ou por exemplo a equitação à portuguesa, que me fascina, a família, os amigos… gosto muito de Portugal.

E de que gosta menos em Portugal?

Isso é extensível a outros países e dá pelo nome de preconceito. Talvez por ser um país pequeno que, por vezes, tende ao isolamento. Neste disco canto o “Paz, Poeta e Pombas” do Zeca Afonso, que fala de um poeta maníaco-depressivo. Como há sempre muitos níveis de leitura nos poemas do Zeca eu acho que, de alguma forma, ele está a falar do nosso país. Há os momentos maníacos de grande euforia e megalomania, como a epopeia dos navegadores ou o 25 de Abril, uma revolução exemplar da qual tenho um enorme orgulho, e depois há os períodos depressivos, onde reina o complexo e o preconceito. Nessas alturas, as pessoas ficam amedrontadas e são críticas de tudo, perdem a alegria.

Há  um texto escrito pelo Miguel Esteves Cardoso há 20 anos que fala de uma Maria de Medeiros que me parece bastante actual. Gostava que comentasse algumas das afirmações que se fazem nesse texto…

Sei perfeitamente, é dos mais belos textos que escreveram sobre mim.

Diz ele, “a Maria não tem cara. Tem mil.”

É verdade e o meu trabalho vai nesse sentido, reconhecendo que a nossa identidade está na multiplicidade das máscaras ou das personagens que representamos. Aqui estou, vestida de ucraniana a falar em russo (risos).

“Esteja onde estiver, está sempre bem”…

Tento, não partilho o lado depressivo da cultura portuguesa. Gosto das culturas que assumem a sua alegria, como a espanhola, a brasileira, a africana. Para quê estar na vida descontente? A minha filosofia de vida é estar bem porque a vida é maravilhosa e é por isso que canto “La Dolce Vita” neste álbum.

“É permanentemente uma estrangeira no estrangeiro”…

É verdade, sou a típica estrangeirada. Há milhões de portugueses pelo mundo e eu identifico-me com eles desde os estrangeirados do Eça de Queiroz. Mas essa é talvez uma das facetas mais interessantes da cultura portuguesa, a curiosidade eufórica pelo mundo.

Faz vida de emigrante em Paris?

Tenho bons amigos que são fundamentais no mundo associativo em Paris. Mas… sim. Identifico-me completamente com os portugueses que vivem fora de Portugal, assim é que é (risos).

Voltando ao MEC. “Do que ela gosta é do que está  a fazer agora: tudo ao mesmo tempo…  na mão e na contramão”.

É verdade, mas o que é incrível é que ele adivinhou tudo isso. Quando escreveu o artigo eu era muito novinha. Cruzei-me com ele algumas vezes no Frágil (nessa altura vivíamos no Frágil), mas conheci-o pouco, e realmente é curioso como ele adivinhou o que viria a ser o meu trabalho.

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por Patrícia Brito

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