Marcos Frota, brasileiro

on Mar 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Há mais de 30 anos que o ator é um devoto de Portugal. De espírito bem aberto, considera-o o porto de abrigo onde continua a colecionar histórias.

Nos anos 80, rumar até ao Algarve para as férias de verão fazia-se de madrugada para escapar ao trânsito intenso na estrada que ligava Lisboa ao sul do país. Escusado será dizer que, na altura, as comunicações interpessoais eram completamente diferentes. Ver ou interagir com alguém famoso era uma miragem. Em 1989, em Quarteira, principalmente para alguém que, como eu, não vivia na capital (onde tudo ou quase tudo parecia acontecer), era impensável. Na cidade algarvia estava instalado um circo que ia receber Marcos Frota, o ator da novela brasileira Sassaricando, da Globo, um sucesso entre os portugueses. Não o que conhecíamos da ficção, cuja personagem se chamava Beto, mas como trapezista – na acrobacia aérea que praticou muitos anos e que aprendeu nas gravações de Cambalacho. É essa a minha única recordação daquela noite, tinha seis anos. E partilhei-a com Marcos, agora à minha frente, que a recebeu num misto de espanto e de felicidade. Ele que preenchia o ecrã da televisão lá de casa, todos os dias.

O paulista, que nesta conversa cantou, gesticulou, levantou os braços, sempre muito expressivo, lembra-se dessa participação no espetáculo do Circo Chen. E também de ter sido essa mesma companhia de circo que “pagou as dívidas” da peça (A Cerimónia do Adeus) que estava a fazer ao mesmo tempo no Teatro da Trindade, em Lisboa. Um teatro que, conta, estava “um pouco inativo e sem programação artística constante”, naquela ocasião. “Eu me encantei pelo teatro e durante a minha estadia aproveitei para o recuperar. Iniciativa minha. E entreguei o teatro para a cidade e para os artistas. Isso marcou a minha relação com Lisboa”, recorda, logo depois de ter brindado sorridente com um “Viva, Portugal!”. E continua: “Uma vez que você interfere na cidade, você se mistura com ela”. Logo depois, quando ficou viúvo, escolheu Lisboa para ficar em paz e “para entender um pouco aquele momento”. Visitou também Fátima. “E a partir daí eu venho sempre que posso.”

Como na vida todos os pontos acabam por se unir, regressou à capital portuguesa no início deste ano para promover filme O Grande Circo Místico, do realizador Cacá Diegues, em que faz uma pequena participação e integra um leque de atores brasileiros, portugueses e franceses. Aliás, a longa-metragem, estreada no Festival de Cannes, que celebra os cem anos do Grande Circo Místico, a partir da história de cinco gerações de uma família circense, foi filmada em Portugal. “É um clássico da dramaturgia e da música popular brasileira, que registra o quotidiano circense através de um poema de Jorge de Lima. Desde os anos 80 que O Grande Circo Místico, através do ballet, do teatro, da música e, agora, do cinema, vem pontuando a cultura brasileira.”

Com a ligação que tem ao circo e à representação, participou nesta película como peixe na água. No Brasil, o artista de 63 anos tem mesmo uma universidade de circo, “não sob o ponto de vista académico, mas da universalidade que o picadeiro tem em acolher todas as artes”. Explica ainda que o Marcos Frota Circo Show é uma “forma de educação inclusiva”, que possibilita o “exercício de cidadania para as crianças e jovens brasileiros”. A sede nacional, no Rio de Janeiro, que hoje acolhe 800 jovens, ocupa “um sítio português”, a Quinta da Boavista.

Nesta última viagem a Lisboa visitou o Circo Victor Hugo Cardinali e foi convidado a pisar o picadeiro. Ainda em êxtase por causa desse momento, diz ter revelado ao público uma profecia sua: “Enquanto houver uma criança no mundo, sempre haverá o circo!”

Desta vez estreou-se em Almada. Atravessou o rio Tejo de cacilheiro e apaixonou-se por Lisboa vista do outro lado, em Cacilhas, percorreu o miradouro do cais do Ginjal, subiu ao Cristo Rei e visitou o Teatro Municipal Joaquim Benite, onde mora a Companhia de Teatro de Almada. Por esses dias subiu ainda ao Porto com um objetivo muito particular: conhecer os seus antepassados. “Eu fui levado para um lugar chamado Serra do Roncador, no [estado brasileiro de] Mato Grosso, um deserto no planalto. Tem uma serra de pedra gigantesca e uma caverna em que você anda 50 quilómetros. Aí uma mulher olhou para mim e falou ‘A tua família é do Porto, os seus ancestrais, e eles eram trapezistas’. Isso me marcou porque a mulher que vive lá chama D. Deusinha.”

Este sinal espiritual remete para Tonho da Lua, o autista construtor de esculturas na areia que encarnou em Mulheres de Areia. A mística da personagem conquistou até o antigo Presidente da República Mário Soares, que “parava o que estava fazendo para ver a novela!”, diz Marcos (que tinha acabado de encontrar uma família cigana, à porta da Sé de Lisboa, que o reconheceu desse momento alto da carreira). Em pleno Chiado as pessoas elogiam-no e ele sente cada vez mais que esta é também a sua casa.

No final brindámos ao “menino” que o viu no Algarve “a voar no trapézio”. A vida dá voltas.

marcosfrotacircoshow.com.br

 

por Manuel Simões /// foto Marisa Cardoso

Arquivos

Rituais

Quando está em Portugal, o ator vai sempre ao Teatro Nacional D. Maria II: “O espetáculo é às 19h e eu chego às 16h30, 17h. Compro o ingresso e fico por ali andando. Tomo um café, vou na livraria.” Marcos tem também uma grande admiração pelos Coliseus de Lisboa e do Porto, cuja programação integra mostras circenses. E elogia o trabalho desenvolvido pelas escolas de circo do país, Chapitô e Instituto Nacional de Artes do Circo.

tndm.pt \\\ coliseulisboa.com \\\ coliseu.pt \\\ chapito.org \\\ institutonacionaldeartesdocirco.com

 

Sabores eternos

Uma das paragens depois de ter atravessado o rio Tejo foi o Escondidinho de Cacilhas. Enamorado pela história deste espaço, registou que é “onde há 130 anos os pescadores levavam os seus mariscos, pediam vinho e comiam ali na brasa”. Mas foi no Aqui Há Peixe, em Lisboa, que aprendeu a gostar da gastronomia portuguesa, “um dos motivos dessa febre da descoberta de Portugal”.

aquihapeixe.pt

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