Madrid e o elogio do que é realmente antigo

on Jun 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

1.

É preciso voltar ao que é antigo, mas a grande velocidade, dizem alguns. Regressar ao século XIX mas à velocidade do século XXI. Será que é possível regressar ao passado com utensílios tecnológicos contemporâneos? Por exemplo: passar pela cidade de Madrid que existia no século XIX através da realidade virtual?

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2.

O que me agrada nos animais é que eles não se desatualizam. Um cavalo não é nem antigo nem obsoleto. Não há novos cavalos: cavalo 2.0, cavalo 3.0, nem há cão 2.0, da nova geração. Os cavalos, os cães os gatos, todos os animais domésticos e animais da cidade resistem à fúria tecnológica com os seus hábitos antiquíssimos: as patas rápidas de alguns, os dentes simpáticos de um golden retriever, os miados insolentes de um gato pardo ali estão, e continuam, pelas casas e ruas. Exatamente como os seus antepassados há cem anos. Não aperfeiçoaram os movimentos nem as funções, nem a velocidade das funções. São lentos ou velocíssimos exatamente como antigamente eram. Os gatos contemporâneos, por exemplo, apesar dos seus grandes saltos, quase inimagináveis, para apanharem uma pequeníssima mosca, não aprenderam a voar nem a ser dóceis. Continuam autónomos e bem senhores da sua cauda, mas também, apesar de tudo, respeitadores da lei da gravidade como os seus antepassados. Ou seja, se queres verdadeiramente voltar ao passado, olha para os animais que estão à volta. Vê como eles se comportam.

“A Natureza é só uma superfície

Na sua superfície ela é profunda

E tudo contém muito

Se os olhos bem olharem”

Ricardo Reis

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3.

Podemos montar a cavalo em plena Gran Vía e veremos que sim, e como tal é estranho: o animal talvez seja ainda mais eficaz hoje do que há um século atrás. A vingança da lenta elegância do cavalo nas grandes artérias de Madrid, Paris, Lisboa. Chega-se antes e mais em cima; temos um ponto de vista superior.

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4.

O passado natural versus o passado cultural. O passado natural versus o passado construído.

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5.

“As tábuas da casa

cheiravam a bosque,

a selva pura”

Pablo Neruda

Os animais e também os bosques, as pedras. O passado natural, voltar a ele.

Perto de Madrid, na Serra de Guadarrama, no caminho de Barondillo, há algumas árvores que têm, parece, quase dois mil anos. Ir a pé até lá ao passado.

O que ensina uma árvore tão antiga que não fala, que não consegue proferir aforismos decisivos de sabedoria, que não se mexe – e que não pode por isso nem sequer mostrar, como em algumas histórias budistas, a verdade e a iluminação através de movimentos ou gestos.

Por que razão então visitá-la?

O que ensina, afinal, o raio da árvore com dois mil anos?

Que é preciso resistir. Simplesmente isso.

Assim, quando estiveres deprimido, meu caro, quando te parecer que vida faz pouco sentido; ou quando te estiverem a bombardear física ou psicologicamente, quando te sentires só ou mesmo abandonado, quando as expectativas estiverem bem abaixo dos limites mínimos que fazem um ser humano levantar-se de manhã com alegria, quando estiveres num destes estados menos fortes, pega na mochila, sobe junto ao caminho de Barondillo, alcança a árvore com dois milénios, senta-te aí ao pé da árvore que já passou por demasiadas tempestades e excessivas secas, e faz um piquenique. Come ao lado dos antigos. É preciso resistir meu caro, com alegria, se possível; e com esforço, se necessário. É preciso resistir.

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6.

Um poeta israelita, Eli Eliahu, fala dos almoços de família no Sabbath. Escreve: “Não há mais amor aqui que em outras partes.” Fala da passagem do tempo e desse hábito de comer em família; de como as mesmas conversas, ao longo dos anos, se tornam mais pesadas ou agressivas ou afiadas, oscilações breves da família em redor de uma mesa ao longo de décadas. E termina o poema – a que chama “a comida” – com estes dois versos:

“Os meninos sentam-se

nas cadeiras dos mortos.”

Penso: como se os bisavós, pelo facto de terem chegado bem primeiro à Terra, bem antes dos seus bisnetos, tivessem como função, entre muitas outras coisas, preparar as cadeiras onde os meninos das gerações seguintes se vão sentar. As cadeiras dos mortos não são pesadas, nem tristes; são sítios de aprendizagem. Em vez de cadeiras neutras, sem biografia, industriais, brancas, burras e parvas, cadeiras funcionais como máquinas que aprendem a posição que faz os corpos descansarem – em vez das cadeiras bem-comportadas das escolas que passam por vários alunos mais ou menos da mesma idade, elogiar estas cadeiras que não se deitam fora e que vêm de longe, isto é: de tempos já passados. Dizermos a alguém:

– Por favor, senta-se na cadeira que era do teu bisavô

não é apenas um convite mecânico; não é um convite a um movimento, é um convite a uma memória. Não te esqueças que não foste o primeiro a sentar-se nesta cadeira, não te esqueças. A importância da memória; quais os hábitos da cidade de há um século, quais os hábitos do teu tetravô.

 

por Gonçalo M. Tavares

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