Para o surfista Tiago “Saca” Pires, rapaz habituado a destinos exóticos e a ondas de luxo, a Madeira é uma escala obrigatória. Seja para treinar o seu surf, para se divertir, para passear ou apenas para ficar de papo para o ar. É para lá que vamos.
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“Aquela ilha é mágica”, disse-me o meu amigo e surfista João Capucho, “aquela ilha podia ser a Ibiza de Portugal, mas em versão muito melhorada. Tem o sol e o calor. Tem as praias, as piscinas, os hotéis de luxo e as discotecas. E depois tem muito mais do que isso. Tem as levadas. Tem os jardins botânicos com árvores de nomes escanifobéticos que vieram das Américas, da Austrália e da Ásia. Tem ondas de classe mundial enquadradas em cenários que lembram os do Havai e do Taiti. E tem cascatas para fazer canoyning e trilhos fantásticos para bicicletas todo-o-terreno. E come-se muito bem. E bebe-se ainda melhor”. E isto. E aquilo. E aqueloutro… João fala da Madeira com um entusiasmo tal que me contagiou, qual estirpe maluca de gripe. O remédio era voltar à ilha para reconfirmar todas estas maravilhas, mas para isso precisava da companhia certa. Peguei no telefone, disquei o número e fiz figas e para que me atendessem do outro lado. “Estou, Tiago… Vamos à Madeira?”. “Siga!”, respondeu-me sem hesitar.
Arrepiar caminho
O ADN de Tiago “Saca” Pires, que neste momento está sentado no avião com destino ao Funchal, é bem capaz de ter umas quantas moléculas em comum com o código genético de Fernão de Magalhães. Ambos tiveram fome de mundo e, contra tudo e contra todos, fizeram-se ao mar para dar vida aos seus sonhos. Fernão de Magalhães quis provar por via empírica que o mundo era, efetivamente, redondo. Saca quis mostrar ao mundo – redondo, como o provou Fernão de Magalhães – que havia vaga para um português no WCT (World Championship Tour) da Associação Profissional de Surfistas, a primeira liga do surf mundial, onde só têm lugar cativo os 34 melhores surfistas do planeta. Fernão de Magalhães fez história em 1519. Tiago, 489 anos mais tarde.
Desde que, em 2008, chegou à elite do surf mundial, Tiago viu cada ano de trabalho transformar-se numa espécie de viagem de circum-navegação. Ora vejamos: começa o ano competitivo em março, na Austrália. Volta a casa para matar saudades e atravessa o Atlântico para o Brasil. Nova escala na pátria mãe, um pulo a uma cidade europeia para desanuviar de tanta praia e depois volta à luta: Pacífico Sul, Fiji e Taiti. Daí para a África do Sul e, pouco depois, ei-lo na Califórnia. Nova viagem, nova corrida; em setembro começa a perna europeia do circuito de surf. Primeiro França, Hossegor. A seguir Peniche, Portugal. E então, já a chegar a dezembro, ala para o Pacífico, desta vez para o norte, para o Havai, onde se fecha o ciclo de mais um ano de trabalho. Ufa! Foi preciso sorte para o apanhar em casa. Já para o convencer a voar até à Madeira nem por isso.
Aproximamo-nos da ilha: imponente, verde e majestosa. Iluminada pelo sol poente é ainda mais linda vista assim, do céu. Deslindamos-lhe as curvas desenhadas sem compasso, os picos tão altos que rasgam as nuvens, o verde exuberante da laurissilva, floresta húmida subtropical que tem o selo de património natural da humanidade. E, enquanto damos a curva da praxe para apontar o nariz do avião à pista de aterragem, Tiago diz que a primeira vez que andou de avião na vida, fez esta mesma curva. Na altura tinha oito ou nove anos e desde aí a Madeira transformou-se no seu porto de abrigo por vários motivos. Uns de ordem afetiva, outros de ordem profissional, e outros ainda do foro gastronómico. “Poucas coisas na vida batem uma boa surfada no Jardim do Mar seguida de um prego de peixe-espada em bolo do caco na companhia dos meus amigos aqui da terra”, diz ele.
O oeste, no paraíso
No preciso local onde a costa sul da ilha faz esquina com a costa norte, há uma onda a que chamam a Ponta do Pargo, por ser também esse o nome da vila próxima. Para lá chegar, das duas, uma: ou se desce até à beira do mar por uma escarpa tão alta e tão a pique que, mesmo quem a quem vê debaixo para cima, “pia fininho”, ou se vem de barco. Saca veio de barco, com Dinarte Sousa e os seus fiéis escudeiros da H2O Madeira, empresa especialista em atividades de aventura feitas por medida.
Estava Tiago a esfregar as mãos de contente porque, enfim, ia surfar a onda de que já tinha ouvido dizer maravilhas, quando a maré nos prega uma rasteira. Chegamos na preia-mar e a onda foi-se com a maré baixa. Nada que não se resolva, parece pensar Tiago enquanto olha intrigado para uma onda que se ergue mesmo ali ao lado, defronte para a falésia. “Aquela é melhor não”, diz Dinarte antevendo o que vai na cabeça de Saca, “aquela onda é perigosa, é muito rasa e tem muito calhau. Se quiseres, podemos seguir caminho e surfar na costa norte”. Tiago desdramatiza: “já que aqui estamos, vou lá ver como é”.
Wax [cera] na prancha, fato térmico, umas poses para a máquina fotográfica e lá vai ele. Rema, rema, rema… até se transformar num pequeno ponto que flutua no Atlântico. No barco, que se mantém à distância, estamos todos de pescoços esticados à espera de o ver na primeira onda. E eis que surge o surfista numa vaga que faz dois dele. Engata a primeira e desfere uma data de rasgadas no lip [a crista da onda] que levantam água quase até à estratosfera.
A sessão não foi longa, mas foi o suficiente para deixar Tiago com um apetite de leão. No regresso à base, antes do merecido descanso e do almoço do guerreiro no Il Basílico, passamos pelas suas ondas favoritas: Jardim e Paul do Mar, que já proporcionaram ao campeão algumas das surfadas mais memoráveis da sua vida.
Levadas da breca
O tempo glorioso da manhã, pôs-se farrusco. Por isso não nos resta grande alternativa senão traçar novos planos para a tarde que era suposto passarmos a fazer uma levada, os trilhos pedestres que seguem os antigos canais de irrigação e que são um hobby que agrada a gente dos oito aos 80. Em vez disso, metemo-nos no carro e vamos até São Vicente.
Há várias coisas boas nesta terra da costa norte. Uma é a vista sobre o vale que desagua no mar, outra é a praia e outra é o Centro de Vulcanismo, onde se aprende tudo e mais um par de botas sobre a génese do arquipélago. A saber: o arquipélago é formado por oito ilhas (Madeira, Porto Santo, as Desertas, que são três, e as Selvagens, outras três), está situado na placa africana num extremo da cadeia montanhosa submarina Tore e é de natureza vulcânica. A génese deste grupo de ilhas aconteceu debaixo de água durante a criação do Atlântico Norte, em pleno Cretácico, há 130 milhões de anos. Só mais tarde é que as ilhas emergiram do Atlântico. Primeiro o Porto Santo, depois a Madeira, que despontou há coisa de cinco milhões de anos. Nunca é demais lembrar que a Madeira faz parte da Macaronésia, região biogeográfica que engloba também os arquipélagos dos Açores, de Cabo Verde e das Canárias. Sabia que o vocábulo “Macaronésia” vem das aglutinação das palavras gregas makáron, que significa feliz, afortunado, e nesoi, que quer dizer ilhas, e que foi o termo escolhido pelos antigos geógrafos para designar as “ilhas afortunadas” a oeste de Gibraltar? Nós não.
Bem, basta de história e geografia. Voltemos à estrada! De São Vicente a Porto Moniz, é Tiago quem assume o papel de cicerone. Para trás ficaram as Galinhas (Fajã da Areia) e passamos pelas Bruxas (Contreiras), e pela Madona (Ribeira das Janelas). “São ondas batizadas pelo meu amigo e mentor José Seabra, que foi um dos primeiros a desbravar este lugar e a levar para o continente a informação preciosa de que havia ondas fantásticas na Madeira. A partir daí nenhum guia sobre surf em Portugal pode excluir este paraíso.” Apeamo-nos num miradouro para fotografar o que parece um cenário do Parque Jurássico e, no Porto Moniz, para ver as piscinas naturais esculpidas na rocha pelo mar.
Mais tarde, sentamo-nos à mesa do Il Galo d’Oro, o único restaurante da Madeira com uma estrela Michelin. Uma sugestão de Tiago que o nosso palato muito agradece. Depois, vamos até à parte velha do Funchal, o centro nevrálgico da noite. As ruelas e bares estão à pinha. Brindamos com duas das três bebidas oficias da ilha: a poncha (uma mistura de aguardente de cana-de-açúcar, mel e sumo de limão) e Coral (a cerveja oficial da ilha). Só ficou a faltar o afamadíssimo vinho da Madeira, para fazer o hat-trick. Para que conste: foi por muito pouco que não acabámos a noite a dançar no Molhe. Os ossos pediam cama e as do Meliã Madeira Mare – outra sugestão do Tiago – são do melhor, para o corpo e para a alma.
Essa linda brincadeira
Subimos até ao Monte no teleférico do Funchal. Cá de cima, das alturas, a cidade que o homem moldou à medida dos seus sonhos mostra-se celestial aninhada na baía à beira-mar. Não é preciso dar grandes voltas à cabeça para perceber porque é que desde o século XVIII gente de todos os cantos do globo, de todas as idades e de todos os quadrantes da vida social escolheram o Funchal para passar férias. Se Sissi e Bernard Shaw preferiam o dolce fare niente, já Winston Churcill alinhava no lado boémio da cidade e passeava-se num Rolls Royce com a bagageira adaptada a bar.
Para compensar o passeio na levada que ontem ficou em águas de bacalhau, vamos até ao Tropical Monte Palace, um jardim-museu com árvores e peças de arte provenientes das sete partidas do mundo. Aqui está fresco e cheira bem. Demoramo-nos a tentar pronunciar o nome científico das plantas que têm cores tão vivas que ferem os olhos e a apreciar os pagodes, estatuária africana e azulejos portugueses que partilham os mesmos metros quadrados. Saindo do jardim, damos com uma horda de homens vestidos de branco e com chapéus de palha. São os carreiros, os homens que conduzem os famosos carros de vime assentes sobre patins de madeira pelo Caminho do Comboio abaixo, num percurso de dois quilómetros onde chegam a atingir os 50 quilómetros/hora. É hora de batizar Tiago, que por mero acaso nunca fez o caminho.
Em poucos minutos, depois da descida castiça que tem o seu je ne sais quoi de radical, eis-nos de volta ao centro do Funchal. Passamos pelo exuberante Mercado dos Lavradores e atalhamos pela Rua de Santa Maria, a principal da parte velha da cidade, que, depois de alguns anos de abandono, está de volta, mais vistosa do que nunca. Muito graças ao Portas Pintadas, projeto de arte pública que quer transformar esta área numa galeria de arte permanente. Para isso vários artistas convidados usaram cerca de 200 portas como telas.
É no meio desta galeria ao ar livre que paramos para almoçar. O Gavião Novo tem fama de ser um dos melhores restaurantes do Funchal. O que pedir? Um rodízio de peixes grelhados e umas lapas, pois claro! E depois? Bem, depois podemos subir o Pico do Areeiro, ou nadar com golfinhos. Mais tarde até podemos assistir ao pôr-do-sol na Ponta do Sol e jantar uma das famosas espetadas madeirenses. Noutra altura, quem sabe, faremos uma incursão às Desertas e às Selvagens, onde Jacques Cousteau disse ter mergulhado na água mais límpida do mundo.
Posto este debitar frenético de informação, dou-me conta que o entusiasmo que o João Capucho me pegou é mais grave do que se previa. Tiago ri-se. Ele bem sabe o que a casa gasta.
por Maria Ana Ventura
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