Luísa Sobral – A flor que canta

on Mar 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

As canções de Luísa Sobral têm feito história. Há dois anos compôs o tema vencedor do Festival da Eurovisão e o mundo ficou a conhecê-la. Inspirado nos Açores, Rosa, o mais recente álbum, é uma homenagem à filha.

À hora marcada, no local de encontro, ouvia-se uma das canções mais reconhecíveis de Luísa Sobral, “Xico”, que pertence a The Cherry On My Cake, o seu primeiro álbum. Parece que adivinhavam a vinda da artista, mas, segundo alguém do café situado no Chiado, em Lisboa, foi uma mera coincidência. Já lá vão oito anos desde a estreia em disco. “O tempo passa rápido quando uma pessoa se está a divertir”, diz a compositora e cantora. No entanto, neste espaço temporal, os interesses e os estilos de Luísa foram mudando. Em Rosa, a quinta obra da sua discografia, semeou 11 canções e novas histórias para contar. É um disco em que se assume, pela primeira vez, na totalidade, na língua-mãe (sem contarmos aquele que escreveu para crianças, Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa). E acompanhada por instrumentos de sopro e arranjos mais simples. Além do inglês que integrava o repertório no passado, afastou-se das influências do jazz aliadas à pop. “Os meus discos são sempre um reflexo do que eu estou a ouvir na altura.” Na banda sonora do carro estão os últimos registos de António Zambujo e de Márcia, que considera os seus artistas portugueses preferidos do momento. “Estou tão apaixonada pela poesia e pela língua que quero criar mais com ela. Cada vez que ouço coisas que me inspiram só tenho mais vontade de escrever. Estou a passar por uma fase muito assim, por isso foi o que aconteceu”, explica a mesma Luísa que em maio de 2017 chegava ao aeroporto de Lisboa, vinda de Kiev, onde um mar de gente emocionada esperava por ela e pelo ir – mão, Salvador Sobral, algumas horas depois de terem ganho o Festival da Eurovisão. O primeiro que Portugal venceu, com a canção “Amar Pelos Dois”, escrita por ela e interpretada por ele. Luísa, que “nem fazia ideia de que iam estar lá pessoas”, recorda que “foi maravilhoso, mas ao mesmo tempo tão intenso”. “Eu já estava com as emoções todas à flor da pele. Comecei logo a chorar.” Nesta ocasião marcante sentiu que “a música também move as pessoas daquela forma”.

 

Compor pelos dois

A consagração deste sucesso planetário acentuou o talento de Luísa enquanto escritora de canções. Os pedidos para compor cresceram e, atualmente, divide o trabalho entre a construção da sua música e a de outros artistas, como o citado Zambujo, a fadista Ana Moura ou a cabo-verdiana Mayra Andrade. “Acho que, de repente, repararam mais em mim como compositora. Isso é maravilhoso porque uma das coisas que mais gosto de fazer é escrever para outras pessoas. E se puder viver das duas coisas, sou feliz.” Atrai-a a transformação dos temas na pele do intérprete, como aquele que fez para o também português Darko, cuja pop romântica se distancia do estilo dela: “No outro dia ele mandou-me [a gravação] e eu pensei ‘que engraçado, a canção já nem parece minha’”.

Luísa ainda se lembra da primeira que escreveu. Era em português e à guitarra, instrumento que aprendeu aos 12 anos e com que continua. “Assim que ganhei os calos [nos dedos] comecei logo a compor. Era como se, para mim, não fosse suficiente tocar canções de outras pessoas. Eu tinha vontade de dizer algumas coisas. Foi muito natural.”

Na mesma escola onde estudou guitarra clássica, no Musicentro dos Salesianos de Lisboa, dá, atualmente, aulas de composição a universitários e a adolescentes. Procura transmitir-lhes que “as pequenas coisas da vida” são essenciais para chegar ao coração das pessoas. Fazer uma canção com um acorde, uma sobre o nosso oposto e outra em parceria foram alguns dos desafios que já lançou aos alunos. “É como a escrita criativa, te – mos que ter quem puxe por nós.”

Em casa, a insistência do pai de Luísa foi funda – mental para que ela prestasse atenção às letras e olhasse além da música: “Ele dava-nos muitas histórias por de – trás das canções e isso é que me fascinou”. Em “Não Sei Ser”, do novo álbum, escrito durante a gravidez da filha Rosa, fala sobre a sua voz. Tem nódulos nas cordas vocais desde que engravidou. “Estava sempre rouca e triste com isso porque não conseguia cantar.” No entanto, deixou em aberto a interpretação. “Quantas pessoas é que se identificam com o facto de ter nódulos nas cordas vocais?”, atira. Nesse tema brinca “com o ar todo da voz, que é como ela está”. Exemplifica com os “ah ah ahhhhs” que agora ecoam na sala onde conversamos e que, em Rosa, contracenam com os sopros leves mas intensos da canção, depois de ouvirmos a frase “Já só com sopro canto”. Aliás, decidiu gravar o disco mesmo assim, sem estar curada.

Há muitas emoções espalhadas pelo último trabalho da cantora, que se formou no prestigiado Berklee College of Music, em Boston, nos EUA. Para intensificar esse efeito contou com a colaboração do catalão Raül Refree, que é produtor da espanhola Sílvia Pérez Cruz, de quem Luísa assistiu a um dos concertos mais impressionantes da sua vida, em Lisboa. Depois de ter trabalhado com diferentes produtores em cada um dos álbuns, revela que, pela primeira vez, sentiu com Refree a vontade de repetir a experiência. “Foi mesmo fácil a nossa ligação musical e era muito raro discordarmos”, elucida ela, que também é bastante ativa na produção dos seus discos. Para a guiar escolheu alguém que trabalhasse bem o silêncio e que deixasse a canção, a letra e a voz brilharem, “quase como se a pessoa estivesse em minha casa e eu a cantar para ela”.

As novas composições também trouxeram uma ligação ainda mais próxima com o público. Desde que foi mãe, confessa que aprendeu a desbloquear o lado emocional. E agora os seus espetáculos são vividos com uma maior intensidade, entre ela e a plateia. “Acho que este [novo] disco pode chegar a toda a gente. Tanto pela língua portuguesa como por aquilo que estou a sentir, é muito mais imediato.” Mas isso não acontece só em Portugal. Lá fora também se emocionam sempre mais com os temas no idioma de Luísa. “Estive um tempo a pensar no que isso significa, porque as pessoas não percebem o que estou a dizer. Houve uma senhora, num workshop que dei sobre composição em Israel, que me disse que ela sente que eu sinto mais as canções em português. Então, que a partir do momento em que eu sinto mais, ela também sente mais.”

 

O mundo a seus pés

A reação de diferentes países à música da compositora sempre foi uma boa razão para viajar. E o seu maior sonho é conhecer o Japão e partir lá numa digressão (Rosa foi também editado no mercado japonês). Porém, já coleciona vários momentos inesquecíveis além-fronteiras. Uma cantora de quem não quis dizer o nome avisou Luísa de que o público marroquino não pede encores. Mas no festival Jazz au Chellah, em Rabat, sem nada preparado para o momento, surpreendeu-se: “Na última canção ensinei-lhes uma frase, enquanto nós íamos improvisando por cima. No final não se calavam para voltarmos!”, conta, entusiasmada. “Para os músicos que tocaram comigo, esse foi um concerto mesmo memorável!” Sabe também que se irá lembrar do continente africano até ao fim da vida. Atuou no Botswana, “no meio do nada”, e na Namíbia, “um dos países mais maravilhosos para viver”, onde ainda hoje tem o sonho de passar uma temporada com a família.

Luísa Sobral, que cantou ainda no mítico programa de televisão da BBC Later… with Jools Holland, sempre soube que o seu futuro iria passar pelo palco. “Mesmo que fosse em teatro”, outra das suas paixões. “Eu gosto da coisa em que não pode haver um ‘corta’ [como no cinema].” Este ano estão passagens programadas por Espanha, Itália, Polónia e Letónia. Desta vez a artista e os quatro músicos cabem todos num carro. Sem bateria nem contrabaixo, substituídos por metais (bem mais pequenos). Na estrada ou a compor, é assim que cultiva a carreira. E, como ela diz, “quando a inspiração vier, vai encontrar-me a trabalhar”.

luisasobral.com

 

por Manuel Simões /// foto Rita Carmo

Arquivos

Sopros do coração

Rosa, editado no final de 2018, é o sucessor de Luísa. Escrito durante a gravidez da cantora (daí a dedicatória no título, nome de sua filha), tem como um dos pontos altos a canção “Maria do Mar”, cuja inspiração veio dos Açores. Em março Luísa Sobral subirá aos palcos de Castelo Branco (dia 9), Ílhavo (dia 15) e Caldas da Rainha (dia 23). A digressão do novo álbum continua com cinco datas em Espanha, no mês seguinte.

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