Luís Filipe Gaspar

on Aug 1, 2011 in Partida | 32 Comments

Aos dezasseis anos, Luís Filipe Gaspar decidiu que ia jogar à apanhada com o mundo. Eis a história, as peripécias, as loucuras, as manias e as dicas de uma das pessoas mais viajadas do planeta.

A vontade de conhecer o mundo desde cedo perturbou o espírito de Luís Filipe Gaspar, alfacinha de gema, arquitecto de profissão e viajante de corpo e alma. “Fiz as minhas primeiras viagens na companhia dos meus pais. Íamos de carro até Espanha e França e foi assim que senti o gosto à itinerância. Mais tarde, com dezasseis anos, decidi fazer o primeiro Interail com um amigo. Vendi livros e gelados na Feira Popular de Lisboa, fiz um pé-de-meia, o meu pai emprestou-me mais uns trocos e parti à aventura.” Ao fim de 24 horas de viagem, chegou a Paris. De mochila às costas, andou de porta em porta à procura dos albergues da juventude que tinha reservado com antecedência. Uns estavam fechados, outros não tinham camas. Resultado: passou a noite na Gare d’Austerlitz e prometeu a si mesmo que nunca mais se daria ao trabalho de marcar hotéis – coisa que ainda hoje cumpre religiosamente.

Depois do périplo, que o levou a dez países europeus, voltou a casa e pôs-se a fazer contas à vida. Numa equação algo suis generis (especialmente para um rapaz de 16 anos), Luís calculou o número de anos que iria viver, a quantidade de férias que teria ao longo da vida e os lugares do mundo que gostava de conhecer. Quando viu o resultado percebeu que “já estava com atraso considerável”. Por isso, daí em diante a sua missão foi “correr atrás do prejuízo”.

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Livre-trânsito
Luís é actualmente a 48ª pessoa mais viajada do planeta, segundo o site Most Traveled People (MTP). De um total de 872 lugares listados – que incluem estados, províncias, regiões, arquipélagos e enclaves –, já picou o ponto em 487 e esteve em 133 dos 192 países reconhecidos pela ONU. A bússola que norteia as romarias deste viajante é o Património da Humanidade da UNESCO e, também nesse campo, está muito bem classificado: com 331 patrimónios visitados, o português ocupa a 30ª posição num ranking mundial. Mas nem por isso Luís descansa. “Ainda tenho muito que andar!”

A sua filosofia de viagem é muito simples: “espremer os lugares”. Por isso, criou várias regras que lhe simplificam a vida. Uma é não passar o primeiro dia no local de chegada, “ganho mais se o deixar para o regresso”. Outra é não viajar com bagagem de porão, para não a perder e para não se sujeitar a que lhe ponham (ou tirem) nada lá de dentro. No que toca a hotéis, procura-os quando pode. Se houver cama, muito bem, senão “há o carro, uma gare ou um banco de jardim onde pernoitar”. Como homem prevenido vale por dois, Luís leva um programa bem delineado do que quer ver e fazer, mas deixa sempre um ou dois dias de reserva para imprevistos, sejam contratempos ou novas oportunidades para enriquecer a jornada. “Certa vez, no regresso de uma viagem à Bolívia o avião atrasou-se seis horas. Aproveitei o tempo morto, chamei um táxi e pedi ao motorista que me levasse a uma missão de jesuítas que ficava no meio da selva. Quando cheguei ao lugarejo, estava escuro como breu. No meio do negrume sobressaía a luz das velas que iluminavam uma magnífica igreja em madeira onde se celebrava a missa pascal. Nunca mais me hei-de esquecer daquele lugar, daquelas pessoas e daqueles cânticos que apareceram por acaso numa viagem que supostamente já terminara.”

Outra das suas regras de ouro é não levar ideias feitas na bagagem. “É um erro crasso e já tive várias oportunidades de o comprovar. O Irão, por exemplo, ao contrário do que se possa pensar, é um país fascinante com gente super afável e onde é fácil viajar.” Talvez por isso, Luís desdramatiza a viagem que está prestes a iniciar neste mês de Agosto e que tem por destino a Coreia do Norte. “Vou com dois amigos que também estão inscritos no MTP. É daquelas viagens que têm de ser preparadas como se fossem uma expedição à Antárctida, porque há muita coisa que não está nas nossas mãos.”

Ao contrário de muitos trota-mundos, que gostam de viajar a solo, Luís prefere fazê-lo acompanhado, “de amigos, da namorada ou dos meus pais, que me contagiaram com o bichinho das viagens e a quem eu gosto de retribuir o que eles me proporcionaram quando eu era mais novo. Já fomos juntos ao Alasca, à Síria, ao Havai, a Israel, à Argentina… são companheiros de estrada excepcionais!”.

Planisfério Pessoal
De todos os países que pisou, não consegue escolher o número um, “porque é impossível equiparar lugares e culturas. Não se pode comparar Nova Deli a Nova Iorque”. Há lugares que lhe dão mais, outros que lhe dão menos e pronto! A Índia deu-lhe imenso, já a China deu menos do que esperava.

O que nunca o deixa desiludido é o património da UNESCO, tanto o natural como o cultural. No que toca aos prodígios da natureza, Luís põe num pedestal o glaciar Perito Moreno, um dos últimos glaciares vivos do planeta, que ocupa parte da Patagónia Argentina. No que à herança cultural diz respeito, confessa ter um fraquinho por templos (talvez seja defeito de profissão). “Fiquei muito impressionado com os templos de Angkor, no Camboja, que são de um rigor arquitectónico e urbanístico notável, e com as pirâmides de Gizé e o templo de Luxor, no Egipto. Por mais voltas que dê à cabeça, não entendo como naquele tempo se conseguiu trabalhar e transportar o granito.”

“A viagem”, garante, “enriquece-nos sempre. Eu, por exemplo, não tinha grande fascínio por desertos e hoje em dia sou apaixonado”. Os lugares crescem dentro dele e Luís faz por tirar o máximo partido deles correndo-os de fio a pavio. Assim se explica que o facto de ter estado três vezes em Banguecoque não quer dizer que tenha estado na Tailândia, porque não viu a verdadeira alma do país que não mora na capital, mas em cada uma das suas províncias.

O arquitecto, que vive e trabalha em São Paulo, no Brasil, há oito anos – e já viveu em Itália, no Egipto, em Moçambique e na Tunísia – diz que há quatro lugares onde gostaria de assentar arraiais. “A Nova Zelândia e a Austrália pelo estilo de vida descontraído, pelas oportunidades, pelas pessoas e pela liberdade que é percorrê-los com uma mochila às costas. O Havai, porque é uma ilha paradisíaca onde temos acesso a tudo aquilo de que precisamos para viver confortavelmente e porque aquela conversa do amor e uma cabana só funciona durante meia dúzia de meses. E o Canadá, porque é uma espécie de Austrália do hemisfério Norte”.

Taras e manias
Cada louco, sua tara e Luís tem uma colecção delas. “Tenho um fascínio por comboios. Corto o cabelo duas vezes por ano em sítios que não lembram ao diabo. Tenho sempre mais do que uma viagem alinhavada. Só uso guias antigos do Lonely Planet. Posso não decorar nomes, nem caras, mas tenho o dom de me lembrar, com impressionante minúcia, de um lugar onde comi algures onde Judas perdeu as botas em 1900 e troca o passo”.

Activo, dinâmico e com um espirito de aventura como poucos, Luís polvilha as suas jornadas de experiências pouco (ou nada!) recomendáveis a cardíacos. Já escalou o Monte Branco com o maior alpinista português e bom amigo, João Garcia, faz sky dive, ski e já mergulhou com tubarões. “Mas um dos melhores mergulhos que fiz foi na Barragem de Vilarinho das Furnas, no Gerês. Pairamos sobre uma vila submersa como um anjo de Wim Wenders, é espectacular.”

Outra das suas paixões ou manias é a fotografia. “É uma forma de registar lugares, momentos e coisas que quero perpetuar na minha memória e partilhar com aqueles que se consideram cúmplices nestas minhas aventuras. São pedaços que ilustram a minha interminável peregrinação por este pequeno ponto no universo a que chamamos casa.”

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por Maria Ana Ventura

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Arquivos

Empreender viagens

— Orador assíduo em palestras sobre empreendedorismo, Luís faz um paralelismo resumido entre a viagem e o funcionamento de uma empresa. “Por muito preparados que estejamos para enfrentar problemas, haverá sempre novos imprevistos com que teremos que lidar. É provável que se gaste mais dinheiro do que inicialmente pensámos e é fundamental ter soluções rápidas à mão para fazer frente aos percalços. É preciso ter em mente que, tal como não se podem comparar países e culturas, não há dois clientes iguais.” —

E mais além

— Porque nem todas as páginas desta revista seriam suficientes para contar as histórias de viagem deste homem, sugerimos-lhe, caro leitor, que deite o olho ao site pessoal de Luís, onde encontrará vários artigos, fotografias, vídeos e dicas de viagem. Daqui em diante, pode seguir o rasto a este homem através desta janela virtual. Com 59 países em falta para cumprir o seu objectivo pessoal de conhecer todo o mundo, Luís ainda tem muitas crónicas para escrever. www.luisfilipegaspar.com —

Malas de Cartão

— Ao longo de 465 dias – entre Janeiro de 2008 e Março de 2009 – Patrícia Gameiro de Brito, actual editora da UP, deixou “que o mundo lhe desse a volta a ela.” A concretização de um sonho antigo levou esta jornalista a palmilhar o planeta de mochila às costas em busca dos vestígios da diáspora portuguesa nos últimos 500 anos. Embora não querendo fazer “um enaltecimento bacoco da pátria”, como justifica na introdução do livro, voltou com a certeza de que o bilhete de identidade português foi sempre “uma vantagem nas trocas com os povos”. No livro Malas de Cartão foram arrumadas as crónicas publicadas na revista Domingo, do jornal Correio da Manhã, durante 14 meses. Um testemunho na primeira pessoa onde é fácil sentir, quer a hospitalidade com que foi recebida, quer os sentimentos, os cheiros e as cores que lhe trespassaram a alma aventureira. €15 —

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