Lisboa, Queluz, Sintra – Rainha por dois dias

on Sep 3, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

A escritora Isabel Stilwell guia-nos pelos belos palácios da monarca portuguesa D. Maria II. Imaginamos os enredos do seu livro Tudo por um Reino. Episódios de uma vida curta, mas cheia, no incrível século XIX.

À porta da capela fechada do Convento de Nossa Senhora das Necessidades admiramos a nobreza que permanece com vista para o Tejo e uma nova Lisboa, as árvores em flor. Nem por acaso, os perfumados jacarandás do Brasil, onde o rei D. João V foi buscar inspiração para construir este palácio. Foi uma ermida que sobreviveu ao Terramoto de 1755, por isso ganhou uma aura mística, e depois foi um convento oratoriano onde D. Maria II batizou a sua larga prole. No Palácio das Necessidades, que hoje alberga o Ministério dos Negócios Estrangeiros, D. Maria fez a sua casa e a residência real: “A Lapa era a zona dos embaixadores e ficava longe de Lisboa, que era uma cidade pouco salubre, o centro era o Castelo de São Jorge e o Terreiro do Paço”, diz a escritora e jornalista Isabel Stilwell, com a leveza do seu vestido claro. A vida da jovem rainha – vertida em D. Maria II – Tudo por um reino, o romance biográfico de Stilwell – vai acontecer muito aqui, da sua chegada com apenas 14 anos, à celebração dos 18, a 4 de abril de 1837, “uma festa enorme e iluminada por tochas”, ao nascimento dos seus 11 filhos (só sete sobreviveram ao parto).

Por ter nascido no Brasil, uma “terra nova”, decora a casa de forma diferente: as paredes cheias e uma mesa redonda, que era novidade – criou a tradição da família sentada à mesa, estranha à corte, até aí as pessoas comiam nos seus aposentos – e trouxe a mobília do Paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, herdada do seu avô, o rei D. João VI, que a encomendara em França para o casamento de seus pais. Depois, D. Fernando, o seu príncipe consorte, tinha muito bom gosto e substituiu azulejos por pinturas trompe de l’oeil, cobriu o chão de madeira exótica, mandou envidraçar as janelas e cria uma magnífica coleção de arte. Aqui existiu a primeira árvore de Natal, um abeto que D. Fernando manda vir da Alemanha em segredo e “na manhã de Natal veste-se de São Nicolau e traz os presentes, os meninos do Paço vestidos de duendes”. Também por ter crescido no Brasil, é uma mãe mais descontraída. Em ilustrações da época ela faz malha no Jardim da Estrela e as crianças brincam à vontade. “O Diário de Notícias da altura interrogou-se se era aceitável uma rainha vir à cidade e não estar vestida ‘de rainha’”, conta Isabel a rir. Mas os dias eram muito organizados e rigorosos, os pequenos tinham um perceptor alemão. “D. Maria ficou conhecida, acima de tudo, por ser uma educadora, norma que condiz com uma mulher, mas gostava muito de mandar.” Tanto quanto adorava ter filhos, mesmo quando os médicos a desaconselharam, devido ao peso das gravidezes sucessivas (e do seu amor por doces), insistiu: “Se morrer, morro no meu posto”. E assim foi, em 1853 sucumbiu ao parto do 11º filho.

D. Maria II, filha de D. Pedro IV (I do Brasil) e de Leopoldina da Áustria, viveu numa época conturbada, entre as Invasões Francesas e a guerra civil, e esteve sempre envolvida politicamente. “Sem a mãe ou o pai para a aconselhar, vê-se sozinha rodeada por políticos com opiniões diferentes, que caíam uns atrás dos outros. Mas, tal como a sua mãe, que era empenhada e teve um papel importante na independência do Brasil, descendia de uma linhagem de mulheres de personalidade forte.” Nas cartas que troca com a amiga rainha Vitória de Inglaterra, entre um pormenor doméstico: “caiu o dente a um dos miúdos”, “obrigada pelo vestido” ou “pelo globo terrestre”, acrescenta: “tira daqui este embaixador”. “Vitória tinha uma educação mais formal e aconselhava-a a não tomar decisões irrefletidas, mas era fácil para uma monarca constitucional falar”.

Neste palácio, a jovem rainha também viveu episódios assustadores, como a noite de 10 de setembro de 1836, quando o povo grita “morte à rainha!”, revoltado com a subida do preço do pão e entra no palácio para a obrigar a ir assinar uma mudança na Constituição, com uma pistola encostada à cabeça. “Existia sempre uma armada inglesa por perto para levá-la, se necessário, mas recusa: ‘Peço uns minutos para me vestir, vão ver uma rainha que não abandona o seu posto’. E usa um vestido preto bordado a encarnado e um diadema no cabelo”, comenta Isabel enquanto subimos o jardim da Tapada, adjacente ao palácio. “Era ciosa do seu papel e muito corajosa”.

 

Jardins reais

Cruzamo-nos com a estufa erguida para D. Estefânia (que casou com o filho mais velho de D. Maria II, D. Pedro V, seu sucessor). “Na altura, dizia-se que este era um dos jardins mais bonitos da Europa”, e apesar de um pouco abandonado ainda alberga plantas de todo o mundo. “Quando o seu irmão se torna imperador do Brasil, D. Maria pede-lhe que envie plantas e papagaios e macaquinhos. Este não era um palácio luxuoso, mas uma casa de campo com jardins espalhafatosamente bonitos.”

Seguimos para Queluz, a uns 13 quilómetros de Lisboa, um salto atrás no tempo, para o palácio de jardins polidamente franceses e salas animadas pelo barroco, rococó e neoclassicismo que atravessam a sua história. Mandado construir sobre um infantado, em 1747, pelo bisavô de D. Maria II (D. Pedro III) para ser uma residência de verão, depressa se torna num espaço privilegiado de lazer da família real e residência oficial, em 1794. Isabel chama-nos à atenção para o azul-céu matizado das suas paredes, reboco feito de cal e vidro cobalto esmaltado moído: “Absorve a humidade, as tristezas e alegrias, é muito bonito.” Visitamo-lo pela ligação emocional de D. Maria a este palácio. Aqui nasceu e viveu até aos nove anos o seu pai D. Pedro, que aqui morreu. Aqui ficou a sua bisavó D. Maria I depois de enlouquecer. Conhecido como ‘o Versailles português’, percorremos as suas faustosas salas e jardins geométricos com a alegria infantil de uma brisa.

D. João VI, avô de D. Maria, com quem esteve no Rio de Janeiro até aos 7 anos, e de quem herda a coroa (o pai Pedro só reinou um mês), fez neste cenário memoráveis festas com espetáculos de água, concertos, jogos e labirintos ao ar livre. Muito bela a sala da música, “onde se tocaram as modinhas vindas do Brasil animadas por anões”.

Na sala do fumo, os retratos de D. Pedro e sua segunda esposa, D. Amélia, “com quem D. Maria não se dá muito bem”. Espantosa a Sala dos Azulejos, policromados e datados de 1784, representando as quatro estações e os quatro continentes onde esteve Portugal, mas também cenas de caça e do quotidiano. Esta faz a ligação entre o velho paço do século XVI e as edificações do século XVIII, como a gloriosa Sala dos Embaixadores, engalanada para receber os reis portugueses e os príncipes do Brasil: “Aqui houve beija-mão à rainha D. Maria II”, lembra Isabel. E o quarto onde nasceu e sucumbiu seu pai, em 1834; num impressionante quadro que retrata esse momento, D. Maria II segura-lhe a mão, caída sobre a colcha.

A partir desta data, o palácio entrou num certo declínio, até porque a família real levara consigo grande parte do seu recheio para o Brasil, em 1807, em fuga da invasão napoleónica de Portugal. Com a morte do pai, D. Maria fora deixada a reinar um país, e um império, ainda adolescente. “Sabe da maldição dos varões da família Bragança?”, pergunta Isabel quando nos apanha de nariz na árvore genealógica. “Os primogénitos morriam todos antes de serem reis. Quer dizer, as mulheres também, mas isso não interessava nada”, ri-se. Quando a família real regressa a Portugal, já nos anos 20 do século XIX, este palácio foi remodelado, mas D. Maria e D. Fernando preferiam as vistas largas das Necessidades e o romantismo de Sintra.

 

Magia e romantismo

Tem os predicados e os superlativos e a raridade que só brilha nas belezas naturais e nos grandes caráteres. Basta observar, no coração de Sintra, o Palácio da Vila, a que os sintrenses chamam “das chaminés”, que é “dos palácios medievais mais genuínos e bem conservados da Europa Ocidental, estão aqui todas as épocas”, diz Isabel Stilwell. D. Maria e D. Fernando passavam aqui os verões em busca da aragem fresca que corre junto à serra, vinda da costa selvagem. “Está tal e qual como no seu tempo, porque entretanto acabara a guerra civil.” Muitos desenhos domésticos de D. Fernando remontam a esses períodos, “ele desenhava nuns caderninhos: D. Maria a dar papa aos filhos, as burricadas na serra, os piqueniques e as idas à praia em Pedrouços (mandou fazer umas braçadeiras em cortiça para os pequenos)”.

Isabel Stilwell mora nas imediações, a sua avó viveu numa casa que vemos da janela do grande salão principal do palácio e comentava com os netos que dantes a Serra de Sintra não tinha árvores, foi D. Fernando que as mandou plantar. O rei-artista não se imiscuía nas decisões de Estado, dedicava-se às suas artes, pintura e desenho, arquitetura e jardins, e notam-se uns tiques da sua Áustria natal. Daquela janela, D. Fernando “olhou para a serra e viu o Castelo dos Mouros arruinado”, e em passeios pela serra descobriu o Convento Jerónimo da Pena abandonado. “Com o seu dinheiro, comprou ambos, reconstruiu o castelo e construiu o Palácio da Pena.”

A Pena, como carinhosamente lhe chamamos, parece uma visão encantada na bruma, “entre os palácios de Coburgo e os da Disney, entre a Alemanha e detalhes portugueses”. D. Fernando constrói este palácio para D. Maria II, era muito apaixonado por ela, mas ela não sobrevive à sua conclusão. “Ela também tinha uma grande paixão por D. Fernando”, acrescenta Isabel, e talvez por ter assistido aos deslizes matrimoniais do pai, era bastante ciumenta. “Há uma carta em que escreveu: ‘Fernando, por favor, não cantes ópera em frente dos soldados!’.” Nos jardins da Pena ainda sobrevivem as plantas exóticas vindas do Brasil que D. Maria pediu ao irmão e no quarto principal demoramo-nos no estuque moldado e pintado que D. Fernando pensou para D. Maria: “A ideia era dar a sensação de um céu estrelado.”

 

por Patrícia Barnabé /// fotos Carlos Pinto

Arquivos

Isabel Stilwell

O pai “transformava a História em histórias”, e foi uma paixão que herdou dele. Jornalista e autora de romances históricos, começou aos 21 anos no Diário de Notícias, dirigiu as revistas Notícias Magazine e Pais e Filhos e o jornal Destak. Tem um programa de rádio na Antena 1, Números sem Espinhas, com Alexandra Almeida Ferreira. Publicou as biografias romanceadas de oito rainhas portuguesas, começando por Filipa de Lencastre, um best seller em 2007. Em 2012 lançou D. Maria II – Tudo por um Reino, que inspira este roteiro e que terá uma versão em inglês (a mesma monarca é também por ela contada aos mais pequenos em A Menina Rainha, com ilustrações de Violeta Cor de Rosa). Para este romance baseou-se em trocas epistolares, “a ficção foi passá-las a diálogos”, e pediu ajuda a historiadores: “A realidade é muito mais interessante, descubro coisas que nunca teria a capacidade de inventar.”

isabelstilwell.com

D. Maria II

Nasceu no Rio de Janeiro em 1819, filha mais velha de D. Pedro IV de Portugal (Pedro I, imperador do Brasil) “de quem herdou o entusiasmo, o prazer do risco e, é preciso dizê-lo, a casmurrice”, diz Isabel Stilwell, e da imperatriz Maria Leopoldina da Áustria “de quem herdou os olhos azuis” e a forte personalidade. Dona Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança foi educada na corte dos avós, em Viena. O pai abdica do trono português e torna-a rainha aos sete anos, com a condição de casar com o tio, D. Miguel, irmão do pai, o que acontece por procuração, em Viena, em 1826. Dois anos depois, este renuncia ao acordo nupcial, faz um levantamento absolutista, toma o trono e inicia-se a guerra civil, que perderá, a favor do irmão liberal. Maria viajava para Viena quando sabe da traição e em Gibraltar é desviada para Londres onde é tratada por “little queen”, tinha nove anos. Conhece a futura rainha Vitória e ficam amigas para a vida, trocando epístolas em francês. Volta a Lisboa aos 14, depois de temporadas no Rio de Janeiro e em Paris, e torna a ser rainha. Em 1834 casa com Augusto de Beauharnais, irmão de Amélia Beauharnais Leuchtenberg, que viria a ser sua madrasta, mas ele sucumbe a uma difteria, três meses depois. Entre vários candidatos, D. Maria casa em Lisboa em 1836 com o príncipe Fernando de Saxe-CoburgGotha. Com ele fica até ao fim, até aos 33 anos.

Viaje com a rainha

Pelos Caminhos de D. Maria II é o roteiro que acompanha o romance biográfico de Isabel Stilwell, cobrindo Portugal, Brasil e Londres. Eis os pontos principais.

Portugal

Em Lisboa, para além do Palácio das Necessidades, vamos da Praça do Comércio, onde D. Maria chegou rainha e adolescente, à Torre de Belém, que o marido D. Fernando mandou recuperar, tal como o Mosteiro dos Jerónimos, e ao Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, inaugurado no seu 27º aniversário. Veja-se igualmente o Palácio de Belém, hoje residência oficial do Presidente da República, onde a rainha D. Maria II passa temporadas. Ao lado, no Museu dos Coches, está a carruagem mandada fazer em Inglaterra para caber toda a família. Fora da cidade, fica o Palácio de Mafra, onde o seu filho mais velho, futuro D. Pedro V, passava horas a ler. Mais a norte, a vila de Óbidos, que fazia parte do dote das rainhas, e ao lado Tomar, que D. Maria II elevou a cidade e onde D. Fernando recuperou o magnífico Convento de Cristo. No Porto, visite-se a Igreja de Nossa Senhora da Lapa, onde está guardado o coração de D. Pedro IV, pai de D. Maria, que assim o pediu em sinal de gratidão pela resistência da cidade aos absolutistas, e a Ponte Pênsil D. Maria II, que atravessava o Douro, marcando o aniversário da sua aclamação, da qual só restam os pilares ao lado da Ponte D. Luís. No Alentejo, os belos Paço e Santuário de Vila Viçosa, e a Quinta da Esperança, onde a família se hospedava, em Cuba, perto de Beja.

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E ainda

Duas exposições imperdíveis sobre a monarca acontecem este ano em Portugal e Brasil para assinalarem o bicentenário do seu nascimento (site oficial da comemoração em dmariaii.pt). Em Lisboa, a 16 de Setembro, inaugura D. Maria II – Uma Rainha dos Trópicos no Palácio Nacional da Ajuda. Em Petrópolis é a 7 de Dezembro, no Museu Imperial (ainda sem título). Se passar pelo Alentejo, não falhe o Paço Ducal de Vila Viçosa, agora com uma visita guiada que chama mais atenção para a rainha.

palacioajuda.gov.pt \\\\\\ museuimperial.museus.gov.br \\\ fcbraganca.pt

Cozinha velha

Sabe bem ter acesso a um restaurante numa sala do Palácio de Queluz – onde também funciona uma das Pousadas de Portugal do Grupo Pestana – para saborear o estaladiço de queijo de cabra, peixinhos da horta ou croquetes, os carabineiros grelhados ou o bacalhau lascado ou ainda o bacalhau espiritual, que consta ter sido inventado aqui. Aconselha-se ainda o linguado suado criado pela cozinheira da condessa de Almeida Araújo, que abriu o espaço em 1947.

Queluz \\\ fb.com/cozinhavelharestaurant / pousadas.pt

Tivoli Palácio de Seteais

Foi pensado no século XVIII para o cônsul holandês Daniel Gildemeester, mas a sua família não gostava do clima de Sintra. Depois de anos ao abandono, viveu aqui o conde de Sucena, mas as suas dívidas obrigaram-no a entregar o palácio ao Estado. Em 1955, o Grupo Tivoli abre-o ao público como hotel e é o lugar mais belo e romântico para dormir na vila de Sintra, para jantar ou almoçar. Se não, experimente o chá com scones quentinhos e torradas, a que não faltam as tigeladas e os travesseiros de Sintra. Aqui os jardins entram pelas janelas e de alguns quartos avistam-se na serra o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena.

Sintra \\\ tivolihotels.com

Maria Voadora

E por falar em rainhas, e Marias: em Julho a TAP baptizou um dos novos Airbus A330neo com o nome D. Maria I, em homenagem à primeira rainha reinante em Portugal – e bisavó de D. Maria II, que já tinha o “seu” avião.

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