Lisboa – O Tejo é o caminho

on May 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

Portugal e Brasil. Bacalhau e bobó. Vinho e caipirinha. O chef José Avillez recebe a chef Kátia Barbosa na capital portuguesa e leva-a pelos seus lugares preferidos.

Rio de Janeiro, 2014. Um então incógnito José Avillez infiltra-se pelos meandros da Zona Norte carioca rumo aos melhores segredos culinários da zona da Praça da Bandeira. Sem pressa, mas com fome, prova uma feijoada, um famoso bolinho de feijoada, partilha uma moqueca. Três anos mais tarde, regressa. Desta vez com a mesa cheia, acompanhado de grandes nomes da cena gastronómica, caso do chef catalão Albert Adrià (irmão do seu ex-chefe no El Bulli, Ferran). Mais bolinhos, mais caipirinhas, mais descobertas. Na altura, é apresentado à responsável pelas maravilhas que saem da cozinha: Kátia Barbosa. Três anos mais e o encontro dá-se agora no palco. Um palco que os levou ao encontro de mais de cem milhões de espectadores. Já amigos, Kátia e José partilham o posto de jurados de um dos reality shows de maior sucesso da Rede Globo no Brasil, o Mestre do Sabor. Prestes a gravar a segunda temporada, a dupla aproveitou o intervalo para selar a amizade e a paixão pela cozinha deste lado do Atlântico. Até 14 de março Kátia traz para as varandas do Bairro do Avillez um pop-up do seu restaurante Aconchego Carioca. Um pouco de verão e outro tanto de Brasil diretamente para o coração do Chiado, centro de Lisboa, em pleno inverno e com direito a clássicos como o bobó de camarão, a casquinha de caranguejo, o baião de dois. Para recebê-la, o anfitrião Avillez guia-a pelos seus cantos preferidos, na “cidade que cruza a história com o contemporâneo, onde eu gosto de passar a maior parte do meu tempo”. Sempre com o rio Tejo de soslaio.

 

Matéria-prima

A praça de alimentação ainda está fechada, mas o bulício da manhã já agita as bancas de legumes, de frutas e de mariscos debaixo das arcadas dos fundos do histórico Mercado da Ribeira, inaugurado em 1882, o nosso ponto de partida. Em frente à banca de Rosa Cunha, recheada de peixes, os cozinheiros desafiam-se na identificação das espécies.

“Caraca, não sei o que é nada naquele canto”, diz a carioquíssima Kátia diante de percebes, navalhas e um sem-fim de conchas. “Avillez, preciso de uma aula!”, brinca. Mais acostumada a robalos, badejos e dourados, os peixes de eleição no preparo da moqueca, uma das suas especialidades, Kátia entretém-se como num parque de diversões. Entre os pratos da culinária portuguesa que mais gosta, cita o arroz de tamboril, o arroz de marisco e o arroz de feijão – que imediatamente associa ao baião de dois. “A cozinha brasileira tem uma influência fantástica e direta da cozinha portuguesa”, diz. “Os temperos e os ingredientes locais é que mudam”, completa Avillez, a citar em contrapartida os seus pratos brasileiros preferidos: carne seca acebolada, camarão na moranga, bobó, feijoada, pastel… E remata: “São ambas cozinhas que têm alma. A boa cozinha tem alma!”.

 

Grandes navegações

Um elétrico dos antigos, à semelhança de como eram nos idos de 1900, transporta-nos por 13 estações do Cais do Sodré a Belém para uma saborosa viagem no tempo. Caminhamos pela Praça do Império, escoltados pela imensa fachada do Mosteiro dos Jerónimos, até chegarmos ao Padrão dos Descobrimentos, onde Avillez se detém na rosa dos ventos esculpida no chão.

“Este monumento assinala as descobertas de Portugal. Foi daqui que navegamos para o mundo inteiro”, diz, a apontar as rotas percorridas pelas caravelas, que não só aproximaram Portugal e o Brasil, como fizeram o mundo todo parecer mais pequeno. “Quando eu pisei em Lisboa pela primeira vez, oito anos atrás, o meu sentimento foi de conexão, de me encontrar de fato com quem eu sou; naquele momento eu entendi de onde eu vinha”, filosofa Kátia. Com a brisa do Tejo a soprar no rosto, percorremos a beira-rio a deixar o passado, aos poucos, abraçar o futuro – primeiro surgem os ângulos retos de Paulo Mendes da Rocha no Museu dos Coches, depois as linhas orgânicas e futuristas da arquiteta inglesa Amanda Leveque no MAAT, até que se escancara a Ponte 25 de Abril logo em frente. As estrofes de Pessoa ecoam, mais pertinentes do que nunca: “pelo Tejo vai-se para o mundo”…

 

Alma lisboeta

A conversa abre o apetite e não demora até enormes travessas do “melhor bacalhau do mundo”, segundo Avillez, pousarem sobre a mesa, com o acompanhamento de grãos e batatas a murro. Na sequência chegam iscas com batatas fritas e um belo tinto do Douro para os brindes. Já estamos do outro lado da cidade, na Mouraria dos versos da Amália Rodrigues, do sobe e desce de ruelas e becos aos pés do Castelo, das muitas faces vindas dos quatro cantos do mundo. O Zé da Mouraria, com as suas poucas mesas cobertas por toalhas de papel, salão diminuto e a grelha sempre a chamuscar, foi a tasca escolhida pelo chef por ser “um dos grandes restaurantes de Lisboa”. Depois do café, ganham-se as calçadas mais antigas da cidade, percorridas com vagar sob varais de roupas coloridas. “Aqui as ruas são tão estreitas que consegue-se dar a mão entre janelas”, diz Avillez. “É fascinante esta proximidade, o conversar entre vizinhos que viram famílias porque são quase casinhas de bonecas, bem próximas umas das outras!” O camião que interrompe o trânsito, a senhora que passa de muletas, os velhos na porta de um café. É tudo estranhamente aconchegante e familiar, até mesmo a cozinheira que vem a correr para uma selfie e um abraço aos chefs da televisão.

O trajeto vai dar à Baixa, e logo o bulício da Praça da Figueira nos toma de assalto. O destino é o Chiado, na colina do outro lado, onde há preciosidades como a loja da Burel – mas não sem antes fazerem um novo brinde. No pequeno balcão d’A Ginjinha, instituição a ocupar o número 8 do Largo de São Domingos desde 1840, Kátia é instruída pelo amigo a pedir o licor “com a fruta”. Bebem à porta, na companhia de alfacinhas e de dezenas de turistas. Os ídolos da TV, a esta altura, já não passam despercebidos. A seguir, a tortuosa Calçada da Glória nos conduz morro acima diretamente ao Miradouro São Pedro de Alcântara, onde os olhos novamente buscam o Tejo. “Esta é a vista preferida da minha mulher [Sofia Ulrich]. Estar aqui quase à altura do castelo, ver o rio, os telhados de Lisboa, com a luz maravilhosa desta cidade, é um momento para apreciar”, diz Avillez. E então o sol se põe majestosamente.

É hora de voltar para a casa – neste caso, o número 18 da Rua Nova da Trindade, logo ali ao lado, morada de ambos por trás das portas pesadas do Bairro do Avillez. Não foi a cozinha portuguesa reinventada da Taberna e nem os peixes e mariscos do Páteo os eleitos do chef para o grand finale do tour. A dupla venceu as discretas portas do fundo, acomodou-se em uma diminuta mesa à beira do palco e preparou-se para o espetáculo com ares de cabaret do Beco. Seguiu-se então, entre copos de espumante e de vinhos, o menu de degustação com pratos ora mais óbvios, como o ceviche com gambas, ora mais divertidos, como a já clássica rosa que esconde fatias de maçã com tequila. “Eu não vejo graça em nada que não dê prazer”, diz Kátia, sempre às gargalhadas. “A vida é muito curta para comer mal!”

bacalhoa.pt \\\ fb.com/visitsetubal.portugal

 

por Rachel Verano /// fotos João Carlos

 

Arquivos

Kátia Barbosa

Da infância pobre, nos arredores da favela do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, Kátia guarda belas memórias gastronómicas. O pai fazia doces para vender na porta dos cinemas e envolvia a família toda na cozinha a produzir cocada, cuscuz e quebra-queixo. Da mãe, recorda-se com especial afeição da maneira como lhe fazia comer feijão: amassado em pequenos bolinhos, oferecidos diretamente na boca. Desta lembrança nasceu a inspiração para o seu maior trunfo: o bolinho de feijoada, que atribuiu grande fama ao seu restaurante Aconchego Carioca. Hoje uma das chefs mais queridas do Brasil, é uma das embaixadoras da tradicional cozinha brasileira, com cinco restaurantes no Rio (produz diariamente quatro mil unidades do incontornável bolinho de feijoada!).

facebook.com/aconchego.carioca

José Avillez

Nascido numa pequena quinta com horta, em Cascais, José Avillez sempre gostou de cozinhar, mas antes de o fazer profissionalmente estudou artes, tencionou ser arquiteto e cursou Comunicação Empresarial. Pelos 20 anos tinha como sonho abrir um pequeno restaurante. Jamais imaginou que hoje comandaria um pequeno império de 19 restaurantes, 18 em Portugal e um no Dubai. A sua primeira estrela Michelin veio antes de partir em voo solo, quando ainda era o chef do restaurante Tavares, em Lisboa, em 2009. Hoje é um dos raros premiados com duas estrelas no país, com o Belcanto. Entre as suas casas de maior sucesso estão o Cantinho do Avillez (Lisboa, Cascais, Porto) e o Bairro do Avillez, onde funcionam três restaurantes (Taberna, Páteo, Beco), também morada do pop-up do Aconchego Carioca.

joseavillez.pt

Loja da Burel

A antiga tradição lanifícia da Serra da Estrela foi recuperada pela marca e as peças à base da lã das ovelhas bordaleiras são hoje confecionadas em teares do século XIX, em uma festa de cores e padrões. As peças vão da moda à decoração.

Rua Serpa Pinto, 15B \\\ burelfactory.com

Museu do Oriente

Instalado em Belém num antigo armazém de bacalhau, tem o seu acervo dedicado à interseção entre o Ocidente e o Oriente através da arte portuguesa e asiática. Destaque para os magníficos biombos.

Avenida Brasília, Doca de Alcântara (Norte) \\\ museudooriente.pt

Zé da Mouraria

A tasca do Virgílio de Oliveira, no coração da Mouraria, é uma ode à comida tradicional portuguesa, servida simples e sem cerimónias. Só abre ao almoço e costuma ter fila à porta. A combinação é imbatível: ingredientes muito bem confecionados, doses fartas e preços baixos.

Rua João do Outeiro, 24-26

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