Leyla Acaroglu

on Jun 1, 2019 in Partida | No Comments

Durante anos, Leyla Acaroglu andou pelo mundo a ensinar a pensar e a salvar o planeta. Até que percebeu que não chegava a teoria, que era preciso levar as mãos à terra. E comprou uma quinta em Portugal.

Não fosse a vida de viajante profissional e provavelmente Leyla Acaroglu nunca teria acabado em Portugal. Foram anos a percorrer o globo, por vezes meia dúzia de países num só mês, horas e horas em aviões, uma vida em aeroportos. Mesmo agora, que tem uma quinta na pacatez ribatejana, a dez quilómetros de Tomar, passa mais de 200 dias por ano em viagem. Falámos em Lisboa com a designer australiana de 36 anos, pouco depois de ter regressado da Tailândia e uma semana antes de partir para Nairóbi.

Leyla foi eleita Campeã da Terra pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente em 2016. Uma agenda já de si preenchida tornou-se, então, quase insustentável, logo para ela que usa sustentabilidade como nome do meio. A distinção da ONU como uma das ambientalistas mais inovadoras do mundo trouxe-lhe inúmeras solicitações para conferências sobre design sustentável, onde desperta consciências para a urgência de salvar o planeta, ensina a gostar de problemas e desmonta mitos como o que diz que usar sacos de plástico é mais prejudicial para o ambiente do que sacos de papel.

As horas passadas em aviões acabam por ser úteis, nem que seja para dormir, mas também trabalha. Diz mesmo que o seu último projeto com a ONU – Anatomia da Ação – foi pensado durante uma viagem entre dois continentes. Ao contrário do que diz a frase feita, para Leyla o destino é mais importante do que a viagem. “Como socióloga vivo fascinada pelas experiências humanas no mundo. Encontrar tantas culturas diferentes enriquece o meu trabalho como fazedora e como educadora, torna- -me mais empática.” O que também pesa é a pegada ecológica de Leyla – não sabe quantos países já visitou, mas fala do Sudoeste Asiático, da Europa, da América do Sul, de muitas cidades nos EUA –, o que tenta compensar seja plantando mais de duas centenas de árvores na quinta portuguesa, tendo uma alimentação vegan, mas também procurando anular os impactos negativos fazendo viagens mais sustentáveis. “Se tiver que ir à Tailândia, por exemplo, passo lá um mês, apanho sempre voos diretos porque o maior consumo é na descolagem e aterragem, ando com a minha garrafa de água, tento evitar o desperdício.” Nas viagens tenta ainda escolher alojamentos ecológicos, comprar alimentos nos mercados, comer em restaurantes locais e evita as cadeias multinacionais.

Apoiar a economia local é também uma das grandes preocupações de Leyla no seu projeto português. Em 2017 pegou numa velha quinta, no remanso da aldeia Serra, em Tomar. Recuperou duas casas antigas e um lagar de azeite com quase 200 anos, abandonados há mais de uma década, tratou das oliveiras, figueiras, laranjeiras, limoeiros e macieiras, plantou novas árvores, cultivou as terras, que já servem de alimento aos participantes do SPA Cerebral que a australiana instalou em Tomar. O CO Project – Creative Optimism Projet (“co” de trabalho colaborativo, de co-criação) é não só a base europeia da UnSchool, mas também o local para “regenerar os neurónios”. Há workshops e atividades, com uma grande ligação à natureza, que ajudam “a pensar de maneira diferente”. Por exemplo? “Desenhar qualquer coisa que nunca se tenha visto para perceber como funciona.”

 

Campeã da terra

Empreendedora social, agente provocadora em matéria de sustentabilidade, designer disruptiva, sempre pronta a quebrar fronteiras, é fundadora do laboratório de conhecimento alternativo UnSchool, em Nova Iorque, e das agências de design Disruptive Design, também em Nova Iorque, e da Eco Innovators, em Melbourne, e agora também do CO Project. Licenciada em sociologia, doutorada em design, começou por estudar este último, até que um professor lhe falou da Teoria de Gaia, e de como na natureza tudo está interligado. “Isso mudou-me completamente. Percebi que as decisões que tomasse como designer teriam um impacto negativo, a não ser que eu percebesse mais sobre o sistema em estava a trabalhar.” Leu sobre “como o design causou metade dos problemas do mundo”, sustentabilidade e introdução aos sistemas. “Li como os ursos comem o salmão, mas deixam os restos na floresta e isso fornece nutrientes às árvores e pensei: isto é magia.” Mudou para sociologia, certa que “queria fazer design para mudar o mundo para melhor e não design que perpetuasse problemas”. Leyla, “amante de problemas”, anda pelo mundo com “uma curiosidade constante sobre as coisas, como funcionam, por que não funcionam”. Filas de segurança nos aeroportos? “Redesenho-as totalmente sempre que estou numa, torno-as a todas mais eficientes.”

Saiu da faculdade e dedicou-se à análise do ciclo de vida para perceber como produzir de forma mais sustentável, reduzindo o desperdício, e procurando formas para transmitir esse conhecimento. Aos 25 anos lançou a Eco Innovators para desenhar ferramentas educativas e criou a série de animação A Vida Secreta das Coisas. Na primeira de três curtas, Mr. Eric-Sun, um telemóvel com uma crise existencial, faz terapia de regressão com o Dr. A. Fraud: percebendo como são fabricados os telemóveis é possível ensinar que podem ser produzidos de maneira a que todos os componentes sejam reaproveitados. O vídeo, onde Leyla dá voz a todas as personagens, está em exposição permanente no Museu Leonardo da Vinci, em Milão.

Desde que abriu as portas do CO Project já recebeu em Tomar libaneses, turcos, australianos, singapurenses, tailandeses, alemães, espanhóis… o mundo inteiro, ou pelo menos aquela parte que está “interessada em fazer mudanças na sua vida e no trabalho que desenvolvem”. “Vêm pessoas que trabalham em grandes organizações, mas também pessoas que já não conseguem ignorar o que se passa nos oceanos.”

Viver numa quinta, ainda que por curtos períodos entre viagens, ajuda Leyla a olhar de outra forma para o mundo. Depois de cultivar os primeiros vegetais, diz que nunca mais conseguiu olhar para os produtos no supermercado da mesma forma, além de que viver num ambiente rural lhe ensinou a fazer coisas que “permitem ter uma vida mais sustentável. Temos uma política de zero desperdício na quinta, aprendemos e ensinamos outras pessoas a ter vidas mais sustentáveis, qualquer pessoa que venha percebe como estamos todos presos neste loop de consumo”. Com anos de conhecimento acumulado sobre a forma como funcionam os produtos e os meios industriais, está agora a descobrir em Portugal um outro lado do planeta. E chegar a Portugal e a Tomar, depois de encontrar aquela quinta numa pesquisa feita na internet, foi uma forma de Leyla resolver o seu próprio transtorno do défice de natureza. “Não sabia como funcionava a natureza. É mágico. Ainda estou a tentar perceber como é que resolve problemas, como é que cria qualquer coisa.”

Entre viagens, quando consegue passar alguns dias em Tomar, Leyla diz ter o que chama de “momentos uau”. “Tenho esta macieira na quinta que no inverno perde as folhas, a minha assunção foi que estavam a dormir, mas não. O que faz é deixar cair as folhas que já não são precisas para a fotossíntese porque não há sol, deixa- -as cair e no momento em que chove, apodrecem e dão nutrientes à terra e às raízes e nas árvores nascem bebés. Cada vez que olho para ela, penso ‘Estás a fazer coisas. Pareces morta, mas estás a fazer crescer bebés’.”

Agora, quando sai de Tomar e parte pelo mundo, Leyla não fala só de teoria. Conhece o aspeto de uma macieira, sabe como se planta um alho. A teoria deu lugar ao fazer, mesmo que isso signifique unhas sujas de terra e aranhões nos braços.

coproject.co

 

por Hermínia Saraiva

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