Leonardo da Vinci – O génio em Milão

on Oct 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

Um roteiro pela cidade onde Da Vinci viveu duas décadas, deixando nas esquinas a fina impressão digital da sua multiplicidade.

Pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, inventor, cientista, matemático, botânico, entertainer e filósofo, Leonardo da Vinci, o arquétipo do homem renascentista, morreu há 500 anos, mas, a sua obra, universal e contemporânea, permaneceu inscrita nas paredes da capital da Lombardia, sobrevivendo ao tempo, às invasões estrangeiras e a duas guerras mundiais. De pinturas como A Última Ceia a Retrato de um Músico, passando pela magnífica Sala delle Asse, pelo Museu Nacional da Ciência e Tecnologia, pelos Navigli ou até por uma vinha, a mão indelével do génio – ou as mãos, pois Leonardo escrevia com as duas e, por vezes, da direita para a esquerda – compete com as montras, com os museus, com os restaurantes e com a azáfama chique que dá cara a Milão.

O nosso périplo começa com uma inspiradora visita guiada pelos terraços do telhado do Duomo, a catedral gótica mais bela de Itália. Ao final da tarde, o mármore rosa-branco dos arcos e das ogivas incendeia-se com o sol a cair para lá dos Alpes, refletindo-se nas estátuas e nas gárgulas que enfeitam os pináculos. Só no exterior do monumento existem 2600 estatuetas que miram petrificadas os magotes de gente que, lá em baixo, enchem a Praça do Duomo e a Galleria Vittorio Emanuele, o “salão de Milão”.

 

Nos passos de da Vinci

Na manhã seguinte regressamos ao Duomo para visitar o interior da catedral. Com cinco naves e 40 pilares, o que mais impressiona é a altura, 45 metros, e a quantidade de turistas que observam os quadros com cenas religiosas detendo-se invariavelmente para fotografar a inquietante estátua de São Bartolomeu, esculpida sem pele, numa evocação do martírio do apóstolo.

E da Vinci? Consta que também fez desenhos para a catedral – construída ao longo de cinco séculos, com início em 1386 –, mas as suas soluções não eram tão boas como as dos outros arquitetos da corte de Ludovico Il Moro Sforza, duque de Milão, ao serviço do qual o talentoso florentino veio para a cidade. Outra das más opções do artista foi a técnica eleita para pintar aquela que é uma das suas obras-primas, A Última Ceia.

Estranhamente, à porta da Igreja de Santa Maria Delle Grazie, na parede de cujo refeitório Da Vinci pintou, entre 1494 e 1497, a última refeição de Cristo e dos apóstolos, não há filas intermináveis. O mistério é mais fácil de desvendar do que o sorriso da sua outra obra-prima, a Mona Lisa. Para visitar o espaço é preciso adquirir bilhetes com grande antecedência e as visitas são controladas. De 15 em 15 minutos entram e saem grupos restritos de visitantes. Como restrição não significa contenção, assim que se abrem as portas do Cenáculo as pessoas correm para a pintura, fotografando-se à frente dela, antes mesmo de a olharem. É magistral, mas as cores parecem desmaiar, conferindo maior dramatismo à cena, o que se deve a um erro do mestre que não dominava a técnica do afresco (tinta sobre reboco húmido) e optou por aplicar a tinta sobre uma superfície seca. Audaz e desastroso, uma vez que obriga a constantes intervenções de restauro.

Do outro lado da piazza fica a curiosa Casa degli Atellani, onde Leonardo vivia enquanto trabalhava no convento. Essa casa tinha no pátio uma vinha que Ludovico ofereceu ao pintor quando este terminou a obra. Vale a pena visitar o inesperado refúgio verdejante recriado pelos atuais proprietários, netos do arquiteto milanês Piero Portaluppi, que restaurou o edifício na década de 1920. A vinha de Leonardo é um dos segredos mais mal guardados de Milão, mas a elegância simples dos jardins e o charme da casa fazem-nos sentir renascentistas.

Mantemos o espírito de época e seguimos de mapa na mão – com a app fomos parar ao lado oposto – até à Pinacoteca Ambrosiana, extraordinário museu onde se encontram obras como Retrato de um Músico de Da Vinci, Cesta de Frutas de Caravaggio, ou Madonna del Padiglione de Boticelli, mas também pinturas de Ticiano e de Bruegel e o gigantesco desenho preparatório de Rafael para o célebre quadro A Escola de Atenas. É também lá que podemos ver o Códice Atlanticus, 12 volumes que reúnem os textos, os desenhos, as ilustrações e as invenções de Da Vinci nas mais variadas áreas, da botânica, à astronomia, passando pela engenharia, pela balística e pela aviação.

No regresso ao hotel, deparamo-nos com a tentadora montra da mercearia Peck recheada de queijos e enchidos, mas é tempo de nos vestirmos a preceito para uma memorável soirée. Ir ao Scala faz parte da lista de desejos de gente de todo o mundo e, pouco antes do espetáculo – o ballet A Bela Adormecida –, basta seguir pelas ruas as pessoas mais bem vestidas para dar de caras com o teatro. Lá dentro, na magnífica sala que faz parte do nosso imaginário, o burburinho só acalma quando as cortinas sobem e os bailarinos esvoaçam pelo palco, dando vida e alma à história de Perrault, musicada por Tchaikovsky e encenada por Nureyev.

 

Segundo ato

Dia novo, casa nova. Depois de nos alojarmos no Baglioni, um boutique hotel da cadeia Carlton cujas traseiras dão para a Via della Spiga, uma das mais exclusivas de Milão, apanhamos o metro para o Museu de Ciência e Tecnologia Leonardo da Vinci. Dedicado ao génio do inventor, o museu é um parque de diversões didático recriando, a partir dos desenhos do mestre, os fabulosos modelos Leonardeschi. A coleção apresenta mais de 130 modelos relacionados com os diferentes campos de interesse de da Vinci: aeronáutica, engenharia militar, arquitetura, máquinas de trabalho. Outras curiosidades do museu são as oficinas interativas, as salas dedicadas à nutrição, ao Espaço e à física das partículas e a possibilidade de entrar no submarino Totti.

Encontramo-nos a meio da tarde com Annamaria Fumagalli, a divertida e experiente guia que nos vai levar pelas ruas da cidade, descobrindo os recantos do sofisticado bairro de Brera, os segredos de San Maurizio al Monastero Maggiore (a “Capela Sistina” de Milão), ou a atmosfera descontraída do bairro dos canais, Il Navigli. Nas margens dos canais artificiais que, durante séculos, ligaram a cidade ao exterior, e sobre os quais Da Vinci apresentou estudos para melhorar o sistema hidráulico e a navegação, fica hoje um pitoresco bairro repleto de bares, restaurantes, lojas de artesanato, galerias e mercadinhos. É aqui que nos sentimos mais próximos do dia a dia dos milaneses, refrescando os pés nos canais e tomando a sua bebida preferida, o Aperol Spritz.

O nosso domingo termina nos píncaros no restaurante Al Pont de Ferr, que fica nas margens do Naviglio Grande. Depois de efusivamente recebidas pela proprietária, a carismática sommelier Maida, entramos numa delirante viagem sensorial em que se mesclam sabores tradicionais e experimentais harmonizados com excelentes vinhos italianos. Para memória futura ficam-nos duas horas de prazeres pantagruélicos e surpreendentes. Inesquecível o tutano com ouriços do mar que se eleva no palato com a inesperada frescura tropical de um vinho siciliano da casta Catarratto.

Despedimo-nos desta Milão davinciana no dia seguinte, mas só depois de visitarmos o mais imponente dos monumentos da cidade, o Castelo Sforzesco. Sendo uma estrutura iminentemente defensiva, a história do castelo acompanha a da metrópole e é atualmente um importante núcleo museológico e cultural. De entre as mais variadas coleções, que vão da arte antiga às artes decorativas, dos instrumentos musicais à armaria, destaque para duas salas: a que é exclusivamente consagrada à última obra-prima de Michelangelo, a escultura Pietà Rondanini, e a Sala delle Asse. Restaurada para as comemorações dos 500 anos da morte de Da Vinci, a sala onde Leonardo desenhou e pintou para Ludovico uma espécie de pérgula intrincada de amoreiras estará aberta ao público até janeiro de 2020. Lá fora, a cidade transpira, mas aqui, ainda que inacabada, a pintura dá-nos a sensação de estarmos a passear no bosque numa manhã fresca de verão. O homem sonha, a obra nasce.

yesmilano.it\\\ milanocastello.it

 

por Patrícia Brito /// fotos Verónica da Costa

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