Julião, um rapaz de Lisboa

on Jul 1, 2011 in Embarque Imediato | No Comments

Ainda lhe falta fazer tudo, diz-nos Julião Sarmento. E talvez seja por isso que é o artista português de arte contemporânea com maior projecção internacional. Além de várias exposições pelo país, até ao fim do ano pode ver-se obra sua em Palma de Maiorca, São Paulo, Ohio e Paris.

Julião Sarmento não gosta de arte engraçada. Considera-se “um construtor de enigmas” e tem alguma dificuldade em esmiuçar o trabalho que faz. No fundo o seu propósito é que o espectador repense a vida através da obra feita, seja ela vídeo, som, escultura, performance, filme, fotografia ou pintura.

O artista acha redutor que se assuma simplesmente que a mulher trespassa a sua obra. Noutras ocasiões terá dito que é uma “visão limitada”, no entanto, nesta entrevista, acabou por concordar, usando a ironia que lhe é característica: “Então não saímos todos de uma mãe? Todas as pessoas precisam de um leitmotiv. Há umas que precisam de naturezas mortas, outras que se dedicam ao género da paisagem, eu dedico-me às mulheres, o que hei-de fazer?”

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Na apresentação das exposições -me e What Makes a Writer Great, no Instituto Açoriano de Cultura, em 2002, escrevia o ensaísta e crítico de arte Delfim Sardo: “quer nas mais recentes, quer nas obras de início da sua carreira, facilmente verificamos que o artista utiliza um conjunto de temas que se repetem, quase como obsessões que atravessam o seu trabalho. Em primeiro lugar o sexo (ou, mais explicitamente o desejo) representado nos corpos que, umas vezes de forma explícita, outras subtilmente sugerida, se dirigem aos nossos fantasmas mais recônditos”.

E será que todos os vêem? Nesta linha, Julião Sarmento diria à revista Visão, em Abril de 2008, que “a arte é para quem a merece”. Daí confessar a frustração e o desconforto que sente quando o compram por causa do valor da sua assinatura. “Era desejável poder escolher quem são as pessoas que me compram.”

“Sou artista, ponto final”
Foi escolhido para representar Portugal na Bienal de Veneza em 1997, com enorme projecção nacional e internacional, está representado em galerias nos quatro cantos do mundo e teve, recentemente, uma sala na prestigiada Tate Modern e a exposição Artists and Writers / House and Home no The Parrish Art Museum em Southampton (Nova Iorque). “Isso seguramente dá-me prazer e satisfação. Mas agora ficar contentinho comigo mesmo, não. É um work in progress, quero fazer muito mais. Sou sedento de poder.” A parte da ambição pelo poder é dita entre gargalhadas. O tom torna-se mais sério quando fala dos meios que usa para difundir ideias. Se o apelidam de artista multifacetado, ele responde: “Sou e não sou. Sou um artista que tem um discurso. E os meios: a pintura, o vídeo, o som, a escultura são apenas o veículo para apresentar aquela ideia específica”. Interessa-lhe mais o conceito. E qual a razão de fazer um vídeo, um quadro ou depois uma performance?

Para facilitar a compreensão dos comuns mortais, compara-se com um cozinheiro. “Se quero fazer bacalhau à Gomes de Sá, vou ver os ingredientes que a receita leva”. “Não sou pintor, mas um artista que utiliza a pintura, tal como não sou um cineasta, ou videografo, ou desenhador. Sou artista e ponto final.”

Frequentou a ESBAL (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa) entre 1967 e 1974. Com grandes afinidades com a pop americana e uma forte influência cinematográfica, a sua experiência vai da figuração de inspiração pop às práticas pós-conceptuais. Entre 1974 e 1980, Julião Sarmento investiu na arte conceptual – durante essa época não pintou um quadro, dedicando-se mais à fotografia, ao som e aos filmes – para depois voltar aos materiais tradicionais no princípio da década de 80, saboreando de novo a sensação de descoberta. Nos últimos tempos tem trabalhado novamente com vídeo e com filmes, mas diz-nos: “Ainda me falta fazer tudo. Há outros meios de representação plástica que ainda não usei e hei-de usar”.

A arte em viagem
Foi nos anos 80 que Julião Sarmento se projectou no mundo. Em 2009, disse à revista Única (do semanário Expresso) que o momento em que sentiu maior orgulho por ter a sua obra exposta aconteceu em 1982 na Dokumenta de Kassel. Voltaria a participar nesta importante mostra em 1987. Nos dez anos que se seguiram, Julião Sarmento apresentou-se individualmente na Suíça, Itália, Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Brasil, Canadá e Inglaterra. Isto para não falar da participação em exposições colectivas por outros tantos cantos do mundo. Em 1997, apresentou na Bienal de Veneza um conjunto de obras inscritas na série “Pinturas Brancas” propositadamente criadas para o Palazzo Vendramin dei Carmini.

Na sala da sua casa no Estoril, onde decorre esta entrevista, estamos rodeados “de obras de amigos”, de entre as quais se destaca a frase de Lawrence Weiner – figura central da arte conceptual – inscrita na parede “& The Pursuit of Happiness”. Excepção feita para um quadrinho que esteve na Bienal Veneza: “É a única coisa minha que está cá. Acho ostensivo ter obras minhas em casa. Passo o dia no ateliê a olhar para elas, quando chego a casa tenho de descansar o olhar e ver outras peças de que gosto.”

Para conhecer a obra de Julião Sarmento é imprescindível folhear o catálogo raisonné das edições numeradas, uma edição do museu Extremenho Ibero-americano de Arte Contemporânea, coordenado por Delfim Sardo e Maria Jesus Ávila e que abrange mais de três décadas de produção. Mais uma vez prima pela distinção. Depois de Júlio Pomar é o segundo português vivo a ser objecto de um catálogo deste teor.

Epístolas artísticas
Diz que foi através de simples cartas que conseguiu tornar-se o artista português com mais projecção no estrangeiro. “Havia jovens artistas que me interessavam. Não escrevi ao Andy Wharhol, mas escrevi, por exemplo, a Ben Vautier, a um artista polaco chamado Zdzislaw Sosnowski e a Sigurdur Gudjonsson, um islandês que me interessava. Eram fundamentalmente artistas de países de Leste, polacos, jugoslavos. Uma das minhas maiores amigas é Marina Abramović que hoje é uma estrela, mas naquela altura era só uma jovem artista a viver em Belgrado.”

A revista italiana Flash Art, fundada no fim dos anos 60, também deu um empurrão. “Era a revista mais influente, porque dava informação inteligente. Foi através dela que me apercebi desses artistas e respectivo trabalho.” Um destes relacionamentos epistemológicos deu origem a uma exposição na Polónia, onde expôs também o artista Fernando Calhau, amigo de Belas Artes e da vida: “Depois, foi uma bola de neve”.
Já a presença em inúmeras galerias estrangeiras aconteceu por causa da participação da galeria portuguesa Módulo na feira de Arte da Basileia. “Fui visto por essa galeria, que gostou do meu trabalho e me convidou. Depois houve outros marchands que viram o meu trabalho nessa galeria e fui entrando no circuito.”

Microbiografia
Esta é a história de um rapaz nascido e criado na Rua de Arroios, em Lisboa, quando por ali ainda se passeavam carroças. Que em pequeno desenhava versões do Mandrake, do Cavaleiro Andante e das personagens de Walt Disney. “Apesar de hoje não ter a mínima pachorra para banda desenhada.” Que teve uma tia Amélia, que descreve como “um espírito abertíssimo, uma espécie de pré-hippie que me abriu horizontes para o mundo.” Que pensou estudar Filosofia e Direito, mas acabaria por escolher Arquitectura. Na ESBAL frequentou também pintura. Um rapaz que no primeiro dia de escola conheceu Fernando Calhau de quem se tornou amigo e parceiro de lides artísticas. Que perdeu quatro anos de vida na tropa, mas safou-se da guerra colonial porque se classificou em primeiro lugar no curso militar. Como os artistas naquela época eram tratados “abaixo de cão”, tornou-se funcionário da Secretaria de Estado da Cultura. “Como não era uma actividade gratificante, um dia pensei ‘que se lixe vou tentar fazer o meu próprio trabalho’. E está à vista que deu resultado”.

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por Maria João Veloso

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