José Xavier

on Sep 1, 2010 in Viajante profissional | No Comments

Da vivência entre duas colónias de pinguins e albatrozes no Pólo Sul, José Xavier tirou as suas conclusões sobre o impacto do aquecimento global. Já o quotidiano com a bicharada, fê-lo sentir-se apenas mais um animal do planeta.

Talvez a classificação de viajante profissional não lhe assente que nem uma luva. José Xavier, cientista do Instituto do Mar da Universidade de Coimbra, discorre sobre a sua sexta campanha científica na Antárctica como se estivesse a contar as aventuras de umas férias prolongadas. “A minha última estadia [oito meses] na ilha de Bird foi bastante compensadora. Passava os dias a trabalhar directamente com animais e o restante tempo livre era passado a trocar impressões sobre eles.” Era isso que fazia com os outros três cientistas – Darren Fox, Stacey Adlard e Ewan Edwards – que dividiram consigo a “espectacular” base científica na minúscula ilha que faz parte do arquipélago da Geórgia, no sul da Antárctica.

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Penso, logo existo

A paixão total pelo que faz não é coisa de agora, José Xavier foi sempre empenhado e bom aluno. No segundo ano da licenciatura em Biologia Marinha na Universidade do Algarve tomou uma resolução: “Decidi que não iria fazer o estágio em Portugal e comecei a participar em estudos na universidade. Sabia que queria ser cientista e senti que o curso não bastava, por isso entrei em projectos científicos e consegui impor-me numa série de pesquisas, ajudando mestrandos e doutorandos”.

Ao participar num estudo sobre cefalópodes (polvos, lulas e chocos), surgiu a oportunidade de ir para Cambridge, Reino Unido, estagiar com o professor Paul Rodhouse no British Antarctic Survey. Era lá que estava em 1997, a estudar o percurso das lulas nos oceanos, através de dados que lhe chegavam de investigações feitas por outros cientistas em cruzeiros oceanográficos. “Nesse ano escrevi um artigo sobre a rota das lulas e ajudei a criar um projecto para as conhecer melhor.”

As pesquisas sobre lulas prosseguiram e, do centro de investigação, surgiu o convite para continuar a estudar esta espécie durante o doutoramento. “Passei os primeiros quatro anos a conhecer as lulas pelas suas mandíbulas. Aliás foi através dos cefalópodes que começou esta aventura.”

Admiráveis albatrozes

Quando lhe perguntaram se queria ir para a Antárctida ficou entusiasmado. “Assim que me disseram que tinha uma bolsa de doutoramento, respondi que iria o tempo que quisessem, uma semana, duas ou três.” E de repente, aos 23 anos, em 1999, estava na ilha de Bird, no Pólo Sul. Uma experiência que duraria sete meses. O dia-a-dia era passado a pôr aparelhos – que permitiam o rastreio através de satélite – nas costas de albatrozes, fornecendo as coordenadas da posição da ave. Em função disso, era possível saber onde estavam localizadas as lulas, das quais os albatrozes se alimentam, e conhecer assim a sua distribuição no oceano. Na altura, encontrou na dieta destas aves 40 a 50 espécies de lulas, muito mais do que as cinco até então apanhadas pelos cruzeiros oceanográficos.

“Usámos os albatrozes como cientistas. Através do rastreio por satélite ficámos a saber onde é que as aves estavam a interagir com os barcos de pesca. Os albatrozes viajeiros podem desaparecer daqui a 20, 30 anos por se cruzarem com barcos de pesca, ficarem presos no anzol e morrerem afogados.” O estudo que fez demonstrou que o uso de linhas de anzol mais pesadas impedia as aves de apanharem o isco.

Conclusões à parte, o impacto da paisagem foi muito marcante. “Tive a sensação que estava a entrar num mundo diferente. Partindo das Ilhas Malvinas são dois dias até chegar ao oceano Antárctico. Era Verão, comecei a ver icebergs gigantes e animais a reproduzirem-se. Havia albatrozes no ar, baleias à volta do navio, pinguins a nadar, parecia-me um planeta dentro do planeta.”

Depois da primeira expedição, seguiram-se mais cinco, três a bordo de um navio oceanográfico e duas em que regressou à ilha de Bird. Os estudos da última viagem – que se realizou de Março a Novembro de 2009 – tiveram como propósito principal estudar a forma como os pinguins e os albatrozes viajeiros estão a adaptar-se ao aquecimento global. Desta vez, em vez de satélite, usou GPS para monitorizar os bichos. “Estive a estudar a cadeia alimentar do oceano Antárctico no que respeita à alteração das condições climáticas. Estava interessado na abundância de lula e de camarão no oceano. Porque esses são os alimentos mais típicos na dieta dos pinguins e dos albatrozes. Os pinguins gentoo ressentiram-se da escassez de krill e tiveram, nesse ano, que se alimentar de pequenos organismos presentes no oceano. Por isso começaram a emagrecer e a época de reprodução principiou mais tarde.”

Se os pinguins gentoos foram os que mais sofreram com as mudanças climáticas, os albatrozes, as maiores aves marinhas do mundo, por serem capazes de percorrer distâncias entre os cinco e os dez mil quilómetros à procura de comida, não se deixaram afectar pelas alterações.

José Xavier explica que os albatrozes viajeiros só se reproduzem de dois em dois anos e que ainda está por descobrir “como se orientam no mar e, principalmente, que relógio usam para saber que está na hora de regressar às suas colónias”. É na ilha de Bird, conta o cientista no seu blog Ciência Polar, que estes animais conhecem o seu parceiro e dão os primeiros passos para terem uma família. Fascinante foi testemunhar os reencontros destes viajantes que passam a maior parte do tempo no mar, voltando à ilha apenas para se reproduzirem. “Quando se encontram, a barulheira é tão grande, que se sente que estão a interagir novamente.” Por causa disso, o cientista conclui: “Se os albatrozes falassem português teriam sido eles a inventar a palavra saudade”.

Vida selvagem

A experiência na ilha de Bird é apenas comparável a uma expedição da revista National Geographic. “A relação com os animais é especial. Não é como aqui que andamos de bicicleta e os pássaros saem do caminho. Lá, estava no meio dos pinguins, eles olhavam-me curiosos sem qualquer desconfiança e sentia-me apenas mais um animal.” No entanto, as coisas nem sempre são tão calmas. Uma vez, José Xavier estava num vale rodeado de focas e viu-se a braços com bichos mais afoitos: “As focas otárias do Antárctico têm uns dentes afiados e não dá para fazer simplesmente ‘xô, xô’. Quando abriam a boca pareciam estar a dizer-me: hoje não passas”. E não passou mesmo, deu meia volta e contornou o obstáculo. “São animais com 200 quilos, há que respeitar.”

Ao longo dos oito meses que passou na ilha havia rotinas a cumprir. Levantava-se mal o sol nascia – o que em Abril acontecia às sete e em Junho às onze da manhã – e tinha como missão marcar os pinguins gentoo para saber quantas vezes vinham a terra ou se algum tinha sido vítima das focas leopardo. De vez em quando também ia à colónia dos albatrozes para os munir de GPS. “Rumava a outra parte da ilha, a 20 minutos da base, houvesse tempestade ou não. Dessa experiência concluímos que os albatrozes são flexíveis às alterações climáticas, viajando até ao Brasil à procura de comida.”

Apesar de não ter tempo para grandes actividades lúdicas, José Xavier lembra as noites de cinema aos domingos e às quartas-feiras. Outra das suas diversões era a cozinha. “Quem cozinhasse ao sábado tinha que fazer sopa, entrada, prato principal e sobremesa. Uma vez tentei até fazer pastéis de nata. Mas cozinhei de tudo, com a família e os amigos a mandarem sugestões.” Os produtos para confeccionar as refeições, desde arroz de pato, feijoada e canja até comida chinesa ou italiana, vinham de uma área da base que parece um supermercado e que é abastecida duas vezes por ano. Se a sexta-feira era o dia fixo para as limpezas, não havia a noção de que o sábado ou o domingo eram dias de lazer. Caso não visitasse as colónias de pinguins ou albatrozes, havia muito trabalho de laboratório a fazer. A excepção à regra eram os dias sem vento e com céu limpo. Nessas alturas, além dos 15 quilos de material às costas, levava também a máquina fotográfica e conjugava tudo. “Se o tempo estivesse mesmo excepcional fazíamos snowboard no monte.”

E porquê passar quase um ano desterrado no Pólo Sul? A resposta é rápida e espontânea. “Poder contribuir para o desenvolvimento da ciência. Os estudos feitos darão origem a uma série de publicações. Aliás, estou a pensar voltar para lá outra vez.” Irrepetíveis, os momentos que lá passou estão registados no blog cientistapolarjxavier.blogspot.com.

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por Maria João Veloso

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