José-Manuel Gonçalves, Paris

on May 1, 2020 in Partida | No Comments

Dirige o centro cultural Centquatre e o projeto artístico do Grand Express Paris. E não pretende parar.

Nascido em 1962 em Vila Franca de Xira, nos arredores de Lisboa, José-Manuel Gonçalvés atravessou as fronteiras até França como clandestino, aos cinco anos de idade, junto com a mãe e irmão, então com 17 meses. O pai havia desembarcado em solo francês um ano antes, também clandestinamente. No presente, desde 2010, dirige o prestigioso centro cultural Centquatre em Paris, um amplo conjunto de espaços para espetáculos, concertos, exposições e experimentações para artistas do mundo inteiro, localizado no 19° bairro da capital francesa. Dotado de uma programação popular e contemporânea, o lugar é igualmente aberto a práticas artísticas livres, a crianças e start-ups que integram a sua incubadora. “O Centquatre é um local que reflete sobre criar relações diferentes entre arte e cultura, na interação com a inovação tecnológica e social. Não é um lugar indefinido, mas infinito”, resume José-Manuel, sentado em seu gabinete.

Sua trajetória até chegar ao comando da instituição cultural foi bastante agitada. No início, a família instalou-se nos subúrbios de Paris. Para acelerar a integração no país, o pai não falava o português em casa. “A minha primeira língua é o francês. Aprendi o português com amigos, tocando e escutando música brasileira. De uma certa forma, foi o Brasil que me fez amar Portugal, por meio da música e, depois, do meu trabalho. E, antes de começar a ler livros, aprendi o francês pelas revistas de histórias fotográficas.”

 

Futuro

O interesse pelo teatro nasceu numa saída escolar ao Théâtre Mogador, para assistir à peça Lorenzaccio, de Alfred de Musset. “Tinha 13 anos. Marcou-me ver como alguém que falava um francês do século XIX podia fascinar colegiais turbulentos confinados em uma sala e embarcá-los na sua história.” Já morando em Rouen, para onde o pai transferira-se como empregado de uma empresa têxtil, aderiu à Associação dos Amigos do Teatro Popular e passou a promover espetáculos num bairro pobre da cidade. Em 1989 foi-lhe confiada a organização dos festejos do bicentenário da Revolução Francesa, em Rouen. “Era um evento para cerca de 50 mil pessoas. Levei a orquestra da Ópera de Paris, com a soprano americana Jessye Norman. Tinha 27 anos. Foi uma experiência fundadora para mim.”

As proezas encadearam-se. Transformou um teatro de 800 lugares em Les Ulis, no sudoeste de Paris, em um polo de dança contemporânea. Depois, assumiu a programação da Associação Francesa de Ação Artística (AFAA), braço da diplomacia cultural da França no exterior. Na sequência, dirigiu o La Ferme du Buisson, célebre centro cultural na cidade de Noise, até retornar a Paris.

O amor pela cidade e pela cultura levou-o, mais recentemente, a ocupar também a direção cultural do Grand Paris Express, projeto urbano com um estaleiro de obras faraónico, com previsão de duração de 15 anos, que envolve a construção de uma rede de transportes de 200 quilómetros, duas vezes mais rápida do que o metro parisiense. O objetivo é fazer de Paris e 130 comunas adjacentes uma “metrópole-mundo”, como Londres ou Xangai. Será uma “revolução cultural”, aposta José-Manuel: “A ambição é a de acompanhar o importante gesto arquitetural por um gesto artístico bastante forte. Vamos associar arquitetos e artistas para criar a ‘grande coleção de obras da Grande Paris’”.

 

Cidadão

Apesar de viver há mais de 50 anos em França, José-Manuel mantém até hoje apenas a nacionalidade portuguesa. Prometeu ao pai, já falecido, que não se tornaria francês até que fosse concedido aos imigrantes o direito de voto nas eleições presidenciais. “É uma convicção pessoal e não um gesto heroico juvenil. Vivo na França há décadas, pago meus impostos e tenho família aqui. Para ir até o limite do sonho republicano e democrático, é preciso responsabilizar os indivíduos”, defende. “Herdei isto de Portugal: tento todo o tempo construir um futuro um pouco sonhado, que já tenho a nostalgia de algo que jamais atingirei. Saudade, para mim, é isso. Deste ponto de vista, sou português”.

104.fr \\\ societedugrandparis.fr

 

por Fernando Eichenberg /// foto Jean-François Spricigo

Arquivos

Lisboa

“A cidade fervilha novamente. Os habitantes parecem ter despertado a Bela Adormecida. Os artistas têm boa quota de responsabilidade nisso. Muitos nomes fizeram-se conhecer primeiro no exterior, como Tiago Rodrigues. Invadiu a cena francesa com o seu talento de encenador e diretor do Teatro Nacional Dona Maria II, que comanda extraordinariamente.”

tndm.pt

Essencial

“A cena artística parisiense e da Grande Paris é vivaz, e vive de oferta maioritariamente pública, mas igualmente privada. Tenho uma relação particular com os jovens e novos artistas. O Théâtre Montfort, e o MAC VAL, para as artes visuais, são locais que recomendo vivamente.”

lemonfort.fr \\\ macval.fr

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