Joaquim Gonçalves, Alagoas

on Jan 1, 2020 in Partida | No Comments

Um alentejano que encontrou o lugar ao sol no melhor segredo do Nordeste do Brasil.

O provérbio que diz que “a relva do vizinho é sempre mais verde do que a minha” definitivamente não assenta bem ao alentejano Joaquim Gonçalves. Bastam alguns minutos de caminhada pelo seu jardim à beira-mar em plena Rota Ecológica, nos confins das Alagoas, para entender porquê. Ali, num sem-fim de hectares que só terminam na areia da praia, onde plantou a sua pousada Aldeia Beijupirá, há coleções dignas de jardins botânicos. São jacarandás, ipês brancos, roxos e amarelos, baobás, hibiscos e mais de 20 diferentes tipos de palmeiras – inclusive raras e frondosas tamareiras. Entre as frutíferas há ainda pés de pitanga, de siriguela, de acerola, de caju, de manga, de jambo, de abacate, de goiaba, de lima… algumas que ele só foi conhecer ao vivo depois de se mudar para os trópicos, há 18 anos. Sob elas, uma relva tão verde que nos faz duvidar do solo arenoso e dos 30 graus centígrados não raro acusados pelos termómetros. “O jardim é a minha paixão”, diz Joaquim, cujo passatempo de eleição é sobrevoar a sua “criação” com um drone que revela a imensidão das piscinas naturais mesmo à porta de casa. “Sou eu que planto tudo.”

É claro que não poderia faltar o tão alentejano poejo. E nem uma oliveira. A despeito de dizer que tenta não levar Portugal para o Brasil, à mesa de casa a água é da marca Luso e o café é Delta. A saudade de um bom pão também fez nascer uma pequena produção caseira à moda alentejana, hoje aprimorada por uma linha de fermentação natural. Mas Joaquim já abrasileirou a alma. É mestre no churrasco de picanha e não abre mão do figurino bermudas e chinelos, que cai como uma luva nas suas atribuições do dia a dia. Além do jardim (claro), dedica-se à gestão dos negócios de turismo que criou e que viu crescer desde que saiu de Vila Viçosa, onde trabalhou por quase 20 anos na indústria do mármore, em busca do seu lugar ao sol. “Eu tinha o sonho de ir viver num país tropical”, recorda-se ele. “Hoje já me sinto um brasileiro.”

 

Sorte de principiante

Ainda estava à procura de um terreno para construir uma pousada e mudar de vida quando foi jantar a um restaurante em Porto de Galinhas, em Pernambuco e, preso por uma tempestade de, ficou a conhecer a dona, Adriana Didier, que logo se juntou à empreitada – profissional e pessoal. O novo casal foi encontrar pouso numa zona ainda pouco conhecida, a meio caminho entre as capitais Maceió e Recife. Nascia assim uma das pousadas mais charmosas do Nordeste do Brasil, a Aldeia Beijupirá, com nove bangalôs batizados com nomes de tribos indígenas. Com o passar dos anos, àquele primeiro terreno juntaram-se mais sete e o número de acomodações triplicou. Joaquim fincou o pé na zona e nunca mais pensou em sair. Os negócios familiares hoje incluem a sociedade em uma outra pousada e numa rede de restaurantes.

Um deles fica a poucos passos da pousada e é uma declaração das suas origens. Chama-se Amor e é uma homenagem a um grande amigo dos velhos tempos, Amor Fialho, proprietário do incontornável restaurante Fialho, em Évora. Joaquim conta que, quando soube, o amigo não conteve as lágrimas. Ali toma-se bons vinhos do Alentejo, do Douro e da região de Lisboa e come-se um bom arroz de camarão. O pato também está na ementa graças ao saudosismo de Joaquim – mas em uma receita excêntrica: um ravióli ao molho de tangerina trufada. Vez ou outra os clientes são surpreendidos por pastéis de nata feitos na altura, servidos quentes. A próxima ementa da casa promete incluir cataplana de bacalhau.

“Portugal é o meu país, é onde nasci. E o Brasil é o meu país do coração”, declara Joaquim, que costuma atravessar o Atlântico três ou quatro vezes ao ano para visitar a família. “Encanta-me a diversidade das pessoas, das raças, das plantas, dos animais”, diz ele, enquanto enumera os seus planos para um futuro próximo: novos negócios na área da gastronomia, uma nova experiência com plantas trepadeiras e o desejo de plantar uvas. Ali mesmo, no seu oásis à beira-mar.

 

por Rachel Verano /// foto Bruno Barata

Arquivos

No quintal

Uma das novidades da região é o restaurante No Quintal, de um casal de São Paulo, o preferido de Joaquim. “Como sempre o mesmo prato, que é muito bom”: filé de peixe com azeite de ervas e puré de raízes, brotos da horta e tomatinhos confitados.

Praia do Toque, São Miguel dos Milagres \\\ +55 82 999 107 078

 

Piscinas

A Rota Ecológica é escoltada por uma das maiores barreiras de corais do mundo, com 130 quilómetros de extensão. Formam belíssimas piscinas naturais de águas transparentes a cerca de dois quilómetros da costa, onde se chega em passeios de jangada. “É perfeito para relaxar e mergulhar”, diz Joaquim.

Saídas da Praia da Laje

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.