João Medeiros, Londres
Cidade infinita, a capital inglesa desdobra-se em camadas sucessivas, eterno mistério por desvendar para João Medeiros, o português que é editor da célebre revista Wired.
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A sedução por Londres despertou uns bons quilómetros a sudoeste da capital britânica. No final do 12º ano, ao mesmo tempo que se inscrevia na Universidade do Porto, João Medeiros decidiu candidatar-se a Southampton. Levou a melhor a opção por Inglaterra, com grande apoio dos pais, apesar de ser filho único. E logo no primeiro contacto com o país, o bichinho pela grande cidade despertou. “Nunca tomei a decisão de vir para Londres, dependia das oportunidades que surgissem, mas desde que estou no Reino Unido sabia que queria mesmo vir para esta cidade”, diz João Medeiros.
Aos poucos, começou a considerar a carreira científica e quando estava no quarto ano de Astronomia seleccionou três universidades para fazer o doutoramento. Havia no entanto uma que se destacava, por lá estar um físico português cujo trabalho admirava. “Ainda estava no terceiro ano quando li o artigo sobre o João Magueijo no jornal Expresso e fiquei mesmo motivado”, recorda. “Gostei da maneira muito diferente como ele vê a ciência.”
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Falou sobre isso com seu tutor de Southampton, que o aconselhou a contactar o cientista por email, dando-lhe conta do seu apreço. Conheceria o investigador português num open day do Imperial College e logo na altura ele o preveniria de que era difícil entrar naquela universidade. “Até me recordo da expressão que usou: ‘É o funil.’” Difícil não significa impossível e foi graças ao doutoramento em Cosmologia que a paixão por Londres começou a expressar-se. “A cidade entusiasma-me. Aqui não há o conceito de pasmaceira e, ainda que isso possa desgastar imenso, o input sensorial faz-nos sentir vivos para o mundo.”
Ao mesmo tempo, surgiram as primeiras dúvidas em relação à carreira de investigador, que se tornaram mais evidentes no terceiro ano do doutoramento: “A ciência é um processo criativo, mas é um processo criativo em que só há uma solução”, explica João Medeiros. “A certa altura questionei-me sobre se as dificuldades me incentivavam a melhorar ou se me deixavam desesperado. E deixavam-me desesperado.”
Perante essa angústia, tornou-se determinante encontrar outro caminho e a escrita pareceu-lhe a melhor resposta. “Sempre escrevi imenso. Cheguei a publicar contos no DN Jovem, um grande incentivo para quem gosta de escrever”, diz João. “E pensei: como é que eu vou fazer disto algum tipo de futuro?”
Salvo pela escrita
Deu os primeiros passos a redigir artigos de ciência para o jornal do Imperial College, muitos sobre Física Teórica, mas também outros mais genéricos, que lhe deram as primeiras noções de jornalismo. “Foi interessante não só ser jornalista, como começar a escrever em inglês – num curso de Física não se pratica muito a escrita”, refere, recordando as dificuldades iniciais. “Esse processo foi um bocado partir pedra.” A sua editora de então foi uma ajuda preciosa, mas sem deixar de o alertar que era quase impossível tornar-se profissional por ser estrangeiro. Não se tratou de um conselho preconceituoso, mas puramente linguístico. “Já é difícil aceitar cientistas que se querem tornar jornalistas, quanto mais não tendo o inglês como língua mãe.”
Ele provaria o contrário. Apesar de ter concluído o doutoramento – que intitulou, “um bocado no gozo”, como The Heart of the Matter, num piscar de olhos ao livro de Graham Greene –, João Magueijo incentivou-o a seguir a escrita. Não havia nenhuma ironia nas palavras do agora seu amigo: gostava do que lia. Não seria o único. Num concurso da conceituada New Scientist, João Medeiros ficou em segundo lugar com um ensaio sobre ciência. “Escrevi sobre a investigação do doutoramento, mas de uma maneira criativa, ficcional até.” Estava dado um passo determinante para conseguir viver da escrita sem ter de sair da sua cidade de eleição.
Conseguiu um estágio na delegação inglesa da revista americana Seed, ainda fez uns artigos como freelancer para a Nature, mas depois iria para Bristol, quando foi contratado como editor da Physics World. No entanto, a vontade de regressar à “cidade cosmopolita” foi-se tornando cada vez mais intensa: “Londres aproxima-nos da actualidade, aproxima-nos de todo o resto do mundo”, conta entusiasmado, “é um microcosmos do planeta Terra, seja qual for o nosso interesse, temos aqui uma lojinha que o vende.”
Sentindo que não podia continuar afastado, tratou de contactar diversas revistas: “Não o fiz com a Wired, de longe a minha favorita, porque achei que seria impossível.” Contudo, uma vez mais, o impossível não o faria tropeçar no percurso. Por incrível coincidência, precisamente na fase em que estava empenhado em encontrar trabalho em Londres, foi a Wired que o abordou – estavam em processo de recrutamento.
“Londres dá-nos imensas oportunidades de realização”, não hesita em afirmar. “Não será tão transparente como nos Estados Unidos, mas é uma meritocracia, mais do que uma aristocracia”, explica João que, desde Outubro do ano passado, aos 29 anos, se tornou o único não natural de língua inglesa a trabalhar na Wired, como editor.
Para trás ficou Braga, com a qual tem uma relação nostálgica: “Jamais me escapará o sabor melancólico daquela terra.” Mas também traduz um eterno retorno ao fim da adolescência. “Lembra-me das minhas ambições aos 18 anos. Tenho uma amiga, a Lia, que faz questão de me lembrar sempre da pessoa que não posso deixar de ser: mediterrânica, latina e portuguesa. É fácil, como emigrante, extraviarmos a nossa identidade.”
E será que Portugal ficou para sempre preso no passado? “Não sei se regresso e vou ficar nesta incerteza quântica ate ao fim.” Palavra de físico – ou será de jornalista?
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por Alda Rocha
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