João Louro – Tratado da invisibilidade

on May 1, 2015 in Embarque Imediato | No Comments

Pintura, escultura, fotografia, vídeo. João Louro usa as línguas que domina para contar uma história do aqui e agora que vai beber ao cinema e à literatura, encontra corpo em coisas de todos os dias e só fica completa com o espetador. Tudo sintetizado em “I’ll Be Your Mirror – poems and problems”, a exposição que leva à Bienal de Veneza como uma canção para desinquietar.

João Louro por/by Kenton Thatcher

Quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, ele respondia: “quero ser surrealista”. Isto numa família em que ser artista era uma veleidade que não assegurava futuro e numa idade em que João Louro nem sequer sabia bem o que era isso do surrealismo. “Achava que era uma festa contínua. Tinha essa intuição da arte enquanto lugar da absoluta liberdade e uma vontade de ser artista que era frágil nas suas bases mas indómita. Para mim não havia plano B”. Uma coisa de tudo ou nada sem raiz aparente, a não ser na rebeldia do miúdo que podia fazer parte do bando de adolescentes do Rumble Fish/Juventude Inquieta de Coppola e que cresceu a educar-se para a arte na Lisboa onde nasceu, em 1963. Travou as suas lutas, estudou arquitetura ao mesmo tempo que se inscrevia no curso de pintura da escola de artes visuais Ar.Co, fez-se à vida. Dava aulas e fazia ilustrações, alugou um espaço em Campo de Ourique e começou a trabalhar “como um operário”. A tal rebeldia sempre conviveu bem com “a pessoa muito disciplinada” que ele também era, mesmo aos vinte e poucos anos. “Trabalhava oito horas por dia, fosse a ler, a limpar o chão ou a fazer obra. Obrigava o meu corpo e o meu pensamento a uma rotina que me trouxe formas de trabalho que ainda hoje utilizo.”

Começou a mostrar obra em Portugal e além-fronteiras. “Há uma altura em que sabes que já não és um amador. Em que dizes ‘sou um profissional disto’, para o bem e para o mal.” Era o princípio dos anos 90 e tudo parecia possível em Lisboa. Inventava-se o mundo a partir do Frágil, o bar de Manuel Reis que juntava vanguardas num Bairro Alto em absoluta transformação, e que se tornou casa, causa e consequência de uma nova geração das artes portuguesas, a que ele pertence; reinventavam-se o jornalismo e as artes gráficas com O Independente, o jornal de Miguel Esteves Cardoso, Paulo Portas e Jorge Colombo, onde ele publicava as suas ilustrações. São exemplos próximos de Louro, dois de muitos num tempo de tudo e do seu contrário, euforia e consternação, os ideais da Revolução de Abril a esmorecerem e o campo das possibilidades a alargar-se, a internacionalização dos artistas a dar os primeiros grandes passos e a Guerra do Golfo a explodir. “Eu sou um pouco filho desse tempo e foi um privilégio vivê-lo. Cada presente tem a sua crise e há que ter a capacidade de tirar ilações. Nós estávamos todos em festa quando apareceu o cutelo da morte.” Esse início e esse tempo foram cruciais para o entendimento de coisas que continuam no centro das obras que cria e na sua postura perante a criação. “A arte é uma tentativa e erro até se conseguir alguma coisa. O que se pede a um artista é que tenha a capacidade de registar o tempo em que viveu. É a minha vantagem sobre qualquer grande artista morto, o Warhol por exemplo. Ele não pode falar do meu tempo.”

Não quer dizer que seja simples, a clarividência que muitas vezes o passado nos oferece – a distância facilita a leitura dos acontecimentos, ou talvez seja a capacidade de ficcionarmos as nossas recordações que é mais completa -, escapa-nos a cada presente. Face ao turbilhão, João Louro escolheu dar um passo atrás e, em vez de acrescentar, retirar. “Há momentos em que estou cansado do mundo como ele existe e isso impele-me não no sentido de o corrigir mas de propor uma outra visão sobre ele. E essa visão passa por esquecer muita coisa, por recusar muita coisa. Um dos primeiros movimentos que comecei a fazer no meu trabalho foi apagar as imagens.”

Boxe, carros e rock&roll

Chamou Blind Images às grandes superfícies negras com legendas que aludem a uma imagem que não se vê (e que a curadora María de Corral, com quem volta a trabalhar agora na representação portuguesa, chamou ao Pavilhão de Itália da Bienal de Veneza de 2005). “Percebi que ter uma imagem apagada com uma legenda por baixo é altamente desafiante e rico do ponto de vista interior. O cérebro não gosta de espaços vazios.” É uma obra que joga com elementos facilmente reconhecíveis – Brigitte Bardot por exemplo, estrela global mas reclusa – e que se mantém crítica e aberta ao espetador. “Aquele vocabulário já está dentro do espetador, eu não estou a colocar lá nada de novo. Não me interessa a BB que tenho na cabeça. Interessa-me é a Brigitte Bardot que está na cabeça das pessoas, é dessa que eu ando à procura. Eu só dou um frame de possibilidade. Quero que o espetador se sinta absolutamente livre para colaborar comigo, não para ser levado pela mão.” Louro usa a pintura, a escultura, a fotografia e o vídeo para contar uma história que vai beber ao cinema e à literatura e encontra corpo em coisas de todos os dias. Parte de elementos do domínio comum e aplica-lhes uma torção. Há algo que os transforma, um conteúdo, uma sobreposição, uma oposição, algo que contraria a leitura natural. “Há uma distorção da comunicação, um momento de curto-circuito. É disso que eu ando à procura, desse curto-circuito mental.” Algo inevitável perante um Jaguar amolgado e sem rodas, folheado a ouro, por exemplo (The Jewel, de 2005), outra ferramenta de eleição. “O automóvel tem uma caraterística fantástica: por si só faz a história de um século da humanidade ocidental. É possível começar num Ford T de 1900 e acabar num Testarossa do ano 2000, e nesse sentido é uma superfície de inscrição, onde cabem também a perigosidade, a velocidade, o desenho, a beleza e a adrenalina. É um elemento fundamental na cosmologia do meu universo.”

É quase irresistível imaginar um dos carros de Louro capotado numa cidade sem automóveis, mas não é essa a história que se quer contar em Veneza. Artista e curadora querem falar da invisibilidade, daquilo que está lá mas não se vê. “O que me incomoda no mundo é a hipervisibilidade, a constante simulação que faz com que sejamos pouco críticos em relação à imagem, que não a consigamos gerir ou digerir e por isso sejamos manipulados por ela. Eu quero contrariar isso. Quero falar do invisível, do que está por trás, do que está escondido, tapado, velado, do espelho”. Lou Reed e os Velvet Underground já tinham o nome para a exposição que ele queria fazer, foi só tomá-lo de empréstimo e acrescentar duas palavras (e as palavras, sempre perigosas, estão no epicentro da obra dele). “I’ll Be Your Mirror – poems and problems” chamar-se-á, e passa por novas obras de três grandes séries de trabalhos de Louro: “Dead Ends”, sinais de trânsito que remetem para obras literárias e para os seus autores, “Covers”, grandes pinturas que representam capas de clássicos da literatura e, claro, as “Blind Images”.

A representação portuguesa em Veneza está a ser preparada no império subterrâneo mas luminoso que João Louro e a equipa ocupam há um par de anos nas antigas instalações da Papelaria Fernandes, em Campo de Ourique, 500 metros quadrados de ateliê com lugar para escritório, oficina e corner de boxe – “é aqui que dou tareia nos curadores”, brinca, enquanto faz a visita guiada pelo espaço, mas a verdade é outra. “As pessoas pensam que o boxe é coisa de arruaceiros mas é uma dança, uma atividade que exige muita disciplina e, sobretudo, um grau de superação muito grande, quer física quer psicológica.” Ele pratica a modalidade há mais de 20 anos e é treinador diplomado. Três fins de dia por semana dá aulas a um grupo restrito de amigos, com vários níveis de aprendizagem. “O boxe traz relações de camaradagem muito fortes, de brotherhood, aqui ninguém bate em ninguém, aprende-se sobretudo a técnica: o movimento de boxe tem que ser treinado e executado muitas vezes para sair fluido e belo.” Há uma Blind Image que alude a um poeta boxeur e, na vida de Louro, há um buldogue francês chamado Lennox, em homenagem a Lennox Lewis, o pugilista que pôs Mike Tyson K.O. antes de se retirar da competição em que se sagrou campeão do mundo de pesos pesados e medalha de ouro olímpica.

texto Maria João Guardão foto Kenton Thatcher

Arquivos

Jogo de Espelhos

A próxima Bienal de Arte de Veneza ambiciona apenas Todos os Futuros do Mundo / All the Worls’s Futures – tema central lançado por Okwui Enwezor, o curador nigeriano que assume a direção artística desta edição 56. João Louro (e a comissária María de Corral) responde ao desafio com “I’ll Be Your Mirror – poems and problems”, proposta feita quase por inteiro de novas obras que percorrem séries carismáticas do artista. A representação portuguesa mostra-se no Palácio Loredan, de 9 de maio a 22 de novembro. João Louro é representado em Lisboa pela Cristina Guerra Contemporary Art, e em Los Angeles pela Cristopher Grimes Gallery, e as suas obras integram algumas das mais importantes coleções de arte nacionais e internacionais.

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