João Carlos Silva, são-tomense

on Apr 1, 2015 in Embarque Imediato | No Comments

Nascido e criado nas roças de São Tomé, João Carlos Silva correu mundo e este trouxe-o de volta à terra que o viu nascer. A cara do programa de culinária Na Roça com os Tachos é também uma referência na arte e cultura são-tomense. 

João Carlos Silva por/by Paulo Barata

O gosto pelos tachos está-lhe no sangue. O gosto pela cultura, as artes, as letras, a história e o património cresceu com ele. João Carlos Silva é um homem de muitas paixões e de muitos projetos. Fundador e mentor dos espaços culturais Teia de Artes e CACAU, presidente da Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe, cara de programas de culinária como Na Roça com os Tachos e Sal na Língua, alma e coração da roça de São João, pousada dedicada ao turismo gastronómico, cultural e ambiental. João Carlos é tudo isto e mais um par de botas.

Nascido em 1956 na roça Augusta, em São Tomé, mudou-se para a roça Gratidão com cinco anos. “A Gratidão marcou muito a minha vida, não só porque foi um momento muito bonito da minha infância, mas também porque foi lá que conheci o feitor Amílcar Silva, homem acima do seu tempo que me incutiu o gosto pelos livros e pela poesia”, diz ele. Da Gratidão, João Carlos saiu para a capital e passou pelo restaurante do pai, o Teia de Aranha, onde o gosto pela combinação de sabores se instalou nele. Saltitar de um lugar para o outro foi coisa que também ficou.

Em 1976 João Carlos saiu do arquipélago para descobrir o continente. Da passagem por Angola, “que era para durar 15 dias e acabou por se cifrar em oito anos” ficam os tempos de escola – o curso de Letras e também as primeiras incursões pelas matérias do Direito – e os amigos que fez, “mas, sobretudo, o ter podido conhecer novas realidades africanas”. Angola foi a sua primeira segunda terra, Portugal veio depois e roubou-lhe o título.

No começo dos anos 80, o jovem são-tomense chegou a Coimbra para estudar Direito, curso que nunca acabou. Como tantos outros estudantes que passaram por Coimbra, a escola da vida acabou por levar a melhor. “Fui um boémio activo, assumido e consciente. Envolvi-me com o academismo, organizei muitas festas, comezainas e tertúlias. Passei muito tempo no Grémio Operário e no Ateneu 25 de Abril a ouvir Zeca Afonso, José Mário Branco e outros da música popular portuguesa, participei nas festas da Academia e passei pela Clepsidra [cooperativa de estudantes ligados às repúblicas e ao associativismo]”. Na cidade dos estudantes, diz de boca cheia, “aprendi a ser irreverente e solidário e vi com outros olhos a manta de retalhos cultural que era a cidade, naquela época grande ponto de encontro de estudantes dos PALOP”.

Para mudar de ares, João Carlos foi até Lisboa, onde começou a trabalhar como jornalista para o Triângulo – jornal dedicado à cooperação entre África e Europa. Pelas mãos do luso-são-tomense Fernando Macedo Ferreira, o seu “guru espiritual”, entrou no círculo de Natália Correia e Alda Ferreira, no bar Botequim, e também no circuito nocturno africano, primeiro no Bana, depois no B. Leza. “Em Lisboa casei a cultura portuguesa com a africana.”

O virar do milénio marcou o reencontro de João Carlos com a sua terra natal, à qual chegou cheio de sonhos e ideias. Transformou o velho restaurante do pai, no Teia de Artes, escola de arte onde se formaram muitos novos artistas são-tomenses, pôs em marcha a Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe e fundou a CACAU, associação cultural e espaço multidisciplinar onde várias artes se encontram à vez.

Em 2005, João Carlos estreou-se na televisão com o primeiro (e mais famoso) de vários programas de culinária que viria a apresentar. Em Na Roça com os Tachos, andou com os tachos às costas pelo arquipélago a apresentar receitas, a contar histórias, a falar de livros e de música. O programa mudou-lhe a vida, garante ele: “Nos últimos dez anos investi muito na gastronomia, essa forma de arte efémera”. A Roça São João (ver caixa), a sua roça transformada em pousada gastronómica, é um laboratório. Entre outros projetos, como as hortas temáticas, “estamos agora a implementar uma escola de gastronomia onde, casando culinária e cidadania, vamos formar jovens locais”, diz.

Apesar de estar de pedra e cal em São Tomé há já uns anos, João Carlos volta a Portugal sempre que pode. Gosta de ver como Lisboa mudou nos últimos dez anos: “está ainda mais menina e moça”. Gosta de se perder pelo Chiado, onde tem o seu escritório português, e também por Alfama e pela Mouraria, ponto de encontro de cores e perfumes de todas as partes: “Lisboa é mestiça, sempre foi e sempre será”. O Alentejo começa agora a crescer dentro dele: “Descobri-o em duas fases, primeiro o litoral, depois o interior. Enquanto fiz o programa Produtos da Terra para a RTP África conheci o Alentejo e o Algarve profundos e apaixonei-me, pelo Alentejo, casa das ervas aromáticas, especialmente”. E Coimbra, essa, será sempre especial.

por Maria Ana Ventura foto Paulo Barata

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No forno

As Ilhas do Meio do Mundo será o novo programa de João Carlos Silva. Redescobrir gentes, sabores, histórias e identidades locais é o objetivo: “São Tomé e Príncipe é um dos lugares mais belos do mundo e temos a obrigação de mostrar isso mesmo, e também a grandeza da nossa felicidade interna bruta, e mostrar os lugares, as gentes, os sorrisos, a história, o património, as famílias, as relações de sangue com os povos da nossa subregião”. Um dos episódios levará de volta à terra natal o pintor Almada Negreiros, que nasceu nas ilhas do meio do mundo – alcunha do arquipélago: “Almada, personificado pelo ator João Grosso, voltará a São Tomé a bordo de um avião da TAP com o seu nome”. Um livro de receitas é outro dos projetos que está no forno.

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