Joana Carneiro – Ouvir o mundo

on May 1, 2010 in Embarque Imediato | No Comments

É uma mulher livre de olhos grandes, doces e aventurosos. Joana Carneiro, 33 anos, é um ser feminino que se apropria de toda a força que o universo pode entregar. E o universo parece entregar-se a ela quando está a dirigir uma orquestra.

Aos nove anos disse, pela primeira vez, que queria dirigir orquestras. Para que não esquecesse o sonho, o padrinho ofereceu-lhe uma batuta no ano seguinte. Mas não era preciso. Os encorajamentos foram tantos e a confiança da família no projecto foi tão grande que o sonho se perdeu para se materializar em projecto de vida, desde a adolescência. Mesmo com as aulas de bailado pelo meio e as metas para entrar em Medicina.

Linguagem musical
Ouvir Joana a falar da música, dos compositores, das partituras que estuda com uma reverência respeitosa por quem a compôs, é absorvente. Ela respira música. Começou a ter formação aos seis anos – tanto ela como os oito irmãos. Na casa da família, essa aprendizagem era tão importante como a matemática, a língua portuguesa ou qualquer outra disciplina do currículo pedagógico. A orquestra é o seu instrumento. Mas começou por tocar viola de arco.

Escutar música é uma construção do outro, uma maneira directa do ser humano se superar na sua materialidade e revelar o espírito e a sensibilidade inerente ao facto de sermos, homens e mulheres, sensíveis. Quando estava na Academia Nacional Superior de Orquestra dirigiu, aos 18 anos, o primeiro concerto: com a primeira sinfonia de Beethoven. “Senti uma grande alegria, como quando uma pessoa tem uma expectativa muito grande para fazer uma coisa e a faz”. Não se lembra bem de como a orquestra soou, “mas lembro-me fisicamente de o fazer. E lembro-me de pensar que estava finalmente a pôr em prática os gestos que tanto tinha ensaiado sozinha, à frente do espelho, no ar… finalmente ter um instrumento à minha disposição – era assim que eu o via – finalmente ter um instrumento que eu posso tocar, depois de tantos meses a ensaiar este gestos”.

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O poder do gesto
Ser maestrina é uma incumbência de liderança. Joana já aprendeu que essa liderança não é efectiva sem a humildade do acto de escutar e sentir integralmente. Para que os músicos da orquestra recebam essa humildade e executem a partitura da forma mais honesta. Para a maestrina Joana Carneiro todo o acto de dirigir uma orquestra “é uma relação de grande responsabilidade; é ir ao encontro daquilo que é o desejo de um compositor, aquilo que é a imaginação de alguém que reflectiu sobre o que sentia ou o que observava e o escreveu, através da linguagem musical”. O seu trabalho é o veículo dessa clarificação, “é aí que eu concentro toda a minha energia. É a única coisa que eu consigo controlar, no limite. É a minha preparação, o meu empenho em servir a música através desse serviço, pelo compositor. E o resto é forma”. Ela estuda as partituras de Chostakovich, Brahms, Ravel, Debussy, Schumman, Mahler, Beethoven, Mozart… vê-se logo que, estamos perante uma mulher romântica, guerreira, metódica e forte.

Joana Carneiro está, igualmente, ao lado dos compositores vivos. É essa energia que ambiciona, como pessoa optimista, positiva e cheia de esperança. Ao trabalho sobre os compositores clássicos, junta-se a energia da linguagem contemporânea de um autor como John Adams (norte-americano de 63 anos ligado à música minimalista, recebeu o Prémio Pulitzer de Música em 2003), ou como Du Yun (compositora chinesa de 33 anos, nascida em Xangai e a residir em Nova Iorque), ou Enrico Chapela (mexicano, 36 anos, com formação em música electro-acústica, um dos nomes mais desejados da música contemporânea mexicana).

No meio de atmosferas sonoras tão distintas, Joana identifica a percussão como o grupo de instrumentos que melhor tem sido aproveitado para os diálogos musicais do nosso tempo. Para além de reconhecer uma capacidade de inovação em toda a gama de instrumentos (de sopro, cordas e teclas), potenciada pelas evoluções tecnológicas: “Os compositores têm procurado explorar os limites de cada instrumento, mesmo os que já existem há muito tempo. As possibilidades técnicas e de invenção são infinitas, nos tempos em que vivemos. E a música reflecte isso claramente. Existe até um compositor com quem tenho trabalhado, chamado Paul Thresher, de Berkeley, conhecido por inventar instrumentos e escrever peças para orquestras com esses instrumentos”.

A imaginação técnica potenciada a expoentes não vislumbrados em séculos anteriores, a facultar a capacidade infinita da imaginação humana. Joana Carneiro está a construir esse caminho, nomeadamente com o trabalho à frente da Orquestra Sinfónica de Berkeley, nos Estados Unidos, cuja direcção assumiu no princípio do ano passado.

Joana está convencida de que não poderia ter encontrado orquestra mais adequada aos seus projectos do que a de Berkeley. A cidade com o mesmo nome, na costa oeste dos EUA, tem reputação mundial ao nível académico e artístico. Ali se vivem as actualidades no campo da investigação científica e a liberdade criativa no campo das artes. Joana está feliz por fazer parte de uma comunidade que pretende discursos inovadores, desafios artísticos e personalidades destemidas. Ali tudo é possível e, ao fazer parte de um grupo que está à espera der ser surpreendido, Joana não poderia ter encontrado ambiente mais generoso.

O trabalho da Sinfónica de Berkeley passa pelo estabelecimento de uma relação sólida entre música contemporânea e não contemporânea, e por investir nas relações com compositores vivos: “Temos de trazê-los para a nossa comunidade; e são compositores com estéticas musicais completamente diferentes. Berkeley tem essa capacidade de, no mesmo concerto, ter um compositor como Messiaen e uma compositora chinesa como Du Yun e, na segunda parte, executar uma sinfonia de Beethoven”. Do ponto de vista artístico, a jovem maestrina não tem dúvidas, “é o paraíso!”.

Estado de liberdade

O mundo operático é a verdadeira escola de Joana Carneiro. Porque incorpora o trabalho de direcção de orquestra com a encenação, a dramaturgia e o diálogo com os cantores no espaço cénico. Todos os componentes reunidos num espectáculo, a estabelecerem uma outra relação entre a palavra e a música, ou aquilo a que Joana chama “uma recriação total da experiência humana”.

É uma mulher que se sente totalmente livre naquilo que faz. Liberdade que conquistou desde muito nova. Numa família com oito irmãos, cada filho era um filho único. Reconhece aos pais a atenção e o respeito que souberam transmitir-lhe, no relacionamento com os outros; não esquece também o entusiasmo com que sempre receberam os seus projectos de vida e a acompanharam. “Eu falo muitas vezes de ter sido aos 9 anos que disse pela primeira vez que queria dirigir uma orquestra, mas é mais profundo. Durante a minha adolescência, continuava a dizer que era isso que queria fazer e ouvi sempre dizer que se era mesmo isso haveria de o conseguir, ainda que fosse um mundo eminentemente masculino”. Nem alguma vez pensou que se tratava de uma profissão difícil. Era, simplesmente, aquilo que queria fazer e sempre lhe foram dadas todas as oportunidades, materiais e afectivas, para chegar lá.

Quando, aos 19 anos, surgiram as questões relacionadas com a forma como se sentia numa profissão “de homens”, Joana já navegava há tanto tempo num estado de liberdade, que era demasiado tarde para equacionar sequer uma resposta.

Melodia dos nossos dias
Para a jovem maestrina portuguesa, a música é um campo cheio de conhecimento e, simultaneamente, com muita variedade afectiva, pois “é possível encontrar compositores com linguagens e estéticas, com afectos e reflexões sobre as diferentes culturas que temos no mundo, com uma profunda variedade”. Os compositores sempre foram pessoas atentas ao que acontece na História dos homens e das mulheres. Joana refere, nomeadamente, a obra On The Transmigration of Souls, de John Adams, sobre os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, ou a peça que dirigiu recentemente sobre os acontecimentos de Tiananmen, em Pequim, em 1989. A música dos nossos dias valoriza a diversidade cultural, por isso Joana considera “que vivemos uma época muito rica, em termos de composição musical”. Capacidade que as evoluções tecnológicas e comunicacionais vieram acentuar – nomeadamente a Internet, que permitiu democratizar a experiência musical. Desta forma, Joana considera que a música contemporânea está mais acessível e, por isso, é menos elitista.

O papel dos maestros e dos músicos é recriar o que já foi imaginado por um compositor, “clarificar através de sons físicos e da nossa sensibilidade aquilo que já foi criado e imaginado por alguém. Portanto, nesse sentido, sou uma recriadora”, diz Joana. Quando estuda uma partitura, antes de a ensaiar e dirigir num concerto, é fundamental o trabalho de pesquisa – para além de aprender todas as notas e a linguagem musical que lhe é apresentada, procura ir de encontro à imaginação do compositor. Tem de se envolver na época e na vida do artista, e conhecer as razões pessoais que o levaram a escrever aquela partitura em particular. Na sala com a orquestra, para além dos sinais técnicos que os músicos reconhecem e esperam de um maestro, existem os sentimentos: “O ideal será eu poder transmitir a música, e também o sentimento da música, com o meu corpo”.

É uma profissão solitária, a de Joana. Por isso é tão importante o contacto com os mentores. São os únicos membros da comunidade musical que podem, de facto, estar ao lado de um maestro/maestrina: “podem ir aos nossos concertos e ensaios, nós dialogamos com essas pessoas, mostramos os nossos vídeos, fazemos as nossas perguntas”. Sem a larga experiência dos músicos há mais tempo nesta vida de composição, interpretação e direcção de orquestras, Joana sentiria muito mais dificuldade a desempenhar, confiante, os cargos que a carreira lhe tem apontado. A maestrina olha para eles como mestres, professores com quem estabelece relações que partem do respeito e admiração profissional. E a eles recorre, quando tem alguma dúvida ou alguma decisão relevante a tomar.

A longevidade é característica própria da profissão de maestro. Joana Carneiro está, portanto, no início, tendo a noção clara dessa condição: “A possibilidade de exercer esta profissão durante muito tempo também nos permite que a maturemos. Até aos 50 anos, somos considerados jovens maestros”. Enquanto o futuro assoma à janela, Joana goza a juventude da sua profissão. Ela vai continuar atenta à música que nos fala da actualidade das nossas vidas ou, por meio de outras melodias, à criação do mundo em que vivemos.

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por Cláudia Almeida

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