ISQ – O céu não é o limite

on Mar 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Dos desertos do Chile ao planeta Marte, o Grupo ISQ é uma das mais espantosas empresas de controlo de qualidade a operar na engenharia civil e na indústria aeroespacial, e mais num sem-fim de produtos.

Esta conversa mistura foguetões, pontes, alfaces, oleodutos, drones, energia das estrelas e satélites. Também inclui balanças de supermercado, reatores nucleares, telescópios gigantes e bombas de gasolina. É este o universo do Grupo ISQ, que, sem nós sabermos, está praticamente em todos os nossos gestos diários. É aquela empresa que até há pouco tempo teve o aborrecido nome de Instituto de Soldadura e Qualidade, que poucos sabem o que é, mas ninguém pode passar sem ela. “Somos a entidade que garante que um conjunto de procedimentos se desenrola de acordo com os padrões definidos em Portugal e no mundo”, resume Pedro Matias, o presidente do grupo.

Além de garantirem a manutenção e segurança da Ponte 25 de Abril, que liga as duas margens do Tejo, entre Lisboa e Almada, asseguram que o litro de gasolina que compramos numa bomba é de facto um litro, que o seu telemóvel não entra em conflito com a antena do carro, que os foguetões que a Agência Espacial Europeia (ESA) envia para o espaço a partir da Guiana Francesa não correm o risco de explodir. Também há técnicos do grupo ISQ no topo do monte de Cerro Armazones, no Deserto de Atacama (Chile), no local onde o Observatório Europeu do Sul (ESO) está a construir o maior telescópio ótico e de infravermelhos do mundo, o European Extremely Large Telescope (E_ELT). “Vai permitir ver para além das estrelas”, diz Pedro Matias.

Criado em 1966 como Instituto de Soldadura, com o objetivo de ser complementar ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e trabalhar na área das estruturas metálicas, evoluiu para se transformar “na maior infraestrutura tecnológica do país”, como lhe chama Pedro Matias. E porquê infraestrutura tecnológica? “É a diferença para uma empresa que só presta serviços. Anualmente desenvolvemos muitos projetos de Investigação & Desenvolvimento (I&D) para estarmos permanentemente atualizados do ponto de vista das metodologias, processos, para depois podermos aplicar à indústria.”

A sede do Grupo ISQ, no lado noroeste do Taguspark, parque de ciência e tecnologia a poucos quilómetros de Lisboa, reúne a maioria dos laboratórios da empresa. Aqui se testam produtos alimentares, antenas de automóvel, telemóveis, micro-ondas, a resistência dos mais diferentes materiais, ou até a qualidade da água. “Temos 16 laboratórios acreditados que permitem prestar serviços à indústria. São laboratórios muito caros, que as empresas não conseguem manter por si, porque exigem todos os anos um conjunto de certificações nacionais e internacionais.”

Com capacidade para prestar mais de 250 serviços diferentes, torna-se difícil manter o rasto à quantidade de empresas participadas pelo ISQ – no final do ano passado eram 36, das quais 19 em Portugal e 17 no estrangeiro, mas há uma explicação: “Vamos criando empresas e marcas próprias para prestar serviços com os quais os clientes se identifiquem, porque o tal Instituto de Soldadura e Qualidade às vezes é difícil de perceber”, refere Pedro Matias. É por isso que existe a dBwave.i, para serviços na área da acústica e som, a Labiagro, para as áreas química e agroalimentar, ou a Bluestabil e a QCPharma, que trabalham para a indústria farmacêutica, por exemplo. Ao todo, trabalham em 15 setores, indo da indústria automóvel, à área da energia, saúde, biotecnologia, petróleo e gás, transportes e mobilidade, e empregam 1400 pessoas. “Só no estrangeiro temos 600 colaboradores a vender engenharia portuguesa.” Internacionalizar a empresa foi, desde os anos 80, uma questão de sobrevivência: “Não conseguíamos trabalhar só para o mercado nacional”, diz Pedro Matias, que comanda uma empresa que está em mercados como a China, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Timor, Brasil e Noruega.

Com uma forte aposta na I&D, trabalham lado a lado com universidades, não só portuguesas, e centros tecnológicos. No total, o grupo já esteve envolvido em mais de 400 projetos de I&D, envolvendo-se com mais de 1200 parceiros nacionais e internacionais.

 

A caminho de Marte

Um dos mais recentes projetos do ISQ pretende colocar uma pegada portuguesa em Marte, por via do projeto da ESA. Com a coordenação da Amorim Cork Solutions, e em parceria com o Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP) e a Critical Materials, o ISQ está a desenvolver escudos térmicos de cortiça que serão usados para proteger amostras do solo, e outras, recolhidas no planeta vermelho. Além de ser leve, a cortiça é resistente ao calor e ao fogo, o que a torna num material ideal para economizar combustível e ultrapassar as elevadas temperaturas de reentrada na atmosfera. “O Laboratório de Aeronáutica e Aeroespacial de Castelo Branco permite-nos simular as condições quase reais do regresso à Terra, a uma velocidade de 300 km/h, primeiro com temperaturas superiores a mil graus, depois a temperaturas negativas.” O projeto foi validado pela ESA, que tem missões marcadas para 2020.

No espaço, o ISQ parece peixe na água. Há mais de uma década que a empresa marca presença na base aeroespacial de Kouru, onde está localizado o centro de lançamento de foguetões da ASE. Os satélites e foguetões chegam à Guiana Francesa em peças e cabe a uma equipa de dez engenheiros portugueses, que lá estão “em permanência a fazer o controlo de qualidade da assemblagem dos foguetões e satélites”, diz Pedro Matias, explicando que está em curso um projeto para que todo o processo passe a ser feito através de realidade virtual e aumentada. “Aquilo é muito avançado e ao mesmo tempo muito conservador. Eles estão disponíveis e abertos à mudança, mas sempre de uma forma muito consolidada, por questões de segurança.” Nos próximos tempos, haverá duas equipas do ISQ a trabalhar; além dos técnicos habituais existirão outros “segregados” que vão estar a fazer o mesmo com novos métodos. “Depois vamos comparar isto durante meses para confirmar que bate certo, até que um dia poderão substituir os processos anteriores.”

Pedro Matias sabe que o ISQ está sentado numa galinha de ovos de ouro e que a experiência adquirida em Kouru é essencial. “O aeroespacial tem hoje um interesse enorme porque o crescimento é exponencial. Antigamente havia as grandes agências públicas, sobretudo para atividade científica, mas hoje temos a Google, Amazon, Uber, todas estas entidades que precisam cada vez mais de satélites para comunicar, gerir e fazer a análise de grandes quantidades de dados.” O ISQ é ainda uma das 20 empresas e organismos que estão a desenvolver o Infante, o primeiro microssatélite totalmente desenvolvido e construído em Portugal. É verdade que em 1993 tivemos o PoSAT, mas neste caso tratou-se de um projeto de transferência de tecnologia. “Se o projeto resultar, vamos começar a vender satélites a qualquer entidade, além de nos capacitar num conjunto de competências e tecnologias que nos permitem prestar serviço a outras empresas que produzam satélites.”

 

Transformar inovação em produtos

Dos vários laboratórios espalhados pelo país – Vila Nova de Gaia, Castelo Branco, Loulé e Sines – e no campus do ISQ em Oeiras, saíram já uma série de produtos que estão em fase de comercialização. Em Castelo Branco, por exemplo, a Grow to Green, empresa do grupo ISQ em parceria com a Aralab, trabalha para pôr a tecnologia ao serviço da agricultura sustentável. Sem uma gota de pesticidas e muito poucas de água, está a cultivar alface, rúcula, agrião ou ervas aromáticas, entre outras coisas de folhas verdes, através de um sistema de agricultura vertical estanque em câmaras climáticas. “Estas câmaras podem ter o tamanho de um micro-ondas, de uma máquina de lavar ou de um apartamento e o nosso objetivo é vender a tecnologia, por exemplo nos Emirados Árabes Unidos. Isto permite produzir alfaces no deserto!” Para já, as alfaces da Grow to Green podem ser comidas nas saladas preparadas na Manteigaria Silva, no Time Out Market, em Lisboa.

A pensar na qualidade do espaço em que vivemos e trabalhamos, os técnicos do grupo construíram uma aplicação que permite monitorizar e mapear, em tempo real, a qualidade do ar, ruído e tráfego, seja numa cidade, num parque industrial, num aeroporto ou numa fábrica. “Já existem estações da Agência Portuguesa do Ambiente, mas que são do tamanho de contentores. Isto é uma caixa do tamanho de um portátil que se pode colocar em qualquer lado e ainda é low cost.” A aplicação chama-se QART e leva o nome da empresa criada pelo ISQ para este segmento de mercado.

Existem outros projetos a pensar no ambiente e na sustentabilidade. Há “o Santo Graal da produção energética”, o Reator de Fusão Nuclear do ITER, que transformará hidrogénio em hélio, um projeto colaborativo que envolve 35 países. Ao ISQ cabe o controlo da qualidade da assemblagem das peças e mais recentemente ganhou o concurso para gerir e realizar a formação e qualificação de peritos e técnicos do projeto.

isq.pt

 

por Hermínia Saraiva

Arquivos

Números

1400 /// trabalhadores em todo o mundo

25 /// países com presença ISQ

36 /// empresas participadas

16 /// laboratórios certificados

€43.400.000 ///  faturação em 2017

€2.000.000 /// lucro

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.