Ir à bica

on Mar 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

A celebração da arte do espresso português por um dos nossos melhores escritores.

Descia uma ruela de Ebisu quando reparei num café pouco maior do que a largura da porta, com uma máquina de café monumental a dar para a montra. Como boa bica em Tóquio é fenómeno raro, de imediato dei por mim ao balcão a pagar por uma curta, mas não muito. Não tinha esperança que o moço do outro lado do balcão percebesse o meu pedido em português. Era uma ladainha que repetia a abençoar a cerimónia e que nunca funcionara na terra do chá.

O moço prensou o café mais do que o necessário, encaixou o manípulo na cabeça da máquina, carregou no botão e um fio castanho-escuro com veios mais claros começou a escorrer. Percebi pela cor e pela espessura que não era lote torrado à bruta. Vinha ali uma senhora bica com a mesma categoria das nascidas e criadas em Portugal. O moço parou no volume exato e serviu-a numa chávena que não insultava ninguém, muito menos o café. Girei o café dentro da porcelana duas vezes e bebi a primeira metade. Fiz uma vénia de agradecimento e o moço aproveitou para me dizer que não podia ficar ao balcão. As regras da casa exigiam que o consumo fosse efetuado numa das mesas. Sorri mais uma vez e a seguir à segunda vénia tentei explicar-lhe que o que nos unia não era uma malga de café qualquer. Era uma bica. E a bica é a rainha do menu, pode mover-se como quiser e quando decide deixar-se ficar ao balcão tem todo o direito de não se mexer. O seu estatuto real começa na sua receita de génio. Água e pó esmagados numa luta de alta pressão que acaba em dedo e meio de ouro líquido preto que delicia o paladar e todos os outros sentidos.

A bica dá início aos dias e termina as refeições. Antes dela tudo o que fazemos é uma corrida sonâmbula para chegar ao café, e se não for decente não há iguaria que sobreviva. A bica cura as dores de cabeça, a preguiça e as maleitas mais ruins.

A bica é um sítio onde vamos. Vamos à bica fazer declarações de amor, fechar negócios, vamos à bica para nos despedirmos para sempre. Vamos à bica quando não sabemos para onde ir.

E a bica pode ser bebida de pé, sentados, deitados, só não pode ser consumida em movimento em copo de papel. Porque quem não tem tempo para ficar quieto de volta dela dificilmente a merece.

Sem perceber o que lhe continuava a pregar, o moço entrou em pânico e serviu-me outra, ainda mais esmerada do que a primeira. Paguei, veneei e recolhi-me a uma das mesas que ele me indicara no início. Ele veneou de volta com um sorriso de paz. A ordem voltava ao seu balcão. Não percebi o que me disse em japonês, mas disse-lhe de volta que quem tirava um café tão bom devia ir à bica em Portugal.

 

por Ricardo Adolfo

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Ricardo Adolfo



Escritor português baseado em Tóquio. Autor de Os Chouriços São Todos para Assar, Mizé – Antes Galdéria do que Normal e Remediada, Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas, Maria dos Canos Serrados e Tóquio Vive Longe da Terra.

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