Intimidades

on Sep 3, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

Parte do meu trabalho enquanto jornalista é fazer entrevistas, sobretudo a escritores. Muitas acontecem em jardins, cafés, restaurantes, nas editoras onde publicam ou em gabinetes de universidades. Mas a maior parte é feita em casa dos entrevistados, por sugestão deles. Entro nesses espaços íntimos com a noção de que esse meu ato – o de entrar em casa de alguém que não conheço – decorre de outro ato: o da generosidade de quem me abre a porta e confia no estranho que ali vem. A relação que aí se inicia tem por base um pacto tácito ente duas partes: alguém que se está a expor e alguém que está a observar, cada um no seu próprio e distinto desconforto. O objetivo desse encontro é uma entrevista e o pacto é um pacto de respeito mútuo. Revelar, por exemplo, que há louça por lavar na cozinha será talvez uma intrusão a não ser que isso seja relevante na conversa. Visto de fora, há duas pessoas tacitamente a medirem-se até chegarem a um ponto de conforto, o que não acontecia da mesma maneira num lugar impessoal, e a conversa decorrerá de acordo com o modo como um e outro se forem sentindo mais ou menos confortáveis até ao desejável momento em que o espaço passe a ser secundário, em que aquele que o expõe deixe de se sentir observado e o que observa não se sinta intruso e, por isso, não se constranja.

No dia em que o escritor James Salter me foi esperar ao autocarro da pequena cidade onde vivia, em Bridgehampton, nos Hamptons de Nova Iorque, e me conduziu, a dias de fazer 90 anos, no seu velho Saab à vivenda onde morava, a primeira coisa que me apresentou foi a cozinha, dando-me acesso a uma parte da sua vida que eu desconhecia: o seu amor à comida, às conversas à mesa, a todo o ritual que envolve comida. Nesse gesto, ele soube que eu não podia deixar de mencionar no meu artigo a bela coleção de panelas de cobre e porcelanas que cobriam as paredes de uma área iluminada pela luz de uma manhã de chuva. Mantenho vivo o reflexo da claridade na jarra de estanho que havia na mesa. Só depois ele foi para a poltrona onde passava as tardes a ler. Ali, falámos de quase tudo: da escrita, da guerra onde combateu, da Grécia que o inspirava, dos clubes de Nova Iorque, de comida.

Entrar na vida de Salter, durante umas horas, pela cozinha, foi a maneira de ele me dizer que eu podia estar à vontade, que não me intimidasse por estar nos domínios de um dos mais venerados escritores americanos. Um mês depois, ele morria e a luz no estanho da jarra, como a penumbra da poltrona que naquele dia lhe desenhava o perfil, ganharam lugar eterno na minha memória.

Também não esqueço o gato de Jennifer Egan, à janela da sala onde ela escreve em cadernos, à mão. Estavam ali, abriu-os para que eu pudesse ler o princípio de cada livro, e todo o material de pesquisa que a levou até ao romance Manhattan Beach. Havia chá e bolos que ela serviu. E o chá e os bolos também na sala de E. L. Doctorow porque ele teve pena de mim. Recebeu-me com as mãos dele nas minhas e as minhas estavam geladas e quis que eu recuperasse de uma temperatura de 15 graus negativos.

Estas coisas contaminam as conversas? Pelo menos o modo como elas decorrem. Com a ilusão de, ao acedermos a esse mundo íntimo, privado, ficarmos um pouco mais próximos do mistério da criação. Como se a casa, ou alguém em casa, tivesse esse poder. Há uns dias, o escritor brasileiro Sergio Sant’Anna tinha bolinhos de queijo, vinho e fruta, uma mesa posta, e apontou-me uma cadeira de frente para janela por onde todos os dias lhe entra o Cristo Redentor. “Acho que ele está sempre de olho em mim”, diz, meio irónico, meio sério, vá-se lá saber.

 

por Isabel Lucas

Arquivos

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.