Instituto Gulbenkian de Ciência – Sabedoria e saúde

on Apr 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

O trabalho do Instituto Gulbenkian de Ciência é de alcance mundial. Contribui há mais de 60 anos para a investigação na área da biologia e da biomédica. Entre muitos projetos, desenvolveu um modelo que prevê epidemias de gripe.

Ana Domingos descobriu que a nossa gordura é controlada por várias partes do corpo que falam entre si e que a comunicação entre os sistemas adiposo, nervoso e imune controla o aumento ou perda de peso, abrindo caminho para novos fármacos que controlem a obesidade. O grupo de investigação de Luís Teixeira percebeu que existem bactérias benignas que conduzem à imunidade contra a malária, que as moscas da fruta produzem os seus próprios probióticos e que é possível substituir mosquitos portadores de dengue ou malária por mosquitos saudáveis. Já no laboratório de Miguel Ferreira descobriu-se que alguns órgãos envelhecem primeiro do que outros e agora trabalha-se para tentar perceber se o envelhecimento é comunicado entre as células e, se sim, como é possível preveni-lo.

Estes são apenas três exemplos, entre os mais recentes, do que há mais de 60 anos acontece no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, a cerca de 20 quilómetros de Lisboa. Aquilo que se faz aqui é investigação pura em biologia e biomédica e tem contribuído para levar o nome de Portugal aos meios científicos de excelência mundial. Mónica Bettencourt Dias, bioquímica e bióloga celular, que é, desde há um ano, diretora do IGC, explica que existem variáveis que permitem medir o sucesso do instituto: o número de decisores e investigadores que deu ao mundo, as descobertas publicadas nas mais relevantes revistas científicas e o financiamento que os seus cientistas conseguem angariar para Portugal.

Por estes edifícios, construídos em 1967 junto ao Palácio do Marquês de Pombal e rodeados de árvores, já passaram nomes como Maria do Rosário Sambo, ministra da Ciência de Angola, Maria de Jesus Trovoada, ex-ministra da Saúde de São Tomé e Príncipe, mas também os diretores do Instituto de Medicina Molecular, o diretor do centro de doenças crónicas da Faculdade de Ciências Médicas, a diretora de comunicação do CERN, na Suíça. O IGC foi ainda casa da Fundação Champalimaud, do Centro de Doenças Crónicas e do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB). “Também incubamos instituições.” A Fundação Champalimaud, por exemplo, trabalhou durante quatro anos em Oeiras antes de estar terminado o edifício-sede, em Algés. Nos últimos 20 anos, o IGC recebeu um total de 88 grupos de investigação, dos quais 44 já estão em outros centros de pesquisa, ficando 28 em Portugal.

Incentivando um modelo de funcionamento em espaço aberto, com os laboratórios em grandes salas divididas por bancadas de trabalho, o IGC promove a comunicação e intercâmbio entre os diversos grupos. “A grande mais-valia são os muitos projetos que saem dessa interação. É muito comum termos estudantes de doutoramento partilhados por diferentes grupos.” É o caso da própria presidente, que partilhou estudantes com quem só faz teoria. “Faço experimentação em laboratório e, às vezes, precisamos de modelos teóricos para conseguir pensar melhor a investigação. São pessoas que vêm mais do foro da matemática ou da computação.”

 

O mundo todo

O sucesso também se mede pelo número de investigadores que procuram o IGC. Na última chamada lançada “concorreram 220, 70% dos quais estrangeiros, e vieram 16 pessoas a entrevista”. Nem sempre é um processo fácil, nomeadamente pela irregularidade de financiamento estatal que existe em Portugal. “Essa é uma das razões que dificulta a fase de negociação, porque são pessoas que têm ofertas de outros sítios muito competitivos.” Uma situação que o IGC procura contornar por via do mecenato da Fundação Calouste Gulbenkian, que responde por cerca de 40% de um orçamento anual na ordem dos €14,2 milhões “Apesar de ser generoso, e de termos a sorte de ter a Gulbenkian por trás, é um orçamento relativamente pequeno quando comparado com outras instituições estrangeiras. Temos que ser realmente criativos e sobretudo conseguir ir buscar muito dinheiro lá fora.” Nos últimos cinco anos celebraram mais de 120 contratos de financiamento nacionais e internacionais, num total de €22 milhões, valor que se soma aos prémios e bolsas atribuídas internacionalmente por organizações que vão da Fundação Bill e Melinda Gates ao Howard Hughes Medical Institute, passando pelo Conselho Europeu de Investigação (CEI) e a Organização Europeia de Biologia Molecular. Esta última atribuiu recentemente uma bolsa de €50 mil euros anuais a Claudia Bank, responsável pelo laboratório de dinâmica evolutiva. Em 2017, Ana Domingos e Luís Teixeira tinham ganho do CEI bolsas no valor de mais de €4 milhões, enquanto que a atual diretora do IGC, onde entrou em 2006, já angariou cerca de €5 milhões.

 

A excelência da tecnologia

A qualidade da infraestrutura tecnológica, construída em parte com estes financiamentos, é ainda usada por cerca de 30 instituições nacionais e internacionais. Aqui dispõem de variadas estruturas e redes de investigação, como o BioData.pt-Rede Portuguesa de Dados Biológicos ou a Plataforma Portuguesa de BioImagem. Mas também de laboratórios equipados com tecnologia de ponta. Entre estes está um de transgénicos (onde são criadas linhagens geneticamente modificadas de ratos e moscas da fruta para investigação); um biotérico de roedores, peixes, moscas e sapos; uma unidade de bioinformática e biologia computacional, além de um centro de imagiologia avançada, considerado laboratório de referência internacional. Foi aqui que, em 2014, Gabriel Martins, coordenador de Imagiologia Avançada, filmou um embrião de codorniz ainda dentro do ovo com um microscópio OPenT montado pelo próprio. É cada vez mais comum que os investidores e a plataforma de suporte técnico-científica do IGC desenvolvam equipamentos internamente, reduzindo o investimento necessário. “É uma área nova, mas queremos bastante entrar na área de desenvolvimento de equipamento ou usar equipamento que já tenha sido desenvolvido noutros locais, mas que seja mais barato.” O objetivo é capacitar as infraestruturas locais dos investigadores dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa que passam por Oeiras e queiram regressar à origem. Parte deste trabalho será financiado pela Merck Family Foundation, que atribuiu €350 mil para promover o ensino científico em África.

Mónica defende que o IGC pode fazer ainda mais pela ciência em Portugal por via da internacionalização, “construindo um centro para ter mais conferências, cursos, receber investigadores em sabáticas”. Atualmente estão em Oeiras, em sabática, dois investigadores dos EUA e um mexicano, estando para breve a chegada de um japonês e um francês. O crescimento passa também por transferir para o mercado o conhecimento dos laboratórios. É com esse objetivo em mente que se está a trabalhar com o ITQB e a Câmara Municipal de Oeiras.

A verdade é que já existem hoje numerosas ligações à comunidade, que têm uma tradução mais óbvia na presença do instituto em festivais de música, realizando speed dates entre cientistas e público, ou o Dia Aberto, que mostra o que se faz no campus. O IGC, através do grupo de Ciência e Política, é ainda parceiro no projeto Fórum dos Cidadãos. A ciência-cidadã permitiu também lançar o Gripenet, um sistema de inquéritos capaz de antecipar uma epidemia de gripe. “É um projeto que passou para o Sistema Nacional de Saúde. Só o facto de as pessoas fazerem pesquisas no Google sobre sintomas de gripe já ajuda a prever mais cedo.” Atividades que ganham com a ligação à Fundação Gulbenkian, mas que não são as únicas.

No edifício principal está em exposição um quadro do britânico Rob Kesseler, que em 2010 foi artista residente, reproduzindo a estrutura celular de flores selvagens. Depois dele, foi a soprano Camille Van Lunen, que trabalhou aqui em novos projetos musicais. “Somos diferentes da maior parte das outras instituições porque temos a Fundação Gulbenkian, que investe em várias áreas, e podem surgir novos projetos à conta dessa interação da ciência e arte, ciência e desenvolvimento, ciência e educação.”

igc.gulbenkian.pt

 

por Hermínia Saraiva /// foto Sandra Ribeiro

Arquivos

Números

€14 200 000 /// orçamento 2017

121 /// contratos de financiamento em 5 anos

380 /// funcionários

283 /// investigadores

60% /// mulheres

O legado Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian é uma espécie de oásis no centro de Lisboa. Criada em 1956 por testamento do capitalista arménio Calouste Sarkis Gulbenkian, nascido há precisamente 150 anos, a instituição é parte integrante da cultura, ciência, artes, educação e sociedade portuguesa. No complexo modernista na Praça de Espanha, considerado Monumento Nacional desde 2010, existe um museu que alberga a coleção particular de Calouste Gulbenkian e um extenso acervo de arte modernista e contemporânea. Há uma orquestra e um coro residentes num auditório onde já tocaram grandes nomes da música mundial, além da biblioteca de arte e arquivo. Tem ainda um importante departamento educativo.

gulbenkian.pt

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