Ilhéus das Rolas – Equação para a felicidade

on Aug 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

O luxuriante umbigo do mundo fica em São Tomé e Príncipe e é onde os trópicos cruzam a selva, o mar, a história e a felicidade simples.

Há cem anos, em 1919, Gago Coutinho – oficial da Armada Portuguesa, mais tarde famoso por ter completado, ao lado de Sacadura Cabral, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul (Lisboa-Rio de Janeiro) em 1922 – concluía o seu Relatório da Missão Geodésica da Ilha de São Tomé 1915-1918. No documento, traçava-se em coordenadas o destino de um pequeno ilhéu no Golfo da Guiné. Era aqui, onde a linha do Equador se cruza com o meridiano de Greenwich, que ficava o centro do mundo.

No exato lugar onde um padrão, mandado construir em 1936, assinala o grau zero-zero da Terra, podemos saltitar alegremente entre o hemisfério sul e o hemisfério norte, galgar num só passo de oriente para ocidente e deslumbrar- -nos com a magnífica paisagem à nossa frente. Este é um sítio raro, magnético, onde os coqueiros se levantam sobre a selva entrando pelo mar adentro e onde as árvores floridas escorregam pelo morro abaixo, abrindo o horizonte para os contornos vulcânicos da ilha de São Tomé, que fica do outro lado de um braço de mar. Lá está, envolto numa névoa azulada, o Pico do Cão Pequeno e, mais além, o Pico do Cão Grande, monumentos naturais da ilha-mãe.

A escassos 20 minutos de barco da aldeia piscatória de Porto Alegre, o Ilhéu das Rolas é local de romaria obrigatória quer para os amantes da cartografia, quer para quem procura um banho retemperador de natureza e, se os olhos também comem, este é o lugar certo para os encher com memórias paradisíacas.

À medida que nos aproximamos do pequeno ancoradouro da ilha, vão-se tornando mais nítidos os edifícios da antiga roça, destacando-se a casa da administração e a bonita capelinha de Santo António. Mal desembarcamos, vislumbramos para lá das palmeiras os bungalows e a piscina do resort Pestana Equador, onde nos instalámos depois de uma refrescante bebida de boas-vindas. Estão apenas 28 graus celsius, mas é tal o grau de humidade que temos a sensação térmica de estar numa sauna finlandesa, desculpa mais do que suficiente para nos abandonarmos aos prazeres da piscina de água salgada em vez de nos lançarmos na viagem exploratória da ilha.

Quando finalmente ganhamos coragem para sair de dentro de água, o sol já se vai pondo entre nuvens negras que crescem no horizonte, proporcionando um assombroso espetáculo de luz, antes de o céu desabar sobre as nossas cabeças. A chuva cai abundante, cortina translúcida soprada por ventos fortes que nos varrem e lavam a alma no umbigo do mundo.

 

Beleza rara

Na manhã seguinte tudo se apaziguou e sopra um ar fresco vindo de oriente. Ainda mal o sol nasceu e eis-nos a entrar selva adentro, prontas para dar a volta à ilha num percurso de cerca de três horas, equipadas com botas e meias, chapéus, garrafas de água e máquina fotográfica. Começamos pelos bonitos miradouros que ficam no perímetro do hotel e que se debruçam sobre o mar. O do Amor, o da Esperança, o das Sete Pedras, cada um conta a sua história, mas são as vistas e a cor do mar que nos arrancam pontos de exclamação.

O grau de dificuldade aumenta quando nos embrenhamos num caminho ladeado por palmeiras que nos levará até ao outro lado da ilha. Jaílson, um dos habitantes da comunidade local, onde residem cerca de 150 pessoas, cai subitamente aos nossos pés, vindo do alto de um coqueiro. É um trepador nato e em menos de minutos sobe o tronco e regressa com um coco fresco que nos abre para bebermos. Ao longe ouve-se o mar a rugir. Estamos perto, aliás, aqui tudo é perto e qualquer um pode dar a volta à ilha munido com o mapa tosco que nos é fornecido no hotel.

Subitamente, a selva diminui de intensidade e abre-se uma clareira através da qual se antevê a tropical Praia Joana. Optamos por seguir para o nosso lado esquerdo, sempre junto à orla do mar, passando por um buraco escavado na rocha que lança para o ar repuxos de água, lembrando um géiser. Logo a seguir, enterrada numa pequena e inacessível baía, fica a Praia Escada, onde as ondas dançam, entrando por uma caverna e chocando umas contra as outras. É de uma beleza tão rara que merece ser contemplada longamente e em silêncio por respeito à criação da natureza.

O calor começa a apertar. Decidimos subir até ao marco que assinala a passagem do Equador antes de ficarmos feitas em papas. Depois de saltitarmos de um lado para o outro e de nos passearmos sobre o mapa-múndi pintado no chão do monumento, descemos o morro, passando pela vibrante comunidade piscatória, e atirando- -nos de cabeça para o apetitoso mar da Praia Café. Compramos peixe acabado de pescar que é grelhado ali mesmo na areia e ficamos a debicar banana frita e a beber cerveja tagarelando com os pescadores. Nunca antes a equação para a felicidade nos pareceu tão simples.

 

por Patrícia Brito /// fotos Verónica da Costa

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Conselhos práticos

O clima equatorial não é o mais fácil para caminhadas. Antes de se embrenhar num dos vários percursos disponíveis, equipe-se a rigor com meias, botas e chapéu, leve uma boa dose de água e não se esqueça do repelente. Vai precisar dele. Na comunidade piscatória e no resort há guias à sua disposição e, embora possa fazer sozinho qualquer um dos percursos, com a ajuda de um guia poderá ficar a conhecer melhor a história, cultura, a fauna e a flora do ilhéu.

turismo.gov.st

Pestana Equador

Salpicado por bungalows espalhados num bonito jardim, o Pestana Equador é uma referência na hotelaria das ilhas. A piscina de água salgada, o spa, o restaurante, os dois bares e a qualidade do serviço são mais do que tudo aquilo de que precisa para passar uns dias relaxantes e inesquecíveis neste paraíso que é o meio do mundo. Em regime de meia pensão ou de pensão completa, surpreenda-se com a criatividade do chef chileno do restaurante e não deixe de fazer uma massagem à beira do mar. Há prazeres que não se repetem.

pestana.com

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