Ilhas Galápagos, Equador

on Jan 1, 2012 in Lugares do mundo | No Comments

Saberão os turistas espaciais da existência deste paraíso? Em terra e no mar, Joana Stichini Vilela sentiu-se noutro planeta. Há paisagens lunares, espécies únicas no mundo e milhares de animais que ainda não sabem o que é isso do medo do ser humano.

Mais difícil do que controlar crianças numa loja de doces é fazer babysitting a turistas nas Galápagos. Nunca cheguei a perceber se o reformado francês do nosso grupo era mouco ou duro de ouvido. Com tanto jeito para línguas como as iguanas marinhas que nos observavam, a guia equatoriana optou pela primeira. O monsieur entrava em transe fotográfico e ela gritava “Señor! Señooor!”. Até que um longuíssimo e sonoro “Señoooooor!!!” acabou em “splosh”: uma iguana manca foge disparada, ciente, por fim, de que o bicho de nariz de objectiva não é de fiar.

Para ser justa, também eu estive a ponto de pisar um destes gladiadores. Tal como a tartaruga gigante, o cormorão e o leão-marinho, todos seguidos do apelido “das Galápagos”, as iguanas marinhas são uma das muitas espécies endémicas deste paraíso isolado. Ou seja, só existem aqui. Mas nestas 18 ilhas, mais 40 ilhotas, a 970 km da costa do Equador, são aos milhares. Cospem-se, pisam-se e entrelaçam-se em tapetes de malha metálica. E, tal como os companheiros de condomínio, sem predadores naturais, têm pouco ou nenhum medo do ser humano.

Se não fossem alguns dos mochileiros com quem nos cruzámos nas primeiras semanas na América do Sul, é provável que nem tivéssemos chegado a embarcar no avião para Santa Cruz – uma extravagância numa aventura low-cost. Em plena selva colombiana, um suíço transpirado deu-se ao trabalho de ir buscar a máquina digital. “Olhem.” E lá estavam os leões-marinhos, brincalhões, a meio metro de distância. O sorriso palerma com que nos contou que nadara com eles foi o mesmo que ostentámos nas horas que se seguiram ao primeiro mergulho na ilha Isabela, a maior do arquipélago, e que repetimos de todas as vezes que demos de caras com aqueles bigodes farfalhudos.

Passados poucos dias naquele mundo perdido comecei a pensar cancelar todos os planos para o resto da viagem. Em que outro lugar poderia assistir ao almoço de três tartarugas marinhas à luz, não de velas, mas dos raios coados pelo mar, minutos depois de me cruzar com um tubarão azul, numa corrente quase constante de peixes coloridos? Visões de outro planeta ao alcance de uma simples máscara e tubo. Será que os turistas espaciais sabem da existência das Galápagos? Dos rios de lava da ilha de Santiago? Das crias de leão-marinho nas areias escuras de Fernandina?

Percebi, então, que era uma privilegiada. Foi isto que viram os primeiros exploradores. Foi assim que se sentiu Darwin. Queria ficar ali para sempre. Hoje só penso em voltar. Mesmo correndo o risco de me cruzar a qualquer momento com uma turba de reformados franceses, não sei se moucos, se duros de ouvido, em perfeito transe fotográfico.

por Joana Stichini Vilela

 

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