Ilha de Moçambique – Moçambique
Viaje com Patrícia Brito por um sítio único no mundo. Uma ilha cuja magia se desprende quer da arquitectura dos edifícios, quer da humana.
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Percorro a Cidade da Ilha de Moçambique de trás para a frente e vice-versa, como se estivesse a coleccionar passos, absorvendo todos os instantes que, a cada esquina, me revelam pormenores da vida quotidiana.
Esta ilha feita de tempo e de raças misturadas tem qualquer coisa de belo e irrepetível que se solta das paredes em osso e se cola à nossa pele. As cores do Índico, uma alma portuguesa e muçulmana e negra e indiana. Capulanas e saris vagueando pelas ruínas, crianças de uniforme ou descalças nas ruas de atmosfera colonial, vozes portuguesas e macuas papagueando conversas, os cheiros a vidas complicadas que chegam da cidade Makuti, bairro pobre e cinzento, abaixo do nível do mar. E o mar do Índico. Turquesa e safira como em postais idílicos, varrendo mansamente a costa entre o Forte de São Sebastião, a norte, e a Igreja de Santo António, a sul.
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Na cidade de pedra, ruínas em reconstrução, as paredes carcomidas falam de dias portugueses que aqui se desenrolaram por 500 anos, incluindo os de visitantes ilustres, como Vasco da Gama ou Luís de Camões, cujas estátuas olham a poente e a nascente, um desafiando os mares e o outro demandando os céus.
Encosto-me agora às muralhas centenárias do Forte de São Sebastião, marco da colonização portuguesa, para ouvir os sons que chegam do mar incrivelmente azul, com barcos artesanais ao longe e pescadores de calças arregaçadas procurando mariscos na maré baixa. A caminho da Igreja de Santo António, na ponta sul da ilha, fica o bairro dos pescadores e das pessoas comuns, gente simples com a mesa posta, duas cadeiras, e pouco mais que paredes. Gente que discute preços e ninharias no mercado semanal à porta da igreja.
Apaixono-me. Viajo com as caravelas de Vasco da Gama que, na sua segunda viagem à Índia, fundou na Ilha de Moçambique uma cidade cosmopolita que haveria de ser a capital da África oriental portuguesa até 1898. Perco-me no meio de pessoas gentis e disponíveis que me pedem para ser fotografadas e sorriem, que usam camisolas do Sporting e do Benfica sujas e esburacadas. Que se orgulham de pertencer a este pedaço de terra ligado ao “continente” pela ponte de 3,5 quilómetros, porta de entrada numa surpreendente máquina do tempo.
Na despedida, levo, presas à alma, as palavras do poeta moçambicano Rui Knopfli em A Ilha de Próspero: “Em pleno dia claro / vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos / de sal e esquecimento.”
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por Patrícia Brito
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