Hit the road, Jacks!
Uma viagem pela Califórnia do Norte inspirada na vida e obra de dois grandes Jacks: o Kerouac e o O’Neill. De um dos mais icónicos spots do surf mundial à rua mais gay do planeta, Maria Ana Ventura tem muito que contar.
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Em On The Road, Jack Kerouac, o homem que celebrizou a geração beat, a benzedrina (um preparado de anfetamina) e que relatou uma das mais alucinantes viagens pelos EUA, escreve: “Só me interessam as pessoas doidas, que estão doidas por viver, por falar, desejosas de tudo ao mesmo tempo e nunca bocejam nem dizem nada banal… mas que ardem, ardem, ardem como fogo-de-artifício riscando a noite”. Jack O´Neill é um desses seres. A Kerouac voltarei mais adiante.
O’Neill já está na casa dos 80 anos. Tem cara de lobo, não de mau, mas do mar. E, a bem da verdade, ele é isso mesmo: um lobo-do-mar à antiga! Quando em meados do século passado o surf era ainda um passatempo sujeito às manhas das estações do ano e confinado às latitudes tropicais, Jack O’Neill era um dos poucos bravos que enfrentava as águas gélidas da Califórnia do Norte mesmo no inverno. Nesse tempo, os que eram loucos o suficiente para isso, surfavam vestidos com camisolas de lã ou aqueciam-se à beira de uma fogueira na praia, entre ondas. O’Neill foi o responsável pela reviravolta que hoje nos permite ver surfistas no mar ao lado de pinguins da Antártida, nas terras altas da Escócia, na remota Tasmânia e até na ilha de Vancouver, no Canadá. A culpa é de Jack, o visionário, o inconformista, o louco, que inventou o fato térmico, ou segunda pele do surfista. E isso foi o princípio de tudo.
A santíssima trindade de Santa Cruz
Estou em Santa Cruz, na Califórnia. O lugar onde Jack decidiu assentar arraiais e levar avante os seus sonhos. Foi aqui que sediou a marca que leva o seu apelido pelo mundo e que nasceu numa garagem, em São Francisco. Vim para ver o O’Neill Cold Water Classic Santa Cruz: uma das três etapas de uma série de eventos que integram as provas de qualificação da FIFA do surf que se chama ASP (Association of Surfing Professionals). A fama do local precede o evento. Steamer Lane (para os amigos, que é como quem diz, os surfistas) ou Lighthouse Point (para o comum dos mortais) é a onda perfeita que quebra em frente ao farol, a noroeste de Monterey Bay. Foi neste spot icónico do surf mundial que Jack deu cabo do olho esquerdo, o que o obrigou a andar com uma pala de pirata para o resto da vida.
Em Lighthouse Point o havaiano John John Florence veste a Lycra® de competição, faz alongamentos, confere o wax na prancha e ajeita o leash, aquele penduricalho que prende a prancha ao pé do surfista e que é uma invenção de Pat O’Neill, um dos seis filhos de Jack. À volta dele amontoam-se curiosos, aficionados e gente que só aqui veio “para ver as modas”. Velhotas aos pares para o passeio matinal e homens feitos que surfam desde que lhes romperam os primeiros dentes. Senhoras bem-postas e tipos musculados que deitam o olho à onda, por cima do ombro, enquanto prosseguem o jogging. Passeiam-se rastafaris de skate, deambulam tipos com ar de quem abusou dos ácidos e da marijuana vestidos com camisolas de batik e passam casalinhos com bicicletas vintage a condizer.
As ondas que não estão por conta da competição estão à pinha. Surfam homens, mulheres, louros, morenos, miúdos de jardim-escola e até cães. Há ainda quem se dedique à pesca e quem prefira o caiaque. Na linha do horizonte navega o catamaran da O’Neill, onde miúdos da escola primária embarcam numa odisseia marítima para estudar de perto a fauna e flora da baía de Monterey, habitat de elefantes marinhos, baleias de bossa e lontras que nadam, chapinham e urram desenfreadas. Não os vejo, mas sei que também por lá andam tubarões brancos. Felizmente, deixam-me surfar em paz e sossego no Pacífico, tão calmo hoje como há 500 anos, quando o meu conterrâneo Fernão de Magalhães o atravessou e lhe deu nome.
Parte dos meus dias são passados na competição que se desenrola ora em Steamer, ora em Waddel Creek, conforme os humores das marés e das ondas. O sul-africano sensação Jordy Smith, os brasileiros Miguel Pupo e Willian Cardoso e o australiano com asas Josh Kerr estão em forma. Tal como Nat Young, o miúdo que joga em casa. Sem que muitos apostassem nisso, o meu amigo e ídolo, o português Tiago “Saca” Pires, foi-se esgueirando como um rato e passando heat atrás de heat até se juntar a Miguel Pupo na final. O derradeiro heat do campeonato é por isso discutido em duas melodiosas variantes da minha língua: o português do fado e o português do samba. Ganhou o samba…
No tempo que me vai sobrando desbravo cada centímetro quadrado desta surf city libertária que não segue modas, ao contrário das primas afastadas do sul da Califórnia (sim, estou a falar de L.A, O.C. e afins). Santa Cruz sempre esteve um passo à frente do seu tempo. Nos anos 70, um jornal local publicou um guia para inseminação artificial caseira destinado à comunidade lésbica desta cidade que, durante muitos anos, teve à frente do município um presidente que não era nem carne nem peixe – nem republicano, nem democrata –, mas socialista. Moderna numas coisas e conservadora noutras. Santa Cruz também é clássica, e o seu mítico pontão de madeira, construído em 1907, é prova disso mesmo. Ali perto fica outro ícone, o parque de diversões mais cool em que alguma vez pus os pés. É o mais antigo do Oeste dos EUA e está fechado, mas o seu glamour é tanto que fecho os olhos e consigo ouvir e sentir o alvoroço da feira num dia de verão. Os miúdos que pedincham mais uma volta na montanha-russa, a música do carrossel, o cheiro a algodão doce e a maçãs caramelizadas.
Belisco-me e volto ao mundo real. Depois, dou um pé de dança com a Wonder Woman numa aula de salsa improvisada no areal e janto um burrito que mais parece um elefante. Estou cheia que nem um peru de Natal! Bem sabia que devia ter escolhido a lagosta do Maine… Por causa disso, não tenho outro remédio senão dar uma voltinha num touro mecânico e fico-me pela noite louca da baixa da cidade na companhia do Monstro das Bolachas, do Homem-Ervilha, do Capitão América e dos irmãos Mário da Nintendo. Não, não tomei ácidos: é Halloween.
If you’re going to San Francisco
As quintas de abóboras, as lojas de beira de estrada onde se vendem compotas caseiras e os parques florestais minados de sequóias e pinheiros já ficaram pelo caminho. Half Moon Bay também. Foi lá que parei para almoçar e para espreitar Mavericks, o lugar onde quebra uma das ondas mais pesadas do mundo. Cumprido esse desígnio pessoal, sigo caminho pela Highway 1 que, mais milha, menos milha, há-de de desaguar em Frisco. Passo os túneis que rasgam desfiladeiros junto ao mar e terreolas alindadas e ordeiras que se tornam maiores e menos espaçadas à medida que chego à “Cidade”.
A malta de São Francisco é orgulhosa. E ponto. É orgulhosa porque é prá-frentex e desinibida. É orgulhosa porque mora num lugar que, fora os abanões ocasionais, é talvez a melhor morada dos States. São Francisco não cabe nestas páginas. Mas eu não quero, não posso, nem devo deixá-la passar em branco. Seria injusto para o outro Jack desta viagem: o Kerouac.
Perco-me de amores por San Fran, onde voam papagaios, se hasteiam bandeiras com as cores do arco-íris e onde há ruas e becos rebaptizados com grandes nomes das letras americanas. Kerouac é um deles. Vou ao Fisherman´s Wharf, subo e desço as vertiginosas colinas, poso para a posterioridade junto à Golden Gate e sento-me à beira da Baía a ver Alcatraz por um canudo. Saio à noite em Castro Street – uma das ruas mais gay do planeta –, com a certeza de que muito ficou por ver e fazer. Penso nisto no dia seguinte com os pés na areia de Ocean Beach, onde tantas vezes surfou O’Neill. Ele e Kerouac são contemporâneos, mas não sei se alguma vez se cruzaram. Desconfio que sim, até porque O’Neill cumpre à risca o que Kerouac escreveu um dia: “Life must be rich and full of loving – it’s no good otherwise, no good at all, for anyone.”
texto e fotos de Maria Ana Ventura
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