Hélder Rodrigues – O ás das duas rodas

on Jan 1, 2012 in Talento em Português | No Comments

É o português que venceu mais etapas do rali Paris-Dakar. Em 2011 subiu ao pódio da prova rainha do Todo-o-Terreno e sagrou-se Campeão Mundial da modalidade. Por tudo isto e muito mais, ganhou o título de Atleta do Ano em Portugal. O nosso motociclista de ouro ainda tem muito mais para mostrar.

 

 

Estamos em novembro de 2011. O mítico Paris-Dakar só começa em janeiro, mas Hélder Rodrigues não tem tempo para se coçar. O piloto já só pensa na prova rainha dos ralis. No ano passado ficou em terceiro e subiu pela primeira vez ao pódio. Este ano quer repetir o feito e, se puder subir mais dois degraus, ótimo! “O pódio do Dakar foi sem dúvida um grande objetivo que consegui atingir. Fiquei atrás de dois pilotos oficiais e, portanto, fui o melhor piloto semi-oficial, o melhor piloto Yamaha e também o melhor português. São muitos motivos de satisfação. Foi um resultado histórico, mas para lá chegar tive muito que sofrer. Penso que foi o Dakar mais complicado da minha carreira, tive vários contratempos, mas cortei a meta com o sentido de missão cumprida.”

Foram nove mil quilómetros duríssimos que o deixaram de rastos, mas ainda se bebia o champanhe da consagração e já Hélder tinha os olhos postos na etapa que agora se aproxima. A luta continua, e quando se tem pela frente dois pilotos consagrados como Cyril Despres e Marc Coma a tarefa torna-se ainda mais difícil.

 

O treino faz a perfeição

 

Apanhar Hélder por estes dias não é tarefa simples. Se não está a acelerar pelas pistas e pelos campos, está no ginásio, a andar de bicicleta ou a correr em Sintra, onde mora. E quando não está a fazer nenhuma destas coisas trata do material e de toda a logística que é enviá-lo para a Argentina, que atualmente recebe uma parte da prova que ficou famosa em África. Sobre a mudança de continente do Dakar, Hélder não é purista. “Tanto um como outro [o Dakar de África e o da América do Sul] têm as suas coisas boas. O deserto africano é um percurso mais espetacular, mas na América do Sul temos mais público e isso é bom para os patrocinadores.” Um deles é a TMN e é preciso tirar o chapéu à empresa portuguesa que pôs debaixo da sua asa uma equipa de desportistas portugueses fora de série. Do surf, ao ténis, passando pelo golfe, kitesurf, automobilismo, vela, hipismo, skate e kickboxing, a equipa soma e segue. Hélder, que este ano se tornou campeão do mundo de Todo-o-Terreno – depois de vencer a última etapa do Rali dos Faraós, no Egito –, não poupa elogios à iniciativa. “Até há bem pouco tempo os patrocínios nacionais não nos permitiam competir no estrangeiro, a TMN mudou isso. São apoios como este que fazem a diferença entre ser-se ou não campeão do mundo”, afiança o piloto, que também tem o apoio da Red Bull e da Yamaha.

O ano passado Hélder deu um enorme retorno a quem apostou nele. O pódio do Dakar e o Mundial foram só dois dos motivos – numa carreira recheada de sucessos – que o fizeram ser eleito Atleta do Ano na 16ª Gala da Confederação do Desporto em Portugal. A escolha foi do público português, que num momento raro preferiu o desporto motorizado ao futebol e, por conseguinte, Hélder a Cristiano Ronaldo.

 

No princípio era a paixão

 

Hélder começou a andar de mota aos sete anos e aos nove recebeu a sua primeira motorizada. Não competia, brincava. Aos 14, um primo convenceu-o a competir e fez a primeira corrida num campeonato regional de motocross. Ficou em segundo. “Nessa altura competia como amador, era uma coisa que fazia por paixão”. Só aos 18 é que a coisa ficou séria. Hélder entrou com toda a energia na competição (na modalidade de Enduro) e limpou a concorrência. Daí para frente foi só colecionar títulos (ver caixa).

Certo dia, em 2005, estava a treinar com o amigo Pedro Amado – que foi o primeiro piloto português a acabar o Dakar – quando este lhe disse: “Então, Hélder! Vais ao Dakar? Não?! Tens de ir que este ano vai partir de Portugal. Faz-te à estrada!”. Foi aí que lhe caiu a ficha. O sonho era antigo, mas os astros ainda não se tinham alinhado para que acontecesse. Inscreveu-se à última da hora. Nem tempo para treinar sobrou, foi emalar a trouxa e seguir caminho. “Quando parti para o primeiro Dakar, em 2006, só sabia andar de mota, não sabia mais nada. Deram-me o road-book para a mão e eu nem soube enrolá-lo. Foi uma aventura e peras!”. No final tudo correu pelo melhor e tomara muitos estrearem-se no deserto a arrecadar o nono lugar da geral.

As provas sucederam-se, ano após ano, e as viagens aumentaram. Além de piloto profissional, Hélder é também um viajante profissional. “É por isso que conheço tão bem a UP”, brinca. Gosta de correr nos Emirados Árabes Unidos, “é um bom sítio para competir, apesar do calor infernal. Adoro a Argentina e vou muitas vezes a Marrocos treinar, por ser aqui pertinho. Passar férias? Hum… no Brasil, onde está sempre calor!”. No kit de viagem, além dos capacetes, motas, peças, equipamento e quinquilharia do costume, vão sempre a máquina fotográfica e os tampões dos ouvidos para dormir em paz e sossego.

 

Agora é a vontade

 

“A minha carreira tem-me dado muitas coisas boas: vitórias, viagens, amigos e uma maneira diferente de estar na vida.” Hélder acredita que por se ter dedicado de corpo e alma ao desporto ganhou mais método, rigor e organização. Coisas que põe em prática não só ao volante, mas também fora das pistas, na gestão da equipa, na mecânica, na relação com os patrocinadores e outros “trabalhos de escritório” que é preciso fazer de vez em quando. Fazendo uma espécie de balanço, o piloto lembra com nostalgia a vitória na emblemática prova Internacional Six Days of Enduro, em 2003. “Um momento mágico, uma prova sofrida mas que consegui vencer por estar bem preparado.” No baú de memórias a única que apagaria, se tivesse esse condão, seria o acidente grave que sofreu em 2007 na Patagónia. Felizmente a recuperação foi quase tão rápida como Hélder é rápido a acelerar pelas areias deste mundo.

Helder sabe que nada dura para sempre e que no mundo do desporto há carreiras que podem ser curtas. O seu plano B, um projeto para o futuro, é trabalhar com o mesmo afinco e dedicação que tem tido até aqui, seja no mundo das motas ou não. Outro desejo é usar a sua imagem para ajudar os que precisam, sejam jovens pilotos em ascensão ou populações necessitadas em África. Faça o que fizer na vida, o mais bem-sucedido piloto português é a prova viva de que a sorte protege os audazes.

 

por Maria Ana Ventura

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